“12 Anos de Escravidão” expõe selvageria da elite escravocrata

 O filme de Steve McQueen é baseado na biografia escrita pelo próprio Solomon Northup, um homem livre que buscava emprego mas acabou sequestrado e vendido como escravo aos 32 anos de idade


O filme de Steve McQueen é baseado na biografia escrita pelo próprio Solomon Northup, um homem livre que buscava emprego mas acabou sequestrado e vendido como escravo aos 32 anos de idade

Preenchendo o vazio

Steve McQueen, que pode ser o primeiro negro a vencer Oscar de direção, fala sobre cenas de tortura e violência que dão o tom de ’12 Anos de Escravidão’

SILAS MARTÍ
FOLHA DE SÃO PAULO

Quando decidiu fazer “12 Anos de Escravidão”, o cineasta britânico Steve McQueen, 44, queria sanar uma lacuna na filmografia sobre o tema, lembrando que há mais filmes sobre o Holocausto do que sobre os negros escravizados nas Américas.

Mas acabou apontando também uma ausência marcante nas estatísticas de Hollywood ao se tornar um dos primeiros negros com chances reais de levar o Oscar de melhor diretor, uma categoria que teve só dois outros negros indicados até agora.

“É um filme sobre onde estivemos, onde estamos e para onde vamos nesse debate sobre raça”, diz McQueen, em entrevista à Folha. “É incrível ser indicado ao Oscar, e tenho orgulho de ser um diretor negro ali. Mas, além desse dado da minha cor, estou feliz que o filme seja reconhecido pelos meus pares.”

De fato, é grande a febre em torno do longa, que tem pré-estreia hoje em São Paulo. O filme, vencedor do Globo de Ouro de melhor drama e indicado a nove estatuetas no Oscar, vem arrancando elogios rasgados da crítica e liderou as bilheterias do Reino Unido.

Baseado na história real de Solomon Northup, negro livre do norte dos Estados Unidos que foi sequestrado e vendido como escravo a fazendeiros do sul em 1841, “12 Anos” parece ter virado o filme definitivo sobre o horror infligido aos negros. E McQueen não pegou leve nas cenas de tortura.

“Dizem que o filme é brutal, mas estou contando uma história sobre escravidão. É preciso mostrar a violência, não só física, mas psicológica também”, diz o diretor. “E isso se aplica muito ao Brasil, onde a escravidão deixou um grande legado. Todos que virem o filme devem se confrontar com o próprio passado.”

Nesse ponto, McQueen parece ter deixado de lado a ousadia estrutural de filmes anteriores, como “Fome” (2008) ou “Shame” (2011), para arquitetar uma narrativa mais crua e convencional, de longos planos de tom realista.

Muito do impacto de seu filme se alimenta também do atual momento histórico, com um negro na presidência dos Estados Unidos, e dos aniversários de 150 anos da abolição da escravidão no país e de 50 anos da marcha a Washington na luta pelos direitos civis dos negros.

Também tem a ver com a força do elenco, em especial de Chiwetel Ejiofor, que vive Solomon Northup. Sua atuação, que alguns críticos chamaram de “minimalista”, traduz a imagem do sofrimento, o que McQueen explica como tentativa de atingir um “tom formal rebaixado”.

Não é uma novidade para o diretor que, antes de se firmar como cineasta, trilhou carreira sólida nas artes visuais. A austeridade parece atravessar toda a sua obra.

Depois da indigestão provocada pela mistura de gêneros de “Django Livre” (2012), de Quentin Tarantino, que dividiu a crítica ao retratar a vida de um escravo num faroeste, “12 Anos” surge como um antídoto, sinalizando que o assunto talvez esteja fresco demais na memória para ser parodiado.

“Encontrei o Tarantino em Nova Orleans e conversamos muito sobre os dois filmes”, conta McQueen. “Achei ótimo o filme dele. E ele disse esperar que o meu possa ir além de um faroeste.”
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O cineasta inglês Steve McQueen

O cineasta inglês Steve McQueen

CRÍTICA DRAMA

Com escravo culto como protagonista, longa busca identificação da classe média
RICARDO CALIL
CRÍTICO DA FOLHA

Quem viu os filmes anteriores do cineasta Steve McQueen irá se surpreender com “12 Anos de Escravidão”. Como “Fome” (2008) e “Shame” (2011), seu novo filme é um drama intenso centrado em um protagonista submetido a condições extremas. Mas seu estilo de direção mudou significativamente.

McQueen parecia, em seus dois primeiros longas, tão interessado em acompanhar seus personagens quanto em mostrar suas credenciais como diretor –o que resultava em firulas estéticas típicas dos “filmes de arte”.

McQueen está mais sóbrio, mais dedicado a seus personagens, a sua história. Estes elementos são mais que suficientes para garantir a contundência do filme.

“12 Anos de Escravidão” acompanha a trajetória de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, excepcional), cidadão livre do norte dos EUA que é sequestrado e vendido como escravo no século 19.

As torturas a que Northup é submetido não são novidade, mas McQueen usa (às vezes abusa) dos detalhes gráficos e trabalha o tempo para reiterar a crueldade (em uma cena angustiante de quase quatro minutos, Northup é enforcado em uma árvore enquanto outras pessoas brincam à sua volta).

