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EDUCAÇÃO, VERGONHA NACIONAL: Alunos da UFMT em Sinop ocupam reitoria em Cuiabá. A denúncia é que no campus do Nortão faltam muitos professores, materiais didáticos e até salas de aula

 Antes de viajar para o Japão, a reitora Maria Lúcia foi duas vezes em Sinop, tentar negociar. “Ela só falou, falou e enrolou a gente e não deu solução para as nossas pautas, e isso foi um dos motivos que nos trouxe aqui, já estamos há 15 dias em greve, se a gente não fizer isso, coisas piores vão acontecer” - reclamam os acampados


Antes de viajar para o Japão, a reitora Maria Lúcia foi duas vezes em Sinop, tentar negociar. “Ela só falou, falou e enrolou a gente e não deu solução para as nossas pautas, e isso foi um dos motivos que nos trouxe aqui, já estamos há 15 dias em greve, se a gente não fizer isso, coisas piores vão acontecer” – reclamam os acampados

Tem barraca, colchão, violão, toalha de banho e mochila para todo lado na reitoria da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, que foi ocupada desde as 10h dessa segunda-feira (5) por estudantes do campus de Sinop. De ônibus, carro, de carona, de caminhão e até avião, vieram representando cerca de 3 mil alunos, em greve há 2 semanas. A pauta de reivindicações assusta, porque indica problemas graves, que podem comprometer a formação desses jovens. Boa parte deles fez um grande esforço financeiro, para chegar a capital, e também um esforço político, para dar ressonância à causa.

São 24 estudantes, à espera de outros de Rondonópolis e Barra do Garças, embora ainda não seja certeza que venham.

Na quarta-feira (7), os três campi da UFMT vão parar, um em solidariedade ao outro, já que as reclamações são parecidas.

Os acampados afirmam que só vão sair de lá quando a reitora Maria Lúcia Cavalli Neder se pronunciar. Ela está no Japão, conforme a Assessoria de Imprensa, para a formatura de estudantes japoneses integrados ao programa de Ensino à Distância da UFMT.

Em Sinop, a vida acadêmica é um drama. Faltam professores e técnicos, falta material didático, falta até sala de aula. Na biblioteca, faltam livros e só há quatro computadores para todo o conjunto de alunos, sendo que um não está funcionando. O presidente do Diretório Centro dos Estudantes (DCE) da UFMT, campus Sinop, Miller Júnior Caldeira Gomes, afirma que a Biblioteca não comporta 100 alunos. Segundo ele, o campus não tem a mínima segurança, porque não possui se quer guarita e assaltos não são incomuns, inclusive com porte de arma. O prédio do hospital veterinário está lá parado, fechado, com alguns equipamentos, mas não todos exigidos para começar a funcionar. Os alunos também não contam com uma fazenda universitária, o que faz muita diferença no campus de Sinop, que tem como característica principal ser mais voltado para cursos que dão formação rural. Por exemplo, Agronomia, Engenharia Agrícola, Zootecnia, Engenharia Florestal, Veterinária. Mas há ainda outros cursos.

Miller é de Santo Afonso, perto de Tangará da Serra. Tem bolsa para se manter fora de casa. Se dependesse só dos pais, ficaria difícil continuar os estudos, porque vem de família que sobrevive com dificuldades. Ele mora em república, junto com outros estudantes. “Em Sinop, não existe uma política de moradia estudantil, com alojamentos públicos, só auxílio para pagar aluguel”, observa.

São mesmo graves os problemas no campus de Sinop e estão incomodando a maioria dos estudantes, tanto é que em 10 assembleias a maioria vem reiterando a manutenção da greve. Na última plenária, mais de 830 universitários votaram pela permanência do movimento. “Isso é quórum muito expressivo!” – avalia Miller.

Pouco depois da ocupação na manhã dessa segunda, a reitoria procurou os estudantes e afirmou que em 24 horas daria uma sinalização para os problemas crônicos e urgentes apresentados.

Um documento já foi entregue oficialmente à reitoria na sexta-feira (2).

O estudante de Ciências Sociais, campus Cuiabá, Fabrício Paz, 21 anos, estava no início da tarde, junto aos acampados, dando apoio em nome da União Nacional dos Estudantes (UNE). Na visão dele, “o diálogo entre as partes é importante e o movimento iniciado em Sinop vai representar uma mudança de postura, porque a reitoria vai ter que ouvi-los pelo menos”. Ele não vê relação entre essa situação caótica e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). “A expansão ocorreu e agora temos que lutar pela qualidade do atendimento”.

Mas para a estudante de Engenharia Agrícola, Jane Vielma, 20, Reuni e precarização do ensino têm tudo a ver. “Aumentaram o número de vagas, mas não se prepararam para receber a gente, que fica aí pelo corredor, caçando sala de aula desocupada, e, quando a gente não acha sala, ficamos sem aula” – denuncia.

