ESCRITOR PASCAL BRUCKNER: A prostituição deve ser vista como um serviço público. Se a prostituição permanece, a despeito da liberação sexual, é porque o mercado do amor é extremamente desigual e não admite os velhos, os feios, os pobres, os doentes

 

Pascal Bruckner: “A prostituição deve ser vista como um serviço público”

O escritor francês critica as feministas puritanas e a lei aprovada em seu país, que criminaliza a prostituição

GUILHERME EVELIN, da revista Época
LIBERAL O ensaísta francês Pascal Bruckner. Para ele, a mais velha profissão  do mundo cumpre uma função social (Foto: Eric Fougere/Corbis/Latin Stock)

Premiado ensaísta, Pascal Bruckner foi um dos signatários do manifesto dos  “343 safados” que causou furor, no ano passado, na França. No manifesto, intelectuais protestavam contra a lei que torna a prostituição um crime, aprovada em dezembro pela Assembleia Nacional francesa. Seu lema, “Touche pas ma pute” (“Não toquem na minha p…”), um trocadilho com um slogan antirracista, não era a única provocação. A petição dos “safados” fazia alusão a outro manifesto célebre – o das “343 vadias”, escrito por Simone de Beauvoir e publicado em 1971 pela revista Le Nouvel Observateur. Nele, mulheres assumiam publicamente ter feito aborto, então um crime na França, e reclamavam o direito de dispor de seus corpos. Nesta entrevista, Bruckner fala da polêmica e de seu livro Fracassou o casamento por amor?.

ÉPOCA – Não é machismo dizer: “Não toquem na minha p…”?
Pascal Bruckner 
– Essa lei representa uma nova estigmatização das prostitutas e uma diabolização dos clientes. Com esse manifesto, tocamos no sacrossanto tesouro da esquerda oficial. Estamos de retorno a tempos muito puritanos. A esquerda, que era porta-voz da liberdade, se tornou porta-voz de uma certa repressão. É uma esquerda moral, punitiva, autoritária, que gostaria de enquadrar os comportamentos dos indivíduos e decretar: essa é a boa sexualidade, essa é a má sexualidade. Se a prostituição permanece, a despeito da liberação sexual, é porque o mercado do amor é extremamente desigual e não admite os velhos, os feios, os pobres, os doentes. A prostituição serve justamente de válvula de escape para os excluídos do sistema, aqueles que não têm acesso aos encantamentos do amor oficial. Os autores dessa lei fazem da prostituição uma abominação, a expressão perversa de um machismo que não ousa dizer seu nome, enquanto ela deveria ser vista como um serviço público.

ÉPOCA – A prostituição exerce então uma função social?
Bruckner –
 Estou certo disso. Nas ruas, onde estão as prostitutas, a maior parte dos clientes são imigrantes, que não têm dinheiro, têm poucas relações, têm poucas chances de seduzir as mulheres francesas e cuja vida sexual é reduzida à possibilidade de virar clientes pagantes. Para os homens e mulheres que se prostituem, a prostituição é uma forma de fechar as contas no fim de mês. Para os clientes, é uma forma de encontrar um pouco de atenção e de intimidade. Isso sem falar da assistência sexual às pessoas portadoras de deficiências, que é autorizada nos Países Baixos, mas proibida na França. Há uma grande hipocrisia nessa lei, porque, na França, um dos maiores proxenetas é o Estado, que cobra impostos das moças que trabalham. Mas isso ninguém ousa dizer.

ÉPOCA – Não foi muita provocação com as feministas fazer uma ironia com o  manifesto das 343 vadias, a favor do aborto e escrito por Simone de Beauvoir?
Bruckner – 
Simone de Beauvoir é a grande figura tutelar do feminismo no mundo. De uma forma filosófica, ela o fundou. Ela foi uma pioneira, era muito inteligente e é infinitamente maior que a maioria de suas herdeiras. Há muitas feministas que estão contra a lei também. O feminismo não é mais um bloco como era há alguns anos. Há um feminismo diferencialista à americana, há um feminismo universalista à francesa, há um feminismo puritano, há um feminismo libertário, há um feminismo do bem-estar.

ÉPOCA – As feministas que criticaram o manifesto são puritanas?
Bruckner – 
Sim, elas são tradicionalistas. Há um feminismo idealista em excesso, que consiste em dizer que toda a maldade da humanidade está do lado dos homens. As mulheres seriam seres angelicais, pacíficos, simpáticos, que simplesmente obedecem às ordens do coração e do amor. Evidentemente, isso é uma bobagem absoluta. As mulheres têm suas impulsões sexuais, exatamente como os homens. A mulher não é melhor do que o homem. Ela deve ser tratada como uma igual, mas não como melhor, porque as mulheres podem ser tão cruéis e abomináveis como os homens.

