FREI BETO: Para Igreja, mulher ainda é inferior ao homem

Frei Betto

“Só o papa pode acabar com a hipocrisia”

Da Itália, o escritor e frade dominicano diz que o papa Francisco não tem mais como segurar a discussão na  Igreja sobre o uso da camisinha, o sexo sem procriação, a ordenação de mulheres e a reinclusão dos padres casados

por Gisele Vitória – da ISTOÉ

ENTRE-01-IE.jpg OTIMISMO O frade em Bérgamo, terra de João XXIII: “Chega de escândalos na Igreja”

Frei Betto desembarcou em Roma uma semana após o conclave que elegeu papa o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio. A viagem para rodar a Itália num ciclo de palestras é sua rotina há 33 anos. O mineiro dominicano tem debatido com 300 pessoas em cidades como St. Gemini, Parma e Bérgamo, que, ele lembra, é a terra do papa João XXIII, responsável pelo Concílio Vaticano II, que evocava a renovação da Igreja. De lá, falou à ISTOÉ, por  telefone. “O grande tema é o papa e as reformas. Todos estão na expectativa”, conta. A franqueza de Frei Betto vem da alma progressista dos frades dominicanos. Escritor com mais de três milhões de livros vendidos em vários idiomas, Carlos Alberto Libânio Christo tem sido, nos últimos 40 anos, um dos religiosos mais veementes e críticos do País. Foi preso duas vezes pelo regime militar – em 1964, por 15 dias, pelo ativismo na Juventude Estudantil Católica, e de 1969 a 1973, já frade e jornalista. Torturado, passou até um mês trancado numa solitária. Um dos maiores difusores da Teologia da Libertação, é autor de romances e outros títulos, como “Fidel e a Religião”, que ajudou a aproximar a Igreja do Estado cubano. Até hoje é figura querida em Cuba e mantém amizade com Fidel Castro. “Tenho várias críticas ao governo cubano, mas, como sou amigo, faço-as lá. Críticas se fazem a amigos. Denúncias, a inimigos”, resume ele, que foi assessor especial do ex-presidente Lula no primeiro mandato. De volta ao Brasil, Frei Betto lança na terça-feira 2, em São Paulo, o romance “Aldeia do Silêncio”, no Itaú Cultural. No Rio, o lançamento será no Esch Café no dia 9, e em Belo Horizonte, na Cemig, no dia 10. O livro trata da linguagem do silêncio. “Vai na contramão do mundo acelerado e tagarela de hoje, das pessoas sempre conectadas.”

Sem-Título-1.jpg “O papa Francisco  vai ter que abrir o debate da moral sexual na Igreja. Não dá para segurar mais”

2.jpg “Bento XVI ficou abalado ao saber da rede de prostituição de seminaristas em Roma. Tudo isso foi levado em conta na renúncia dele”

Fotos: Tony Gentile/ REUTERS; EFE/ Osservatore Romano

Istoé -O que espera do novo papa? Como acha que Francisco reformará a Igreja?
Frei Betto –

Ele é muito simpático, carismático, adotou atitudes como a de cortar luxos. Tomara que faça também uma reforma na Igreja. Bento XVI, no gesto de humildade e grandeza ao renunciar, pôs para fora todo o mal-estar dele com a Igreja, chegando a dizer que nela existe hipocrisia, uma expressão muito forte. Tenho a impressão de que, ao adotar esse nome, o papa Francisco está propondo fazer essa reforma, que é necessária. Chega de escândalos. São financeiros, são sexuais, enfim, são de toda ordem. Dom Cláudio Hummes, que foi articulador da eleição dele, deu uma entrevista aqui em Roma, dizendo que o papa fará uma reforma na Cúria Romana. Dom Cláudio é muito cauteloso nas palavras. Trabalhei 15 anos com ele no ABC paulista. Ele jamais diria isso se não tivesse sido autorizado pelo papa.

Istoé -Acredita que ele se  aproximará da ala progressista da Igreja?
Frei Betto –

É cedo para avaliar. Tenho a impressão de que ele vai nessa linha do entendimento, do diálogo. Saindo da censura, da repressão.

