EDUARDO MASCARENHAS: Sempre fiquei impressionado com a tristeza ou mesmo com a ameaça de tristeza que, pela época do Natal, se abatem sobre as pessoas. Caso eu quisesse exagerar e ser cruel, poderia até dizer que o Natal é uma época de crianças alegres cercadas por adultos tristes. Evidentemente, dizer isso é excessivo. Na verdade, as emoções despertadas pelo Natal são bastante complexas. Todavia, estou certo de que há pelo menos uma ponta de tristeza em quase todo mundo. LEIA SELETA DE CRÔNICAS NATALINAS

MULHER TRISTE NA PAGINA DO EEDUARDO MASCARENHAS – Emoções e tristezas Natalinas

O Natal desperta emoções complexas. Evoca a infância perdida. 
Cria uma sensação de perda de vínculos com o mundo.
Sempre fiquei impressionado com a tristeza ou mesmo com a ameaça de tristeza que, pela época do Natal, se abatem sobre as pessoas. Caso eu quisesse exagerar e ser cruel, poderia até dizer que o Natal é uma época de crianças alegres cercadas por adultos tristes. Evidentemente, dizer isso é excessivo. Na verdade, as emoções despertadas pelo Natal são bastante complexas. Todavia, estou certo de que há pelo menos uma ponta de tristeza em quase todo mundo.
A alegria das crianças é motivada por razões óbvias. O Natal é época de presentes e acima de tudo de PRESENÇA de pais muito frequentemente ausentes.
Também é de fácil entendimento o lado alegre que desponta nos adultos. O Natal constitui uma oportunidade de reencontros, anistias e perdões. A esponja da solidariedade lava mágoas e rancores acumulados e encardidos. Trata-se, no mínimo, de uma trégua, de um cessar-fogo, de um armistício e de uma esperança de recomeço. Tudo isso enternece e comove corações.
Ora, se o Natal é exatamente tudo isso, de onde decorre a tristeza que ele acarreta? Aliás, não é só o Natal que provoca tristeza; ocasiões a princípio alegres como a Passagem de Ano e o Carnaval também trazem tristeza. No entanto, para um olhar mais fino e agudo, há matizes distintos nessas tristezas. Qual é então o matiz específico das tristezas natalinas?
Em primeiro lugar, salta aos olhos que, diferentemente da Passagem de Ano e Carnaval, o Natal é em essência uma festa da família. Se a Passagem de Ano ainda é uma festa híbrida, mistura de Natal com Carnaval, este, por sua vez, já é quase o oposto do Natal. No Natal se comemoram o amor e a família, ao passo que no Carnaval se festejam a disponibilidade e a sensualidade; ou melhor, festeja-se a sensualidade disponível. Estamos diante quase do oposto dos vínculos que soldam a família.
A primeira fonte do banzo natalino é o fato de o Natal evocar a lembrança daquela infância querida que os anos não trazem mais. Mas não é só isso. O Natal evoca também a infância que se quis ter e que não se teve, as dores de um passado familiar que nem sempre foi doce.
Como se não bastasse, o Natal evoca ainda a diferença entre o amor e a família que se tem e a que se gostaria de ter. Nosso casamento e nosso relacionamento com os filhos e amigos serão tão bons quanto gostariamos que fossem? Então ficamos tristes e saudosos de uma vida de afeição e de amor com que sonhamos e que não conseguimos realizar. Aquilo que se deixou de ser sem nunca ter sido… E haja fossa!
Podemos ainda detectar no Natal outro fator entristecedor, fator a que se presta pouca atenção, mas que é muito importante. Trata-se do seguinte: por acentuar poderosamente o vínculo familiar, o Natal produz na mente um duplo efeito.
Em primeiro lugar, produz uma sensação de perda dos vínculos mundanos. De uma hora para outra, passamos a ter a s ensação de que nossa vida ficou restrita à vida familiar. É como se o mundo tivesse morrido e ficassemos reduzidos à família. Isso representa uma perda para nossa parte adulta, além de provocar uma sensação de claustrofobia, de estarmos confinados em espaços pequenos.
Em segundo lugar, o Natal, também por reforçar o sentido da família, tende a desqualificar a sexualidade, pois esta, ao produzir permanentemente tentações, tende a desestabilizar os casais. Assim, o Natal é uma festa antiafrodisíaca, quase um breve contra a luxúria. Essa sensação de estar meio dessexualizado angustia o lado adulto, provocando uma verdadeira hipocondria sexual: “Será que perdi o sexo para sempre?”
A claustrofobia e a hipocondria natalinas também colaboram para a tristeza específica do Natal.
Todas essas emoções se dão com pessoas que tem família, que não perderam filhos e amores. Imagine-se a situação daquelas que já sofreram essas perdas!
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ARTUR DA TÁVOLA – Natal Existencial

Que o seu Natal seja a certeza de que a vida é apenas descoberta, aventura, invenção e mistério.