ÉPOCA – Seu último livro publicado no Brasil lembra que os progressistas do século XIX sonhavam que era possível acabar com a prostituição, graças ao casamento por amor romântico. Por que eles falharam nesse propósito?
Bruckner – 
Os progressistas diziam que o casamento burguês era fundado na desigualdade entre homem e mulher e conduzia ao adultério, à prostituição, aos filhos ilegítimos. Para mudá-lo, era preciso reconciliá-lo com o amor. A esperança investida no casamento romântico dizia que, finalmente, iríamos realizar a verdadeira monogamia, menos fundada na obrigação do que na livre escolha. E que o amor iria entrar no casamento como um aliado que cimentaria relações antes arranjadas pela família ou pelas conveniências. Essa esperança  aparece nos textos do século XVIII e do século XIX e passa a ser verdadeiramente aplicada nos anos 1960 e 1970. Não teve os resultados desejados. O casamento perdeu a metade de seus efetivos – e o divórcio aumentou. Ou seja, pretendeu-se aprisionar o amor dentro dos laços do casamento. E o que ocorreu de fato foi que o casamento anterior afundou e o amor continua a ser essa paixão que nós não controlamos. O amor é sempre um filho da boemia, como canta Carmen (na ópera de Georges Bizet).

ÉPOCA – O senhor diz que as culturas ocidentais caíram num círculo vicioso ao estimular a busca incessante por  felicidade e o casamento por amor, que fogem ao controle dos homens. Tentar institucionalizar o amor sempre será um fracasso?
Bruckner – 
A dificuldade hoje é que o amor foi liberado de todas as correntes, de todos os entraves. Nunca se tornou tão difícil viver as histórias amorosas. Uma das razões é que vivemos num mundo romântico – e não porque vivemos numa era consumista ou em que o amor é líquido. Nós nos tornamos muito mais amorosos do amor.

 

ÉPOCA –  O aumento do número de divórcios é um sinal dessa força do amor na sociedade moderna?
Bruckner –
 Há dois critérios para o casamento: o desejo e a paixão. Hoje, quando eles desaparecem, isso leva quase  automaticamente  à dissolução do casamento. Antes, as pessoas permaneciam juntas, em nome das conveniências, da moral, para preservar os filhos. Hoje, os homens e as mulheres – sobretudo as mulheres – não hesitam em divorciar-se, desde que eles não se entendem mais. Ou seja, a intolerância ao tédio e ao desamor se tornou muito forte.

ÉPOCA –  Como a busca pelo casamento romântico se associa com o que o senhor chamou de “euforia perpétua”, o dever da felicidade na sociedade moderna?
Bruckner –
 Erigimos o amor e a felicidade como valores absolutos e nos desesperamos de não vivê-los absolutamente. No fundo, há uma desmesura nas sociedades ocidentais no desejo de ser feliz e de ser apaixonadamente amoroso. A felicidade e o amor são dois valores do cristianismo. É intrigante observar como em nossas sociedades modernas, largamente descristianizadas, sobretudo na Europa, os valores do cristianismo continuam a ser dominantes. Há uma bela expressão de G.K. Chesterton (escritor inglês do começo do século XX): “O mundo moderno é repleto de antigas virtudes cristãs, tornadas loucas”. Isso é totalmente verdade no que se refere ao amor e à felicidade.

ÉPOCA –  Esses excessos na busca da felicidade e do amor são características da vida moderna nas sociedades ocidentais?
Bruckner – 
Uma das grandes conquistas das sociedades modernas é o direito de realização enquanto indivíduo. Há então uma ideia de que não temos o direito de fracassar nessa manifestação individual. Essa desmesura, que antes se aplicava aos projetos políticos, às expedições militares, hoje se aplica ao desenvolvimento pessoal. Gostaríamos de sentir o fogo da paixão e a satisfação de uma felicidade permanente – e frequentemente fracassamos nessa tentativa.

 

ÉPOCA –  É por causa disso que as pessoas são mais angustiadas do que eram no passado?
Bruckner –
 Hoje, somos bem mais angustiados por uma razão simples: é porque a liberdade é angustiante. Quando os homens viviam sob a tradição da religião, a vida era bem mais simples, porque era suficiente se conformar às ordens transmitidas. Hoje, a grande dificuldade do homem contemporâneo é que ele próprio deve criar seus próprios valores. Ele se tornou seu único guia na existência. Essa angústia, ao mesmo tempo, também é entusiasmante, porque ninguém gostaria de voltar a viver em sociedades patriarcais que nos parecem, com justiça, sociedades monstruosamente opressivas.

ÉPOCA –  Temos mais liberdade, mas também mais angústias. Como viver com essa contradição?
Bruckner – 
É preciso, notadamente na vida amorosa, aceitar viver com as próprias imperfeições e com as imperfeições dos outros. Não podemos pedir ao outro para tornar-se um herói ou uma heroína em tempo completo. Quando aceitamos nossas imperfeições podemos chegar a uma espécie de harmonia com o outro.

ÉPOCA –  Na vida moderna, é possível atingir esse equilíbrio?
Bruckner – 
É possível, depois de certo tempo, a partir de certa idade. Há uma sabedoria do amor. Na felicidade amorosa, somos divididos entre o desejo de estar bem com a pessoa que nós temos e o desejo de ir além. Principalmente nas grandes cidades, somos submetidos a numerosas tentações. A vida amorosa vive no dilema entre a satisfação com o que vivemos e a nostalgia do que poderíamos viver, se conhecêssemos uma existência diferente.