Jane trabalhava de vendedora e depois de estagiária da Prefeitura Municipal de Nova Canãa. Economizou todo dinheiro que tinha para estudar em Sinop. Para conseguir pagar a passagem de ônibus até Cuiabá de ônibus, afirma que tirou “comida da boca”. O dinheiro dela acabou e não pode trabalhar porque o curso toma o dia todo. A saída para Jane é conseguir bolsa. “Muita gente que veio em pior situação que a minha ainda não conseguiu bolsa e uns que não precisam conseguiram. Quem tem carro zero precisa de bolsa para quê? Por isso que uma das nossas reivindicações é uma assistente social que distribua melhor esses benefícios”.

Jane lamenta a situação do seu curso. “Já chegou da gente ir para o laboratório e o professor falar assim: olha, não vai tem aula, porque não tem material, e muitas vezes o que está em falta é material básico do básico.”

Emanuele Ramos, 20 anos, faz Zootecnia, no campus da UFMT em Sinop, assim como o irmão. Ambos vieram de Macapá (AP). Ela pagou uma passagem de avião para vir até Cuiabá. “Usei um resto de dinheiro que estava guardado para uma urgência”, explica.

O esforço se justifica pelo menos por um ponto da pauta: falta de professores. “Estamos sem aula de química e anatomia humana. Temos sete disciplinas e estamos sem duas”, preocupa-se Emanuele.

Karine Caldeira , 19 anos, é caloura de Engenharia florestal. Mal começou o curso e já está tensa. “A gente veio por causa de um todo. Agora no momento não estão faltando professores para mim ainda, mas para os meus veteranos faltam e eu fico muito preocupada por eles e por mim. Pretendo pedir transferência para Medicina Veterinária no qual está faltando muita coisa”, diz ela.

A colega ao lado desestimula. “Desiste de mudar porque a Veterinária está feia”, avisa.

Felipe Borges, 21 anos, de Itapira, no interior de SP, fazia faculdade particular e veio para Sinop, porque entraria em qualquer uma pública que passasse. “Eu pagava quase 980 reais por mês”. Na escola Particular, no entanto, se precisasse, por exemplo, de plaquetas em laboratório o professor pedia e no outro dia tinha o material. “Na federal não é assim…eu vejo essa diferença”. Felipe veio de carona até Cuiabá para economizar na passagem.

Se a situação está ruim agora no campus da UFMT em Sinop, já foi pior. É o que afirma o paulista Vinícius Pereira, 21, que está no sexto semestre de Engenharia Agrícola e Ambiental. “Quando eu comecei não tinha nem asfalto, os carros ficavam atolados na frente das faculdades, e não tinha internet – hoje não funciona, mas está instalada. Fizemos outros protestos, como a reivindicação do RU. Ficamos acampados dois meses na frente porque era uma ameaça de abrir, mas não abria e foi indo, foi indo, foi indo e não abria. Acho que reagir funciona sim e traz melhorias”. Para ele, a tristeza maior é ver a biblioteca cheia de prateleiras vazias.

Antes de viajar para o Japão, a reitora Maria Lúcia foi duas vezes em Sinop, tentar negociar.

“Ela só falou, falou e enrolou a gente e não deu solução para as nossas pautas, e isso foi um dos motivos que nos trouxe aqui, já estamos há 15 dias em greve, se a gente não fizer isso, coisas piores vão acontecer”

Pela fala dos alunos, a impressão é de que está um caos o campus de Sinop. “Mas é, está uma bagunça”, afirma o paranaense Max Martins, 21, da Zootecnia.

Já aconteceu até o impensável com Ezequiel Giese, 26 anos, do Rio Grande do Sul. “Na aula de laboratório, os produtos estavam vencidos, até mesmo reagentes”.

Tabata Pereira, 19 anos, da Engenharia Agrícola Ambiental, veio de Campo Limpo Paulista (SP). Informou-se de que abriria Medicina em Sinop. “Já me mudei para ir me ambientando na cidade, mas o campus não tem estrutura para abrir um curso do porte de Medicina. Se não suporta nem os cursos que já estão lá…Agora não sei o que fazer, se vou voltar ou se termino Agrícola ou vou tentando em outros vestibulares, até passar em Medicina em outro lugar…”

O vice-reitor da UFMT João Carlos Maia afirma que todas as pautas consideradas de curto prazo foram atendidas, quais sejam liberação para espaço de cantina, centro de vivência, RU, a internet e hospital veterinário. “Esse vai abrir em 60 dais”, afirma. Segundo ele a reitoria não pode dar garantias sobre as pautas de médio e longo prazo como a construção da guarita e a ampliação da biblioteca. “Isso depende de liminar e liberação de verbas. Qualquer pessoa de bom senso sabe que é humanamente impossível conseguir verbas públicas da noite para o dia”.

Perguntado se as reivindicações dos alunos são justas, o vice-reitor afirmou que “são as mesmas da UFMT”.

 

 São 24 estudantes de Sinop e o acampamento está à espera de outros de Rondonópolis e Barra do Garças que também devem vir à Capital para protestar


São 24 estudantes de Sinop e o acampamento está à espera de outros de Rondonópolis e Barra do Garças que também devem vir à Capital para protestar

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