Que seja Natal em você ainda quando lá fora imperem o escárnio e a injustiça.
Nascendo natais em você, melhor enfrentará a luta por construir o mundo com justiça e amplidão.
Será Natal o que for afetivo, caloroso, verdadeiro e sem disfarces, mesmo o de Papai Noel.
Será Natal sempre que o pedido de perdão seja feito e no coração se abrigue o mesmo sentimento de perdão, que cada um aprenderá a dar e pedir.
Será Natal o que se fizer sincero e grato. Será Natal onde o sorriso agradeça, peça, revele ou insinue e jamais disfarce, distraia ou seduza.
Há de ser Natal quando todos festejemos por igual, e saibamos avaliar perdas, dores, erros e ofensas e comungar qualidades, feitos, capacidade de prosseguir na luta constante por ver, sentir, saber e enfrentar.
Há de ser Natal sempre que se comece e a força nasça e renasça, proclamando emocionada, a descoberta do si mesmo e dos tesouros no imo escondidos.
Sendo Natal você pode se comover, dar a mão, chorar à toa, beijar os filhos, pedir a benção ao pai, brincar de bola de gude, boneca ou soldadinho de chumbo.
Sendo Natal, você deve se fazer mais simples, chorão ou ciumento, sentar no colo até de estátua, sem temer pedir afago, agasalho, cafuné, abraço de filho, doce de leite ou trégua.
Natal seja, onde houver consciência de tudo que oprime, principalmente quando vem disfarçado em lucro, progresso, ciência, aparência, fruição, rispidez, sentimento de superioridade, pretensão ou esbanjamento.
Natal seja, onde o supérfluo não seja!
Natal seja sempre que a arrogância ceda!
Natal seja onde re/exista um gesto sincero de compreensão e coragem de não fazer o que oprime, ou capitular ante a opressão sofrida.
Serás o Natal se fores tu. Serás o Natal se fizeres um congresso interior dando a palavra a cada bancada interna.
Serás o Natal se te identificares com o melhor e o pior de ti, crucificando-te em sacrifício para elevar-te à altura do melhor de ti e do Pai que elejas como padrão.
Serás o Natal se fores presente, embrulho, dádiva, oferta, surpresa, entrega ou adivinhação.
Se, em vez de tu, preferires ser você, então que seja Natal em você quando se estabeleça a capacidade de compreender quem o ofende sem ofender quem o compreende; que seja Natal em você sempre que se descobrir também menor, mesquinho ou pequeno e fizer o esforço de halterofilista da própria moral.
Seja Natal em você sempre que se sinta invisivelmente emocionado ou emocionalmente visível, tocável, perceptível, em sua melhor dimensão do sentir.
Que seja Natal em você a cada recordação e reconhecimento de quem algo lhe trouxe, mesmo encapado em dor ou perda, espanto, amor ou desilusão.
Ser Natal é olhar o céu para obter silêncio. É saber olhar, pacificar, gesticular a esperança e votar na verdade.
Ser Natal é ascender as próprias luzes sem brilho e ouvir, no silêncio, a voz do mistério a proclamar a verdade, numa linguagem oculta, com a qual se consiga alcançar sem saber e perceber sem conhecer.
Ser Natal é pular o muro ou entrar pela chaminé para dentro de si e lá encontrar a mesma criança com as enormes barbas brancas da sabedoria milenar da espécie.
Ser Natal é descobrir que Natal é SER!

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RUBEM ALVES – Natal

O Natal me deixa triste. 
Porque, por mais que o procure, não o encontro. 
Natal é uma celebração.
As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.
Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício.
Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada.
Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.
Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas.
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LYA LUFT – Acreditar no Natal