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PONDÉ: SEM PROSTITUIÇÃO, MUNDO SERÁ MAIS VIOLENTO

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Colunista condena a repressão à prostituição que vem sendo proposta em países como a França. “Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações”, diz ele

 

16 DE DEZEMBRO DE 2013 ÀS 07:30

247 – Na França, uma lei que criminaliza os clientes da prostituição, considerada uma violência contra a mulher, ainda que consentida, vem causando polêmica.

No Brasil, o polemista Luiz Felipe Pondé condena a iniciativa e afirma que um mundo sem sexo pago será mais violento. É o que ele defende no artigo “A deliciosa nudez castigada”.

“Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro”, diz ele.

Pondé critica diretamente Hollande. “Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações”.

Ele afirma ainda que a iniciativa tende ao fracasso. “Mas, graças a Deus (que nos entende melhor do que esses santinhos de pau oco), essa lei não vai adiantar porque quanto mais se castiga a nudez paga da mulher, mais deliciosa ela fica. Ao final, a mulher que troca sexo por dinheiro, sempre é mais desejada quando encontrá-la fica ainda mais caro.”

LEIA, NA INTEGRA, O ARTIGO DE PONDÉ

LUIZ FELIPE PONDÉ

A deliciosa nudez castigada

Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo, a violência no mundo será maior

A repressão ao sexo mudou de lugar, agora ela está ali onde se situa o discurso “por um mundo melhor”. As antigas “freiras” e senhoras protestantes de preto, que falavam de pecado e babavam de ódio das mais gostosas, agora propõem a extinção do sexo pago em nome da “justiça social”. Ou seja, a puta, a garota de programa, deve deixar de existir. Antes era o pecado, agora é a “exploração do corpo”.

O conceito de pecado implica em desejo reprimido (o que dá tesão), o de “exploração” não pressupõe o desejo, mas sim o papo-furado do “capital malvado”. Gente chata essa que fala de “controle político do corpo”.

Meu Deus, quando é que nos tornamos tão incapazes de entender um mínimo da natureza humana? Já sei: desde que criamos essa noção autoritária de “lutar por um mundo melhor”.

Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro.

Outras relações custam vínculos, jantarzinhos, longas conversas, “DRs”, incertezas quanto à retribuição do investimento de desejo, tempo e dinheiro. Entre essas meninas que trocam dinheiro por sexo, as melhores são aquelas que o fazem porque gostam do que fazem. Aliás, como em toda profissão.

Na Antiguidade, em muitos lugares, essas mulheres generosas faziam parte do processo de transformar um menino num homem. Mesmo em rotinas religiosas e espirituais. Na Bíblia, o numero de personagens prostitutas importantes é razoável. Dirão algumas pessoas mais nervosas que isso é “machismo”, mas elas não entendem nada de sexo nem de mulher.

Nelson Rodrigues falava de “uma vocação ancestral”. Diria eu, um arquétipo. O mundo fica mais pobre cada vez que esta vocação se torna muda. Tranque-a num quarto e seu perfume atravessará as paredes. Seu desejo escorrerá por debaixo da porta. Esconda-a sob véus, ela ressurgirá nos olhos, nos lábios, nos fios de cabelo. Seja nas roupas, na maquiagem, no modo de andar, de se sentar, de cruzar as pernas, de pensar, de sonhar, as melhores mulheres exalam cheiro de sexo como um dos modos de se relacionar com o mundo. Na filosofia se chama isso de erotismo.

A psicologia evolucionista considera a mulher que troca sexo por dinheiro um salto adaptativo. Elas mantêm o poligenismo masculino sob controle porque não exigem investimento afetivo em troca. Antes uma delas do que uma colega de trabalho. Não se pode falar isso, mas todo mundo sabe disso. Com a colega vem o risco da semelhança de interesses, da convergência de gostos, e o pior, a possível sensibilidade compartilhada.

Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações.

Mas, seguramente, vai aumentar a arrecadação do Estado, única coisa que socialista entende de economia. No resto, são analfabetos que só atrapalham o mundo. O que alimenta o socialismo como visão de mundo é a inveja dos que não conseguem ganhar dinheiro contra os que conseguem. De novo, o pecado (a inveja), ilumina melhor nossa natureza do que o blá-blá-blá da política como redenção do mundo.

Os “corretos” falam em “profissional do sexo”, porque consideram a expressão puta ou garota de programa um desrespeito com essas mulheres. Pura hipocrisia, como sempre, quando se fala de pessoas que querem “um mundo melhor”. Como dizia o filósofo Emil Cioran, vizinhos que são indiferentes são melhores do que vizinhos que têm uma “visão de mundo”.

Mas, graças a Deus (que nos entende melhor do que esses santinhos de pau oco), essa lei não vai adiantar porque quanto mais se castiga a nudez paga da mulher, mais deliciosa ela fica. Ao final, a mulher que troca sexo por dinheiro, sempre é mais desejada quando encontrá-la fica ainda mais caro.

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