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GABRIEL NOVIS NEVES: O exemplo que espero é aquele de cima para baixo

Gabriel

 

EXEMPLO

Por Gabriel Novis Neves

 

Na cidadezinha do interior fui educado pelos meus pais. Suas aulas eram sempre baseadas nos ditados populares. Escolhi um para lembrar principalmente às novas gerações, a sabedoria dos mesmos. “O exemplo vem de cima”, uma das principais matérias do livro de educação para a vida. Não há possibilidade alguma de se construir algo se o bom exemplo não vier de cima. A ortografia muda, a linguagem muda, a moeda muda, a moda é a própria mudança, mas os ditados populares não mudam. O Brasil vive um tremendo tsunami pelos exemplos que vem de cima.

Não adianta reconhecer a honestidade do limpador de banheiro do Aeroporto Internacional, que encontrou dez mil dólares e entregou ao distraído viajante. E mais, se recusou a receber a gratificação pelo seu ato de pura honestidade. Por um dia esse faxineiro ficou famoso sendo notícia na televisão e jornais. Até condecoração recebeu do Presidente da República, como ser honesto não fosse dever e sim privilégio de poucos. Depois o trabalhador volta ao anonimato do seu serviço. A sua aposentadoria pelo INPS será de um salário mínimo. O exemplo vindo de baixo como deste faxineiro é tratado como espetáculo, coisa do outro mundo, achado de algo perdido.

O exemplo que espero é aquele de cima para baixo. Com o emprego desta centenária técnica não há necessidade de cursos de liderança, implantação de treinamento de recursos humanos para a humanização das empresas, palestras de auto-estima, ou faixas comemorativas nas datas que o comércio nos impõe. Nem o humilhante e ultrapassado beija-mão em homenagem ao chefe.

O trabalho, seja qual for, tem que ter a cara do chefe. Um chefe trapalhão pode investir milhões de reais em treinamento de pessoal que é jogar dinheiro pelo ralo. Fico imaginando como os nossos chefões comandam os seus serviços numa comunidade em que todos conhecem a sua vida verdadeira, e o seu exemplo, às vezes, constrangedor.

Fui durante quarenta anos funcionário público. Enganam-se aqueles que acham que há sigilo no serviço. Para se fazer trapaças há sempre necessidade de uma sociedade com um subalterno. Aí a cobra fuma. O chefe vira refém e ninguém mais o reconhece como tal. Faço estas reflexões no momento em que o nosso país precisa de exemplos que vem de cima em todos os seus setores: públicos, privados, comunitários, religiosos. Do contrário não há saída e a podridão um dia aparece.

Gabriel Novis Neves. aos 85 anos, é medico aposentado em Cuiabá.
Artigo publicado originalmente em 15-07-2009

Categorias:Mora na Filosofia

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