Há um detalhe na trajetória de Northup que talvez ajude a explicar o sucesso do filme, suas indicações ao Oscar.

Nascido e criado livre, ele era um homem culto, com mulher e filhos, que tocava violino como profissional e falava inglês como um lorde.

Isso pode levar a uma identificação maior do espectador de cinema, que tem subsídios para imaginar: “O que ocorreria se, de repente, tirassem a minha liberdade?”.

É o mesmo mecanismo que, grosso modo, nos faz ter mais empatia com o jovem de classe média que é assassinado do que com o homem negro que é preso a um poste com uma trava de bicicleta.

Um contraste que McQueen sabe explorar a favor de seu filme.

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
DIREÇÃO Steve McQueen
PRODUÇÃO EUA/Reino Unido, 2013
CLASSIFICAÇÃO 16 anos
AVALIAÇÃO bom

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Em seu livro, agora mais uma vez adaptado pelo cinema, Solomon Northup relata as sequências de chibatadas e surras. Fala da comida péssima, do travesseiro de madeira, dos andrajos que usava. Conta histórias de famílias escravizadas e partidas.

Em seu livro, agora mais uma vez adaptado pelo cinema, Solomon Northup relata as sequências de chibatadas e surras. Fala da comida péssima, do travesseiro de madeira, dos andrajos que usava. Conta histórias de famílias escravizadas e partidas.

ANÁLISE

Livro de Northup traz relato cru da barbárie da escravidão
ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

Cães ferozes, jacarés sorrateiros ou homens embrutecidos? Solomon Northup não sabia o que mais temer.

Desesperado, buscava fugir das correntes e dos chicotes que lhe incendiavam o corpo. Tentou nadar, escapar pelo pântano, ultrapassar a mata de troncos intrincados. Não conseguiu.

Tal como figura kafkaniana, ele se viu enredado num roteiro perverso que durou 12 anos. Descendente de escravo, gostava de ler e tocar violino. Labutava na lavoura e desempenhava várias tarefas no norte dos Estados Unidos, onde já vigorava o pagamento de salário.

Casado, tinha três filhos. Era um homem livre negro que buscava trabalho.

Foi sequestrado e vendido como escravo aos 32 anos. Acordou acorrentado no meio da escuridão a poucos metros do Capitólio, no coração do poder, em 1841. Levado ao sul escravocrata de então, conheceu a rotina de crueldade nas fazendas de algodão que abasteciam a revolução industrial e a acumulação capitalista que fervilhava do outro lado do oceano.

Resgatado na Louisiana em 1853, Northup contou sua saga em “Twelve Years a Slave”, publicado em 1859. Foi um sucesso. O país estava nas vésperas da eclosão da Guerra Civil (1861-1865) que acabaria com a escravidão nos Estados Unidos. Agora essa história está nos cinemas.

O livro, disponível em inglês gratuitamente na internet, é um testemunho cristalino da rotina das propriedades escravocratas.

Northup relata as sequências de chibatadas e surras. Fala da comida péssima, do travesseiro de madeira, dos andrajos que usava. Conta histórias de famílias escravizadas e partidas.

Descreve em detalhes como se organizava a produção nas fazendas. Lendo o texto, enxerga-se quais eram as dificuldades da colheita de algodão, como os movimentos do corpo deviam ocorrer para a produtividade aumentar, onde ocorriam os erros, as perdas que provocavam mais e mais punições aos trabalhadores.

Nesse cotidiano extenuante, noites de lua cheia eram de trabalho estendido aos escravos. Alguns ensaiavam fugas para, após serem recapturados e punidos com severidade, experimentar algumas horas de descanso.

O texto é simples, mas não simplório ou superficial. Quase jornalístico e em ritmo de diário, o relato de Northup tem vigor e consegue tecer suspenses. Sem rodeios, ele expõe os seus conflitos e tensões. Trata de como foi forçado a espancar uma escrava e de seus argumentos contra rebeliões tramadas.

Como se destacou ao saber tocar violino, ele foi obrigado a trabalhar em festas na região. Transitando entre propriedades, acabou colhendo impressões variadas que o ajudaram a construir um quadro histórico bem amplo e claro da realidade do sul escravocrata.

Narra casos de personagens solidários e de surtos de ira de patrões embriagados –para ele, pessoas brutalizadas pela escravidão.

Assim, mostra algumas das contradições daquela sociedade que logo iria desmoronar com a Guerra de Secessão. Uma autobiografia rara.

 

FONTE FOLHA DE S PAULO

 

"12 Anos de Escravidão" acompanha a trajetória de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, excepcional), cidadão livre do norte dos EUA que é sequestrado e vendido como escravo no século 19. Como protagonista do filme, Chiwetel Ejiofor foi indicado ao Oscar de Melhor Ator neste ano de 2014

“12 Anos de Escravidão” acompanha a trajetória de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor, excepcional), cidadão livre do norte dos EUA que é sequestrado e vendido como escravo no século 19. Como protagonista do filme, Chiwetel Ejiofor foi indicado ao Oscar de Melhor Ator neste ano de 2014

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