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ENOCK CAVALCANTI: Marília Beatriz, a risonha Marília Beatriz, morreu triste

Marília

Marília Beatriz morreu triste

Por Enock Cavalcanti

Meus amigos, meus inimigos: Marília Beatriz de Figueiredo Leite, a mais risonha e prosaica intelectual desta terra dos indios Paiaguás, morreu – e imagino que morreu triste.

Claro, morrer vítima de uma pandemia que só o atrapalho dos governantes permitiu que avançasse sobre nós esse tanto! Marília Beatriz deve ter praguejado forte contra o capetão Bolsonaro em seus últimos dias, e reservado também alguns muxôxos para Emanuel e Mauro Mendes, os atrapalhados governantes daqui, já que Marília não levava desaforo pra casa – e, certamente, não levará para o céu mítico onde se encontra.

Marília Beatriz sentia como poucos e poucas a alegria e a dor do povo mato-grossense – e nosso povo anda tão sofrido nestes dias cinzentos.

Marília Beatriz morreu e todos nós, que a amávamos, morremos um pouco com ela. Eu sempre me senti caudatário do seu entusiasmo e sempre que ela aparecia junto a mim, eu tinha mais razão para sorrir e pra seguir em frente. Marília tinha o dom de entusiasmar.

Mas ela ficou muito acabrunhada, ano passado, ela que fora presidente da Academia Mato-grossense de Letras e uma das mais entusiasmadas defensoras daquela Casa, quando a eleição da atual presidente, a jornalista Sueli Batista, aconteceu cercada de muitas mumunhas e suspeitas quanto à regularidade da votação.

Eleição danada de complicada, que acabou provocando um racha entre os academicos. Dois pra lá, dois pra cá – e desde então, a AML anda mergulhada em silêncio, porque, com o afastamento de Marília Beatriz e outros tantos que questionaram a trampa, aquilo ali ficou numa pasmaceira.

Marília Beatriz morreu triste.

Triste porque foi pega por esse coronavirus que nunca deveria de matar tanto em um Brasil melhor governado.

Triste porque não teve mais jeito nem maneira de dar as caras na Academia Mato-grossense de Letras, ocupada por academicos que viraram as costas a Marilia Beatriz e àquele grupo de conselheiros que sempre foram os mais inquietos, e que de tanta vida enchiam a Casa Barão.

Assim que Marília Beatriz bateu as botas, explodiram os elogios, as boas lembranças, as recordações sobre a trajetória dessa mulher que encheu Cuiabá e Mato Grosso com tanta poesia, tanta beleza, tanta delicadeza.

Sim, as lágrimas vieram aos olhos desse velho blogueiro, tão cansado de perder pessoas queridas de perto e de longe, como meu irmão Heraldo, meu professor tão amado, que enchia minhas mãos de livros e de saberes, quando eu ainda era um menino. Drummond, Victor Hugo, Júlio Verne, Cervantes, Monteiro Lobato, Stanislaw Ponte Preta…quantos escritores o Heraldo me apresentou. Dostoievski, até aquela lideratura macarrônica e tão sofrida daquele russo o meu irmão me empurrava e dizia: taí a vida que você precisa conhecer…

Marília Beatriz também era assim, envolta por prosa e poesia, sempre rimando esperança em nossa cabeça, sem esquecer dos impropérios contra determinadas figuras e situações, bem colocados em seus devidos lugares.

Foi das primeiras figuras da UFMT que conheci, envolta nos desafios da semiótica. E depois veio esse furacão em que se transformou a presença de Marília Beatriz na Academia de Letras. Quebrando os protocolos e fazendo avançar a guerrilha cultural na capital.

Certamente que muitos panegíricos devem ser feitos a essa mulher notável. Mas Marilia Beatriz não nasceu para o silêncio tumular. Ela que viu o pai sofrer tanto com o racismo estrutural vigente na sociedade mato-grossense soube, como mulher inquieta, dar a volta por cima atropelando todos os preconceitos que havia para atropelar.

Por isso eu, que não pude acompanhar seu féretro, tento imaginar como estava sua cabeça nestes últimos momentos. E fico mais sentido porque sei que Marília Beatriz estava triste. Ele morreu quando não devia morrer. Ele ainda tinha tanta coisa pra aprontar.

O virus levou Marilia Beatriz de Figueiredo Leite, uma pensadora na plena maturidade de seus dias. Uma mulher cujo legado devemos nos esforçar para preservar e retransmitir às gerações que virão depois dela, da mesma forma zelosa como ela cuidou do legado de seu pai, Gersávio Leite. Sejamos sempre, como ela gostava de dizer, parceiros de sua inquietude.

Enock Cavalcanti, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO E, desde 2009, em Cuiabá

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