Edward Snowden tinha carreira sólida e uma vida confortável no Havaí. “Estou disposto a sacrificar tudo porque não posso permitir que o governo americano destrua as liberdades básicas de pessoas com esta máquina de vigilância que está sendo construída secretamente”

Ação de Edward Snowden, revelando a poderosa máquina de espionagem de e-mails privados montada sob o governo de Obama, amplia o debate sobre o equilíbrio entre segurança e privacidade no mundo moderno.

Ação de Edward Snowden, revelando a poderosa máquina de espionagem de e-mails privados montada sob o governo de Obama, amplia o debate sobre o equilíbrio entre segurança e privacidade no mundo moderno.

EDWARD SNOWDEN

“Não posso permitir que o governo destrua a liberdade da internet”

 

Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações de Ewen MacAskill [“Edward Snowden: how the spy story of the age leaked out”, The Guardian 12/6/13] e Glenn Greenwald, Ewen MacAskill e Laura Poitras [“Edward Snowden: the whistleblower behind the NSA surveillance revelations in Hong Kong”, The Guardian, 10/6/13]

 

 

Edward Snowden desembarcou no aeroporto internacional de Hong Kong, há aproximadamente um mês, com quatro laptops que lhe davam acesso a algumas das informações mais sigilosas do governo americano. Vindo do Havaí, onde trabalhava em uma empresa que presta consultoria para a Agência de Segurança Nacional (NSA), Snowden, de 29 anos, é o homem responsável pela maior quebra do sistema de inteligência da história recente dos EUA.

Ele revelou que, em nome da guerra contra o terror, o governo americano armou um gigantesco esquema de vigilância de telefones, emails e todo tipo de comunicação online. Diante da revelação, a NSA ressaltou que monitorava via internet “apenas estrangeiros”, e não cidadãos americanos, como se a observação suavizasse as coisas.

Nas últimas semanas, Snowden foi descrito por organizações de notícias como “o homem mais procurado da América” e chamado de “desertor” por membros do Congresso americano, que exigem que ele seja punido. Depois de vazar as informações sigilosas – publicadas pelo jornal britânico The Guardian e pelo Washington Post – e revelar sua identidade, ele desapareceu. Em entrevista ao Guardian, ele justificou sua ação: “Não quero viver em uma sociedade que faz este tipo de coisa”.

Antes de sumir, Snowden também deixou claro que, apesar de querer se identificar, queria evitar se tornar foco da cobertura midiática. “Não quero a atenção pública porque não quero que a história seja sobre mim. Quero que seja sobre o que o governo americano está fazendo”. Ainda em entrevista ao jornal britânico, ele afirmou: “Eu realmente quero que o foco esteja nestes documentos e no debate que, eu espero, acontecerá entre cidadãos em todo o mundo sobre em que tipo de mundo queremos viver”.

Cubo mágico

Snowden tinha a ideia de que não podia confiar nas grandes e tradicionais organizações de mídia de seu país. Procurou, em vez disso, jornalistas alternativos e que estivessem à vontade com a cultura dos blogs e das mídias sociais. Confiou no comentarista do Guardian Glenn Greenwald, que vive no Brasil. Os dois começaram a se corresponder em fevereiro – sem que Greenwald soubesse a identidade de seu interlocutor. Um mês antes, Snowden já havia procurado a jornalista e documentarista Laura Poitras.

Greenwald não sabia se as informações que recebia eram genuínas, e portanto não fez nada com elas. Em março, recebeu uma ligação de Laura, que o convenceu de que o assunto era sério. Greenwald e Snowden estabeleceram um sistema seguro de comunicação para a troca de documentos sobre o programa secreto de vigilância da NSA, batizado de Prism, que coleta informações das principais empresas de tecnologia do mundo.   No fim de maio, Greenwald viajou a Nova York para conversar com editores do Guardian, e, no dia seguinte, foi com Laura para Hong Kong se encontrar com Snowden. Laura e Greenwald nunca haviam visto uma foto do vazador. “Ele tinha um esquema elaborado para nos encontrar”, conta o jornalista. Eles tinham que ir a um lugar específico no terceiro andar de um hotel e pedir, em voz alta, informações sobre o endereço de um restaurante. Snowden disse a Greenwald que estaria segurando um cubo mágico.

Os dois jornalistas ficaram surpresos ao encontrar um homem de 29 anos como seu informante. “Eu esperava um veterano grisalho de 60 anos, alguém do alto escalão do serviço de inteligência”, lembra Greenwald. Depois de escutar Snowden por uma hora, no entanto, ele diz que passou a confiar totalmente no jovem.

As entrevistas com Snowden – junto com os documentos vazados – deram ao Guardian diversos furos, da ordem mostrando que o governo americano havia forçado a gigante das telecomunicações Verizon a entregar os registros telefônicos de milhares de americanos à existência do Prism.

A história sobre o programa de vigilância online também foi publicada pelo Washington Post porque Laura, que trabalha como freelancer, havia entrado em contato com o repórter investigativo Barton Gellman sobre o assunto. Laura acabou trabalhando em conjunto com os dois jornais. Poucos dias depois da revelação do Prism, o Guardian divulgou a entrevista em vídeo concedida a Snowden por Greenwald – e filmada por Laura.

Sacrifício

Snowden tinha uma carreira sólida, um bom salário e uma vida confortável no Havaí. “Estou disposto a sacrificar tudo porque não posso, em sã consciência, permitir que o governo americano destrua a privacidade, a liberdade da internet e as liberdades básicas de pessoas em todo o mundo com esta máquina massiva de vigilância que está sendo construída secretamente”, afirmou.   Fato é que sua ação abriu o debate sobre o equilíbrio entre segurança e privacidade no mundo moderno. Mas – ao contrário do que desejava – ele também se tornou foco da discussão: seria Snowden mocinho ou bandido? Herói ou traidor?

 

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