ENOCK CAVALCANTI: Nem Emanuel, nem Abilio. Nem um, nem outro

Emanuel e Abilio

Nem Emanuel, nem Abilio. Nem um, nem outro

Por Enock Cavalcanti

 

Meus amigos, meus inimigos: faltam exatos 7 dias para o segundo turno em Cuiabá e mais uma vez me preparo para votar nulo.

Há quem trave diante da opção do voto nulo. Votar nulo seria ficar em cima do muro. O segundo turno seria uma outra eleição.

Meu entendimento, modestamente, caminha em outra direção. Votar nulo é a confirmação de que as duas candidaturas que chegaram ao segundo turno, não se coadunam com as minhas convicções.

Sim, pode acontecer, como em São Paulo, de você votar em Gilmar Tatto no primeiro turno e contar, no seguno turno, com a candidatura de Guilherme Boulos, que atende perfeitamente às suas expectativas político ideológicas.

Eu não diria a mesma coisa sobre o Rio de Janeiro, onde deve ser triste para um cidadão de esquerda optar por Eduardo Paes e Crivella.

Tranquilo certamente estará o eleitor do Recife ao ter que optar entre João Campos e a dedicada Marília Arraes, que militam ambos pela esquerda.

Em Cuiabá, não temos essa opção. Os dois candidatos no segundo turno estão na contramão para aqueles que votaram Julier e PT, ou votaram em Gisela e Fabrício, ou votaram em Gilberto Lopes no primeiro turno.

Seria muito mais tranquilo para os da esquerda votar pela chapa Gisela/Fabricio, se a coligação Pros e PDT tivesse vencido a barreira eleitoral do primeiro turno – e ela esteve bem perto disso, bem mais que o candidato do PT e o candidato do Psol

Mas vejam que o candidato Julier, com justa razão, centrou fogo contra Emanuel em sua batalha eleitoral. E nosso heróico juiz não teve também como se calar diante da truculência dessa chapa dos novos direitistas chamados Abilio Jr e Wellaton.

Não me parece honesto que qualquer eleitor da esquerda, por mais malabarismos que faça, possa adotar o voto seja em Emanuel, seja em Abilio neste segundo turno. Se adotar dará um mau passo.

Muitos da esquerda expressam um desejo prioritário de derrotar o Abilio, que, como bolsonarista, já confirmou seu machismo, sua misoginia, seu desapreço pela organização independente dos trabalhadores e o seu alinhamento canino com as políticas anti-povo de Bolsonaro.

Mas vejam que Emanuel também não demonstrou ojeriza às posturas do abominável presidente Bolsonaro e fez até do seu filho Emanuelzinho um soldado do capetão,  lá dentro do Congresso Nacional.

E existe o caso do Paletó, ainda não devidamente esclarecido, a pairar sobre a trajetória e a honra do prefeito Emanuel. Se a Justiça, até aqui, com sua conhecida lentidão, não investigou e julgou o caso, por que devemos nós inocentar nas urnas o candidato do MDB?!

Não esquecer, também, que o MDB é um dos partidos que vem dando sustentação ao governo criminoso de Bolsonaro que já há bom tempo deveria estar sendo submetido a processo de impeachment.

Por tudo isso, o mais recomendável é não embarcamos no bonde de quem quer que seja, pensarmos no impacto nacional de nossos votos, e, se possível, firmar nas urnas uma forte rejeição às duas equívocas opções que este segundo turno nos apresenta em Cuiabá. São armadilhas ideológicas nas quais não devemos cair.

Assim como o poeta Geraldo Vandré disse que a vida não se resume em festivais, digo agora que vida não se resume em eleições. E eleições estão sempre se desdobrando em nosso cotidiano.

É uma rematada tolice querer afirmar que voto nulo é omissão, é falta de posição, é ficar em cima do muro. Não! Votar nulo, diante da falta de opção, é gritar o que mais temem os políticos profissionais: “Que se vayan todos!”

Entendo que não podemos rebaixar nossas escolhas e nossos propósitos e nosso combate aos desvios da políticas. Temos que sustentá-las com firmeza porque o que acumularmos agora irá certamente se somar para uma melhor e mais consolidada escolha em 2022.

Se queremos derrotar Bolsonaro e a extrema direita, não podemos conciliar com aqueles que conciliam hoje em dia com este presidente nefasto. Repudiar tanto Abilio quando Emanuel, portanto, neste segundo turno, será uma forma de nos mantermos em nossa caminhada pela restauração do poder para a esquerda.

Mas e aí, como é que fica Cuiabá neste período?! Evidentemente, que Cuiabá terá que contar com oposição atenta e forte para impedir todo e qualquer deslize administrativo e politico. Nesse sentido, não é só com o voto que se luta. Há que se entender que a luta política se processa todo os dias e que todos os dias temos que seguir lutando, com aquele instrumental de intervenção que formos capazes de sustentar e construir.

O cidadão consciente tem ao seu dispor opções variadas para reivindicar, lutar, não se calar, não se tornar um ser amorfo. Associações e sindicatos são os instrumentos mais importantes para essa ação social em face dos poderes institucionais – e basta lembrar o que tem feito o Sintep Cuiabá, por exemplo, para sabermos que essa entidade, que congrega trabalhadores da Educação e também alunos e pais de alunos, tem se mostrado muito mais efetiva, na defesa dos direitos dos cuiabanos à Educação, do que todos os vereadores da Câmara de Cuiabá, juntos.

Então, quem tem consciência saberá, que “é preciso estar atento e forte”, como orientou o poeta, e fortalecer a frente que se mostrar mais conveniente. “Não temos tempo de temer a morte”.

No mais, é manter a pureza e integridade de nossa ação política – e seguirmos nossa caminhada em busca de uma sociedade em que reine a paz e a justiça social.

 

Enock Cavalcanti, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO E desde 2009.

1 Comentário

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  1. - IP 2804:d59:1dfd:fb00:183f:5737:784d:52a2 - Responder

    Excelente, Enock!

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