Istoé -Como vê as acusações contra ele na época da ditadura argentina?
Frei Betto –

Fico com a opinião do Pérez Esquivel. Ele pode ter pecado por omissão, mas não por transgressão. Não foi cúmplice da ditadura. Acho que ele teve uma atuação mais do tipo de dom Eugênio Sales, no Rio, do que de dom Paulo Evaristo Arns, em São Paulo. Dom Paulo denunciou, enfrentou, bateu de frente com a ditadura. Dom Eugênio agiu nos bastidores.

Istoé -E a postura do papa em relação à união homossexual?
Frei Betto –

É uma interrogação. Parece que na Argentina não foi legal. Ele revelou preconceitos, essa coisa de dizer que união homossexual é coisa do demônio. Mas ele vai ter que abrir o debate sobre a moral sexual na Igreja. Não dá para segurar mais.

Istoé -A julgar pela opinião dele no caso dos homossexuais, o papa seria capaz de liderar essa abertura?
Frei Betto –

Na estrutura atual da Igreja, só ele pode liderar. Porque o papa quando decide que não se pode tocar nesse assunto, não se fala oficialmente. Quando ele diz que os divorciados não podem participar da eucaristia, milhões de bispos fazem vista grossa. Mas oficialmente não pode. Ou o uso do preservativo, os bispos fazem vista grossa, mas não pode. Então agora só o papa pode acabar com essa hipocrisia, usando a palavra do Bento XVI. Não é uma questão de ele falar que está decretado que os divorciados podem participar da eucaristia. É abrir o debate teológico sobre o que isso significa. Decretar ele pode. Um presidente da República pode decretar um monte de coisa, mas o importante é mexer na Constituição. Mais importante é rever o estatuto da teologia moral da Igreja.

Istoé -Como se abre esse debate?
Frei Betto –

Permitindo que teólogos, bispos comecem a falar,  a aprofundar o tema nas revistas especializadas, nas conferências episcopais, tomando medidas, como a reinserção de padres casados. Isso tudo tem que ser repensado porque a barra pesou muito. Até rede de prostituição de seminaristas em Roma descobriram.

Istoé -Acha viável a reinserção dos padres casados na Igreja?
Frei Betto –

São 100 mil no mundo, e cinco mil no Brasil. A gente tem que ir nessa direção. Na Igreja tudo é lento. Há padres casados que gostariam de voltar a exercer o sacerdócio. Na Igreja primitiva, uma coisa era a vocação para o sacerdócio e a outra a vocação para o celibato. E Jesus não tinha preconceito. Tanto que, no primeiro capítulo do evangelho de Marcos, ele curou a sogra de Pedro. Ora, se Pedro tinha sogra, é porque ele era casado. É o único apóstolo que a gente tem certeza de que era casado. E ainda assim Jesus o escolhe para primeiro líder da Igreja, o primeiro papa.

Istoé -Um dos entraves seria a questão patrimonial?
Frei Betto –

A história das igrejas protestantes mostra que isso é bobagem. Se não acontece nelas, por que aconteceria na católica? Isso é um argumento usado pelos conservadores. Pastores recebem salário e mantêm famílias. E também sou a favor da ordenação de mulheres. Atualmente, a resistência é grande, mas não há razão evangélica e teológica que impeça a mulher de ser sacerdote, bispo, arcebispo, cardeal e papa.

Istoé -Por que a igreja vive num tempo tão diferente do mundo?
Frei Betto –

A Igreja tem isso. Em certos temas, sempre chega tarde. No século XIX, chegou a condenar o progresso, veja só. E também a luz elétrica.

Istoé -Também acha que não dá mais para proibir a camisinha?
Frei Betto –

Não dá de jeito nenhum. Isso vários cardeais já disseram. Dom Paulo já usou essa expressão: é um mal menor. Tem que usar o preservativo porque existem a Aids e outras doenças. Isso vai ter que ser profundamente debatido. O debate existe, mas não está oficializado. É preciso ir a público.

Istoé -Por que é tão difícil para a Igreja discutir a moral sexual?
Frei Betto –

Por causa do patriarcalismo arraigado. O medo da figura da mulher. A mulher é ameaçadora na teologia medieval,  é sedutora. A teologia medieval, que ainda é a oficial, considera a mulher ontologicamente inferior ao homem. E chega a compará-las aos loucos e às crianças, no sentido de que o sexo feminino não tem pleno uso da razão. É a famosa pergunta da aula de teologia: um escravo pode ser sacerdote? Resposta: pode, desde que liberto, porque, como homem, detém a plenitude humana. Aí vem a segunda pergunta: e uma mulher pode ser sacerdote? Não, ainda que livre. Porque a mulher é inferior ao homem e não detém a plenitude humana. Isso é doutrina oficial da Igreja ainda hoje.

