ÉLIO GASPARI pede investigação sobre privataria patrocinada pelo governo do PT no âmbito da Agência Nacional de Saúde

A porta giratória da ANS e das operadoras

por Elio Gaspari

 Elio Gaspari denuncia a promiscuidade que o petismo estaria patrocina na Agencia Nacional de Saúde Suplementar, que fiscaliza e fixa normas para o funcionamento dos planos privados - mas estaria recheada de dirigentes ligados e comprometidos com as operadores de Saúde, tipo Unimed e Amil


Elio Gaspari denuncia a promiscuidade que o petismo estaria patrocina na Agencia Nacional de Saúde Suplementar, que fiscaliza e fixa normas para o funcionamento dos planos privados – mas estaria recheada de dirigentes ligados e comprometidos com as operadores de Saúde, tipo Unimed e Amil

Durante o tucanato, o comissariado petista deitou e rolou denunciando a promiscuidade da banca com o Banco Central, tanto pela nomeação de banqueiros para sua diretoria como pela porta giratória. Eles iam da banca para o BC e do BC para a banca. Jogo jogado. Seria o caso de se começar a discutir a promiscuidade que o petismo patrocina na Agencia Nacional de Saúde Suplementar, que fiscaliza e fixa normas para o funcionamento dos planos privados. Trata-se de um mercado que move R$ 93 bilhões, afeta a saúde física de 48 milhões de pessoas e está infestado por tamboretes e maus serviços. No ano passado, as operadoras reconquistaram o primeiro lugar no ranking de reclamações da clientela. Oito em dez fregueses queixavam-se delas. De cada dois processos abertos na ANS, um tramita há mais de cinco anos.

Mauricio Ceschin, que presidiu a ANS de 2009 a 2012, vinha do grupo Qualicorp, que doou R$ 1 milhão para a campanha da doutora Dilma. Leandro Tavares, cuja recondução para uma diretoria está sendo discutida no Senado, veio da operadora Amil.

Um diretor que veio dos quadros da Amil a eles retornou. Outra, saiu da Amil, passou pela agência e hoje está na Unimed. Um quadro da Hapvida que litigava contra a ANS tornou-se seu diretor-adjunto.

Semelhante situação poderia refletir um clima de harmonia entre o poder público e a iniciativa privada. Contudo, até hoje a ANS e o Ministério da Saúde não conseguiram criar mecanismos eficazes para cobrar aos planos privados as multas impostas às operadoras, nem pelos serviços prestados pelo SUS aos seus clientes.

Esse é um problema antigo, mas a repórter Cássia Almeida expôs novos números. Entre 2005 e 2010, aumentou em 60% o número de internações de clientes de operadoras privadas em hospitais do SUS. (Entre 2006 e 2012, as doações políticas das operadoras cresceram 37,2%, para R$ 8,6 milhões.) Em 2012, as internações foram 276.850, a um custo de R$ 537 milhões. Se essas pessoas não tivessem planos privados, também seriam internadas, porque esse é seu direito. O problema é que elas pagaram aos planos, e os planos nada pagaram à Viúva. O doutor Ceschin chegou a dizer que, “se o ressarcimento chegar a R$ 100 milhões, não tem relevância na solução dos problemas da saúde pública”. Quando o governador Geraldo Alckmin queria sublocar leitos públicos para os planos de saúde, prometia arrecadar, só em São Paulo, R$ 468 milhões.

O comissariado não executa as cobranças nem discute a mudança das leis que inibem o ressarcimento. Patrocina a pior das privatarias. Fiscaliza mal planos financeiramente inviáveis que se estabelecem na esperança de mandar seus clientes para o SUS sempre que o tratamento for caro. Assim, quanto mais a Viúva investe para melhorar a saúde pública, mais os espertalhões que vendem planos a R$ 160 mensais fazem o melhor negócio do mundo: embolsam por um serviço que não prestam e jamais pensaram em prestar.

 

ELIO GASPARI é articulista de O Globo

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