ENOCK CAVALCANTI: Censura às obras de Gervane de Paula é a história querendo se repetir como tragédia. Temos que nos mobilizar contra esses arruaceiros iletrados

Divulgo, abaixo, versão estendida do artigo, de minha autoria que circula na edição impressa desta quarta-feira do jornal Diário de Cuiabá, em que trato da censura que começa a atacar obras de arte também em Cuiabá, capital de Mato Grosso:

Censura, não!
Por Enock Cavalcanti

Meus amigos, meus inimigos: o jornalista Artur Garcia, através da sua web TV Kanal 1, de Cuiabá, resolveu entrar na onda obscurantista, que se espalha pelo Brasil, e fazer uma verdadeira caçada a “imagens pornográficas” em exposição de arte no Shopping Pantanal. Talvez amanhã, Artur e seus seguidores, estejam invadindo galerias de arte, escolas, residências, em busca de quadros e de artistas que não pratiquem a arte “certinha” que lhes agrada. E depois podem vir as fogueiras.

Começou assim: um cliente ainda não identificado do Pantanal viu um quadro do artista Gervane de Paula, que não lhe agradou, por mostrar pessoas nuas usando drogas – e clamou pela imediata retirada do quadro. O que existe em um pênis e em uma buceta, expostas à luz do dia, que assusta tanto determinadas pessoas?

Como ainda ecoa a censura recente que aconteceu lá no Rio Grande do Sul, contra exposição de arte patrocinada pelo Santander sobre o universo LGBT, os dirigentes do shopping preferiram fugir do atrito – e tiraram o quadro da mostra “Amo Cuiabá”, organizada pelo publicitário e produtor cultural João Gordo para festejar os 300 anos de Cuiabá.

Decretada a censura, já correu para o shopping o repórter Arthur Garcia, com sua câmera, para fazer alarde. E tem dado resultado: são milhares e milhares de acessos e centenas de manifestações de apoio, tipo “parabéns por defender a família cuiabana dessa pornografia esquerdista”. Existe, sem dúvida nenhuma, um setor de nossa comunidade, que entende que as pinturas de artistas como o Gervane, o Adir Sodré e outros que tais se confunde com putaria, com devassidão, com pecado. Vejam só que absurdo.

Eu, que imediatamente fui ao Facebook protestar contra a censura, tenho sido xingado, juntamente com minha mãe e minha família. “Você é um sociopata de merda, Enock. Vá se fuder, seu doente” – escreveu um internauta. Outro internauta aconselhou: “Compre um membro de borracha e vá lá no Pantanal sentar nele como forma de protesto”. E por aí vai a cantilena, mostrando que essa gente quer mesmo é arrebentar com qualquer tipo de discordância que desafie seu baixo moralismo, pretensamente inspirado por dogmas cristãos que só existem na cabeça deles. Devem ser cristãos que cospem na Bíblia quando leem aquele trecho em que o próprio Jesus Cristo se apieda da puta e desafia quem não tem pecado a atirar uma primeira pedra.

Ah, a falta que faz a informação. Os males que nos causam a manipulação da notícia. Favorecidos pela maré montante do bolsonarismo, os reacionários de Cuiabá tentam repetir aqui o que os seguidores de Hitler fizeram há tantos e tantos anos atrás. Os nazistas esmeraram-se em condenar a literatura e as artes “degeneradas”. Promoveram queimas de livros em toda a Alemanha e pelo mundo afora. Pior, queimaram pessoas só porque não eram arianos como eles mas judeus, ciganos, homossexuais, intelectuais. A mais lembrada das fogueiras nazistas é a de 10 de maio de 1933, na praça da Universidade Humboldt, em Berlim. O próprio diretor da Faculdade de Direito, para agradar os nazistas, se encarregou de juntar braçadas de livros da biblioteca sob sua guarda, para que fossem queimados na “fogueira da construção do novo homem germânico”.

