FÁBIO CAPILÉ: Era o início do século XX, por volta de 1915, e aqui, onde estamos, parecia ser muito mais distante do que se poderia imaginar. Não havia qualquer rodovia e a única rota de acesso, que permitia a saída e chegada aos grandes centros, se dava através do rio Cuiabá, pelas embarcações que atracavam no porto

Fábio Capilé, professor, advogado, compositor, um ativista da Cultura e do Direito em Cuiabá

Fábio Capilé, professor, advogado, compositor, um ativista da Cultura e do Direito em Cuiabá

O SAUDOSO GLAMOUR DAS VIAGENS PELO RIO CUIABÁ
por FÁBIO CAPILÉ

Era o início do século XX, por volta de 1915, e aqui, onde estamos, parecia ser muito mais distante do que se poderia imaginar. Não havia qualquer rodovia, e a única rota de acesso, que permitia a saída e chegada aos grandes centros, se dava através do nosso rio Cuiabá, pelas embarcações que atracavam no porto, em bairro que recebeu este mesmo nome.

Os barcos, com as suas caldeiras em brasa, davam a pressão para a movimentação dos sonhos dos tripulantes e passageiros, ao longo de paisagens e contornos artísticos da natureza, indescritíveis. Já na partida, nas margens do rio, aquela grande emoção. E neste contexto, enalteço a sensibilidade de Lenine Póvoas, em sua obra “Cuiabá de Outrora”, que retratou este sentimento de forma única, ao dizer que: “Uma banda de música enchia os ares com os acordes de uma valsa de Mestre Simaringo. O navio já havia dado o primeiro apito e mais o segundo, com um intervalo de trinta minutos. Agora dava o terceiro e último. Logo se ouvia o tilintar do telégrafo de bordo dlim, dlim , dlim – chamando ao seu posto os maquinistas e transmitindo, da ponte de comando à casa das máquinas, o sinal de atenção. Um breve apito era a ordem para que se levantasse a âncora. Um barulho de engrenagens e correntes que se recolhiam, puxadas pelo motor que acionava o guincho, soltando fumaça branca.

Para facilitar a manobra o telégrafo tilintava ordenando: “Adiante, devagar”. E as hélices ou as rodas laterais do barco começavam a girar lentamente. Recolhida a ancora, o navio descrevia a curva no rio e voltava a proa a favor da correnteza. O telégrafo então tilintava de novo, ordenando: Adiante, meia força” e logo depois adiante, “Toda a força. Três apitos se faziam ouvir, a curtos intervalos. O primeiro, breve; o segundo, ainda breve; o terceiro bem longo, emocionante, num canto de despedida.

Lenços brancos agitavam-se, no tombadilho do navio, respondendo aos acenos do cais que lentamente ia se distanciando… corações que batiam, aqui e lá, mais fortemente; peitos que arfavam, contendo a respiração; apertos na garganta; lágrimas que rolavam em algumas faces; esperanças que iam e que ficavam… e daí a pouco Cuiabá sumia de vista, na primeira curva do rio.”

Tais descrições das emoções não se constituíam excesso, pois refletiam a realidade e correspondiam à distância da saudade, vez que uma viagem destas, percorria milhas e milhas, desvendando mitos e transpondo matas sob a lâmina de água doce. A sua rota em águas pluviais, se iniciava em Cuiabá, seguindo pelo Paraguai indo até Corumbá, e depois, ainda por águas de Assunção, Buenos Aires e Montevidéu, de onde seguiria então, em água salgada, por navios maiores, para São Paulo ou Rio de Janeiro.

Tais viagens duravam mais de trinta dias, sendo que uma pessoa que pretendesse se deslocar para tais regiões, somente poderia estar de volta, com muita sorte, após três meses da partida.

Assim, quando adentrarmos em um avião, ônibus ou carro e observarmos aquela poltrona desconfortável e incômoda, lembremos que um dia, aqui, existiram pessoas heróicas, que, mesmo diante das aparentes adversidades e distâncias, não mediram esforços para prover o progresso e as comodidades que hoje usufruímos.

As únicas estradas que existiam eram aquelas pavimentadas com sonhos, e esperanças, elementos singelos de um povo cuja lembrança se esvai pelo tempo…


Fabio Arthur da Rocha Capilé
É Advogado, presidente do Instituto dos Advogados de Mato Grosso, Conselheiro da OAB e Professor Universitário.

Categorias:Terra da gente

2 Comentários

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  1. - IP 189.10.40.35 - Responder

    Parabéns Fábio pela linda e comovente crônica !!!!!

  2. - IP 179.204.36.1 - Responder

    A vida vem do rio. O rio é vida… é muito importante para Cuiabá. PARABENS FABIO CAPILE

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