Istoé -Seminaristas aprendem isso?
Frei Betto –

Ainda hoje, por isso mulheres não podem ser sacerdotes.  O movimento contrário é muito grande, mas Roma resiste. É absurdo, mas é oficial. Muitos dentro da Igreja tentam não abordar o assunto. A Igreja está  cheia de teólogas mulheres. São doutoradas e pós-doutoradas. E mais: para a teologia atual, um casal só pode ter relação sexual se tem intenção de procriar. Isso é outro absurdo. Tive um professor de teologia moral que dizia: “Isso não é teológico. Isso é zoológico.” Porque, no mundo zoológico, só os répteis procriam sem carinho. Nenhum bispo ou cardeal poderá dizer que estou exagerando.

Istoé -Que discurso Roma aceitaria?
Frei Betto –

A primeira coisa é mudar em relação à figura da mulher. Segundo, a questão do preservativo. Nós temos hoje uma dupla moral: a moral oficial e a moral existencial. A Igreja prega uma coisa, mas faz vista grossa para a realidade. Se não fizer, o esvaziamento é muito maior. Pela Igreja, você não pode usar preservativo em hipótese nenhuma. Agora, pergunte para os bispos na África se eles pregam isso? Claro que não. Nem na América Latina. Tem um ou outro conservador que prega porque isso é a doutrina oficial da Igreja.

Istoé -O papa teria força para mudar?
Frei Betto –

Total. A Igreja é a única monarquia absoluta do Ocidente. Mas nem João Paulo II nem Bento XVI tiveram interesse em mudar.

Istoé -Bento XVI renunciou falando em hipocrisia. Acha que se referia especialmente à questão da moral sexual?
Frei Betto –

Acho que sim. A esse conjunto de coisas. Ele sentiu o peso desse congelamento. E se referia ao acobertamento da Cúria. Deve tê-lo impactado muito esse último dado apurado de que a rede de prostituição de seminaristas utilizava até dependências do Vaticano para comercializar o sexo. Ele ficou abaladíssimo e tudo isso foi levado em conta na renúncia dele.

Istoé -Que outros desafios ele tem?
Frei Betto –

Mudar a forma de governo na Igreja. Um governo não monárquico, um governo mais colegiado, como propôs o Concílio Vaticano II, dando mais poder ao sínodo dos bispos, com os quais o papa se aconselha, e formando um sínodo de leigos, que devem assessorar o papa também. E mais: valorizar os presidentes das conferências episcopais, como a CNBB, por exemplo. E acabar com o status de Estado do Vaticano e a figura de chefe de Estado do papa, e portanto com as nunciaturas. Hoje, os núncios, que são representantes diplomáticos do Vaticano, se metem muito na nossa Igreja. Os núncios têm mais poder que as conferências episcopais, que reúnem os bispos dos países.

Istoé -E a relação do papa com a Teologia da Libertação vai mudar?
Frei Betto –

O que não pode continuar são as punições aos teólogos da libertação, enquanto se passa a mão na cabeça dos teólogos da direita. Estou otimista, espero que esse ranço inquisitorial que existe na Cúria Romana termine. Pelo contexto, a Teologia da Libertação nunca teve peso na Argentina. Se na Argentina há Teologia a Libertação, é graças às igrejas protestantes e não à católica. A Igreja católica na Argentina é a Igreja oficial do Estado. Os padres e bispos ganham salários do Estado. Por isso a Igreja lá foi tão cúmplice da ditadura. Não queria perder os privilégios. Os grandes teólogos da libertação na Argentina são protestantes.

Istoé -Ele seria mais simpático aos teólogos da libertação?
Frei Betto –

Toda vez que o papa abriu a boca, falou dos pobres.  A pergunta que fica é se ele vai denunciar as causas da pobreza. Se fizer isso, vão acusá-lo de ser da Teologia da Libertação. Mas ele tem que fazer. A Igreja não pode tratar os pobres com assistencialismo. Pobres são pobres porque foram empobrecidos. Há uma estrutura social injusta que leva milhões de pessoas ao empobrecimento.

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