ÉLIO GASPARI – A caixa-preta do exame da OAB

A caixa-preta do exame da OAB
Elio Gaspari

Em dezembro de 2010, quando se descobriu que uma lambança ocorrida na distribuição das provas do Enem atrapalhara a vida de cerca de 10 mil dos 3,3 milhões de jovens que haviam prestado a prova, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, prontamente anunciou que pediria a anulação do exame.

Seria mais razoável oferecer uma nova prova aos prejudicados (o que foi feito), mas a Ordem defendeu uma posição extrema.

A veneranda OAB fez fama como papagaio de pirata de crises. Há um problema, e lá está ela metendo seu bico. Não importa que o assunto nada tenha a ver com o exercício da profissão de advogado. Nem mesmo que proponha uma nova e absurda prova para 3,3 milhões de jovens.

A OAB tornou-se uma instituição milionária e suas contas estão longe da vista do poder público. O doutor Ophir chegou a dizer que “o Congresso Nacional tornou-se um pântano”. Um de seus antecessores, Roberto Busatto, disse que “o comportamento indecoroso de alguns agentes públicos expôs ao desgaste as instituições do Estado”.

No seu próprio quintal, ela não é tão vigorosa, muito menos transparente. Há anos pipocam denúncias de fraudes no exame que os bacharéis são obrigados a prestar na Ordem para poderem trabalhar como advogados.

Desde 2007, sabia-se que uma integrante da banca de Brasília vendera por R$ 4.000 as perguntas de uma prova. Posteriormente ela recebeu o título de “melhor examinadora”.

Em Goiás, 41 candidatos compraram provas por até R$ 15 mil, e o Tribunal de Ética da Ordem decidiu que eles nada devem. Jamais a OAB mobilizou-se para punir exemplar e publicamente esse tipo de delinquência.

Agora a Polícia Federal anunciou que existiram duas infiltrações fraudulentas nos seus exames de 2009 e 2010. Numa ponta, 152 bacharéis compraram provas e, com isso, 62 deles habilitaram-se para cargos na PF, na Receita e na Abin. Felizmente, graças à polícia, foram afastados de suas funções.

Na outra ponta o problema é maior: 1.076 advogados “colaram” durante os exames. A PF descobriu isso de uma maneira simples. Rodou as respostas dos candidatos num programa de computador desenvolvido na Academia Nacional de Polícia, e a máquina descobriu onde se colou.

Simples: se num local 30% dos candidatos acertaram uma questão que teve um índice nacional de acerto de 5%, houve “cola”. (Steve Levitt explica a racionalidade estatística do sistema num capítulo do seu magnífico livro “Freakonomics”). Esse tipo de auditoria tornou-se o terror da rede escolar pública americana. Na semana passada, pegaram uma rede de “cola” num dos melhores colégios de Nova York.

Se a OAB quer continuar a dar lições aos outros, pouco lhe custaria criar uma auditoria semelhante à que a Polícia Federal usou. Não conseguirá pegar todos os examinadores que vendem provas, mas identificará os locais onde a “cola” é ampla, geral e irrestrita.

fonte O GLOBO

Categorias:Jogo do Poder

2 Comentários

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  1. - IP 201.15.103.178 - Responder

    COMO FALA BÓRIS CASÓI, “ISSO É UMA VERGONHA”. O QUE ESPERAR DA ENTIDADE DA OAB? NADA. NADA. A COBRANÇA DE ALTAS TAXAS É PARA ENRIQUECER A INSTITUIÇÃO E SEUS GESTORES. NADA MAIS. É UMA VERGONHA. CERTA VEZ A OAB-MT TROUXE DOIS EXAMINADORES DE SÃO PAULO. PODE?. PODE! ASSIM ACONTECEU. POR QUÊ?. FIZ UMA DENÚNCIA COM RELAÇÃO A PROVA ESCRITA E TIVE UMA NOTA ÓTIMA NA CORREÇÃO, PORÉM, ME TIRARAM NAS DEMAIS QUESTÕES. NÃO TENHO MÊDO DE ENFRENTAR QUALQUER PROFISSIONAL DO DIREITO, APENAS RESPEITO OS MAIS CULTOS. QUEM NÃO SOUBER NÃO CONSEGUIRÁ SOBREVIVER. ENTÃO, PRÁ QUE ISSO? SÓ PRÁ ANGARIAR DINHEIRO?. EU ACHO. O IMORTAL RUI BARBOSA NÃO INSTITUIU EXAME DE ORDEM. QUEM INVENTOU ESSA MANEIRA DE CONSEGUIR DINHEIRO? QUEM?. COM A PALAVRA O DOUTOR OPHIR CAVALCANTE. CADÊ A RECICLAGEM PARA OS ADVOGADOS DE 50,40,30 E 20 ANOS, QUANDO NÃO SE SUBMETERAM AO FAMIGERADO EXAME DE ORDEM?. CADÊ?.

  2. - IP 187.5.109.210 - Responder

    O povo brasileiro é corrupto por natureza, não só o povo brasileiro, mas o ser humano… a corrupção sempre existiu e sempre existirá, tanto na esfera pública como no campo privado, nada se pode fazer para acabar com a corrupção, somos todos corruptíveis, em maior ou menor proporção, em maio ou menor intensidade… vejo que a racionalidade está em se estabelecer meios técnicos e jurídicos (e não morais!) para amenizar a impunidade, e não acabar com a corrupção (esta nunca acabará!), para que se tenha uma convivência mais justa e menos desigual… aliás, como recentemente lembrou o Ministro Cezar Peluso, em entrevista ao Conjur, a corrupção é um produto desta sociedade, e que a sociedade não é contra a corrupção, ela é contra a corrupção do outro.

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