Naquela noite perversa, estima-se que estudantes e membros do partido nazista tenham incinerado 20 mil livros. Entre os autores alvos da fúria intolerante estavam: Sigmund Freud, Karl Marx, Thomas e Heinrich Mann, Albert Einstein, Franz Kafka, Karl Kraus, Ernst Bloch, Robert Musil, Rosa Luxemburgo, Emil Ludwig, Bertolt Brecht, Arnold Zweig, Erich Maria Remarque, Erwin Piscator, Walter Benjamin, Stefan Zweig, Arthur Schnitzler, Marcel Proust, Romain Rolland, Emile Zola, Máximo Gorki, H. G. Wells e Ernest Hemingway.

Um dos maiores crimes que se pode cometer contra a cultura de um país ou de um povo é destruir sua memória, seus registros, sua história, suas ideias. Queimar livros como forma de punir e eliminar inimigos políticos, etnias minoritárias, modos de pensar e de viver diferentes é um ato tão bárbaro que deve ser condenado e combatido por toda a humanidade. E o mesmo deve se dizer dessa queimação contra as obras de nossos artistas plásticos que, com a sua abordagem, retratam a diversidade que marca sempre a apreensão de nosso cotidiano.

A caçada às obras de Gervane de Paula, que acontece neste momento, em Cuiabá, é a história querendo se repetir como tragédia. Temos que nos mobilizar, todos nós, homens e mulheres de boa vontade, para parar essa horda de arruaceiros iletrados.

 

ENOCK CAVALCANTI, jornalista e blogueiro, é editor de Cultura do Diário

 

 

6 Comentários

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  1. - IP 177.17.200.58 - Responder

    Baixarias devem ser censuradas sim , é essa exposição foi uma baixaria.Esses que se acham artistas,fazem as “obras”para chocar,É quando choca,acham ruim e protestam.Sao isso sim sem talento.

  2. - IP 189.11.201.94 - Responder

    O meu direito de ver uma obra de arte, de assistir uma peça de teatro e ler uma obra literária é intocável, aliás, isso está assegurado na Constituição da República. Quem quer exercer o direito de censurar deve, antes, revogar. Carta Magna. Se porventura alguém não quiser ver um quadro em exposição, deve simplesmente não ir ao local e pronto. Querer impor aos outros uma proibição é estupidez, cidadania mal formada, espírito autoritário. Isso ocorreu e ocorre em ditaturas que insistem em imitar Hitler e seus seguidores. Temos que repudiar esses comportamentos nazistas porque daqui a pouco queimarão livros e matarão pessoas.

  3. - IP 177.79.33.242 - Responder

    O internauta Vicente está certo. Se eu não gosto ou não curto uma obra de arte dentro de um shopping, com que direito eu,individualmente, posso exigir a retirada de tal obra de exposição? É igual à ir a igreja e notar que muitas das pessoas que ali estão nem prestam atenção no sermão, porque só ficam reparando os outros ou vendo o celular. Com que direito eu vou corrigir tal pessoa? Enfim, hipocrisia pura.

  4. - IP 179.179.89.187 - Responder

    Tem crianças no shopping seu pervertido,leia o estatuto da criança e do adolescente,crie um espaço privado proibido para menores e exponha até Vc pelado abraçado com gervanio,que aliás é um artista ridículo e de extremo mau gosto.Vicentinho sem noção. É shopping de compras imbecil!

    • - IP 189.11.201.94 - Responder

      O “artista” Osmir, por absoluta falta de argumentos e racionalidade, prefere os insultos em detrimento do debate saudável. Osmir é o típico machão da internet, ofende tudo e todos por confiar no anonimato que, por sua vez, protege sua covardia e indigência intelectual. Sua interpretação do ECA é absoluta, embora não possua formação jurídica. Enfim, Osmir cultiva carinhosamente seu histrionismo, sem se importar com o ridículo de suas manifestações.

      • - IP 187.113.44.167 - Responder

        Errou não se defendeu,sem argumentos atacou me.Mas pornografia em shopping não pode ,qualquer idiota sabe disso,menos Vicentinho do pt

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