GABRIEL NOVIS: O amor entre pessoas idosas é um dos inúmeros preconceitos que envergonham a humanidade.

Gabriel

O amor na velhice

Por Gabriel Novis Neves

Apesar de pouco alardeado, o amor entre pessoas idosas é mais um dos inúmeros preconceitos que envergonham a humanidade.

Sob a perspectiva de uma capa protetora, geralmente mal identificada, amigos próximos cerram fileiras contra qualquer possibilidade de novos encontros afetivos de um idoso.

E ele, já alquebrado pelas perdas naturais que a vida foi lhe trazendo, mostra-se incapaz para buscar novos caminhos que possam aplacar a sua enorme solidão.

Afinal, onde está escrito que amar, ainda que no outono da vida, trás menores satisfações de alegria, saúde e prazer, do que na mocidade?

Muito pelo contrário. Estudos recentes mostram que o desejo acompanha o indivíduo até os dias finais de sua vida.

Talvez por vergonha ou pudor muitos idosos abdiquem desse final prazeroso, e não porque seus amigos passam a reagir histérica e irracionalmente contra as suas pretensões amorosas.

A mesquinharia e a agressividade com o idoso, aumentam os estados depressivos comuns nessa faixa etária.

A natural alegria de ver alguém próximo feliz é substituída pelo rancor e inveja de pessoas que geralmente lidam mal com as suas frustrações amorosas, incapazes de exorcizar as suas próprias inseguranças.

O velho, como nada de muito forte tem a perder, costuma se jogar intensamente nessas relações afetivas tardias, como tábuas de salvação atiradas a um náufrago.

Penso estar aí a razão da imensa inveja dos jovens, na maioria tão centrados em si mesmos e, portanto, incapazes de vivenciar a plenitude do verdadeiro amor.

O genial Shakespeare definiu muito bem em algumas de suas peças esse desprezo oculto pelo idoso, tornando-o um objeto descartável de consumo, apenas valorizado pelos bens adquiridos durante a vida e que justifiquem a sua presença como futuro doador.

Realmente, não é fácil amar e, principalmente, entender que esse sentimento não pode e não deve se confundir com posse.

Entendo que a única forma de amar é querer ver o outro feliz. Toda e qualquer outra forma de amor é apenas dominação e poder e, assim sendo, inválida.

Alguns poucos privilegiados e corajosos, apesar de todas essas cargas sociais, conseguem viver os seus últimos anos de vida impactados por um amor renovado.

Sim, porque o amor é sempre o mesmo, apenas se apresenta de diferentes formas e, portanto, tão belo ou mais que os anteriores.

Esses poucos valentes enfrentam os preconceitos sociais que muitas vezes insistem em rotulá-los de dementes ou esclerosados.

Recebem como prêmio o brilho do olhar, única beleza que nenhuma plástica consegue jamais trazer nessa faixa etária.

Numa sociedade saudável, o nosso grande prazer deveria ser a visão de pais, avós e, até mesmo, bisavós, cumprindo as suas viagens aqui na Terra de uma maneira lúdica e leve, desde que as disposições físicas assim o permitam.

Nunca massacrados por preconceitos imbecis, despidos de qualquer razão.

Talvez nos falte um pouco mais de ciência e de sabedoria para lidar com a alegria e abandonar definitivamente a culpa judaico-cristã que tem massacrado a humanidade por tantos anos.

Amor é, fundamentalmente, respeito ao outro.

 “Posse e dominação” configuram apenas “mesquinharia” e “desamor”.

Viva e deixe viver” – esse deveria ser o lema de todas as pessoas bem intencionadas.

Gabriel Novis Neves é médico e professor aposentado em Cuiabá. Foi reitor fundador da UFMT. Crônica originalmente publicada em 15-10-2014

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