“Acreditar em Papai Noel, em anjos, em famílias amorosas ou amigos fiéis, em governantes mais justos e líderes mais capazes – em alguma coisa a gente acaba sempre acreditando”
Acreditei em Papai Noel por muitos anos. Menina do interior com a fantasia sempre a mil, ele fazia parte das minhas histórias encantadas. Até uns 7 anos de idade, eu também acreditava na cegonha e no coelho da Páscoa. Quando o pôr-do-sol tingia o céu, diziam-me que os anjinhos começavam a assar aqueles biscoitos de Natal que se faziam em todas as casas da pequena cidade. Trovoadas de começo de verão eram São Pedro arrastando os móveis para a fábrica de brinquedos ter mais espaço.
Na antevéspera de Natal, um recanto da sala era ocultado por lençóis estendidos, e ali atrás ocorria o milagre: na noite de 24, com o coração saltando de ansiedade, a gente escutava sininhos como que de prata: era hora. Levada pela mão da mãe ou do pai, eu entrava na sala, de onde os lençóis tinham sido removidos, e lá estava ela: a árvore de Natal, toda luz de velas, toda cor de esferas, e embaixo os presentes. Muitíssimo menos dos que se dão hoje às crianças, mas havia presentes. Cantávamos canções natalinas, todo mundo se abraçava, depois abríamos os pacotes e comíamos a ceia. No dia seguinte, chegavam tios, primos, alguns amigos. Era só isso, sem alarde, mas com emoção. Guardei a sensação de que Natal é fraternidade, é reconciliação, é alegria de estar junto, é a chegada de pessoas queridas, é o tempo da família. Para quem não a tem, é o tempo dos amores especiais. Não éramos particularmente religiosos, mas uma de minhas avós, luterana convicta, na manhã seguinte me levava à igrejinha, onde eu gostava de cantar. Algo de muito bom se comemorava nesse tempo, o nascimento de Cristo e a esperança dos povos. Nem tudo seria guerra e perseguição, pobreza, crueldade, injustiça.
Ilustração Atómica Studio
As pessoas se queixam muito de que o Natal hoje é só comércio. Depende de quem o comemora. Se me endivido por todo o próximo ano comprando presentes além de minhas possibilidades, pois no fundo acho que assim compro amor, estou transformando o meu Natal num comércio, e dos ruins. Se entro nesses dias frustrado porque não pude comprar (ou trocar) carro, televisão, geladeira, estou fazendo um péssimo negócio para minha alma. E, se não consigo nem pensar em receber aquela sogra sempre crítica, aquele cunhado cínico, aquele sobrinho malcriado, abraçar o detestado chefe ou sorrir para o colega que invejo, estou transformando meu Natal num momento amargo. Então, depende de nós. Claro que há as tragédias, as fatalidades, doença, morte, desemprego, alguma maldade – essas não faltam por aí. Um avô meu morreu de doença muito dolorosa, na véspera de Natal. Foi a primeira vez que vi um adulto, minha avó, chorando. Há poucos anos, minha mãe morreu na antevéspera de Natal, depois de longuíssimo tempo de uma enfermidade maldita. Mas foram também ocasiões de conforto e consolo, abraço, amor e entendimento.
Na medida em que não se podem dar muitos e caríssimos presentes, talvez até se apreciem mais coisas delicadas como a ceia, o brinde, o carinho, os votos, a reunião da família, o contato emotivo com os amigos, mensagens pelo correio ou e-mail, música menos barulhenta e aroma de velas acesas. Mais que tudo isso, o perfume de uma esperança ainda que realista. A crise nas finanças pode incrementar a valorização dos afetos. Se não pudermos viajar, curtiremos mais nossa casa. Se não há como trocar velhos objetos, vamos cuidar mais dos que temos. Se não podemos comprar o primeiro carro, vamos olhar melhor nossos companheiros no metrô. Vamos curtir mais nossos ganhos em afeto.
Não é preciso ser original para escrever sobre o Natal. A gente só quer que ele seja tranqüilo e gostoso, e que nos faça acreditar: em Papai Noel, em anjos, em famílias amorosas ou amigos fiéis, em governantes mais justos e líderes mais capazes, em um povo mais respeitado – em alguma coisa a gente acaba sempre acreditando. Porque, afinal de contas, é a ocasião de ser menos amargo, menos crítico, menos lamurioso e mais aberto ao sinal deste momento singular, que tanto falta no mundo: a possível alegria, e o necessário amor.
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MARTHA MEDEIROS – Fé no Natal

As semanas que antecedem o Natal são de caixa de e-mails lotada: diversas mensagens chegam, algumas bem alegres, outras com apelos um pouco melodramáticos, em especial as que recrutam Jesus, o aniversariante esquecido. De fato, vivemos numa época megaconsumista e muitos não dão valor à data, mas a tragédia não é absoluta.

De minha parte, não festejo o… aniversário de Jesus, mas nem por isso minha casa se transforma num iglu habitado por abomináveis corações de gelo. Me emociono, confraternizo, abraço, beijo e brindo à paz, acreditando que essa abertura sincera para o afeto é uma espécie de religião também.
Recentemente, o escritor e filósofo suíço Alain de Botton esteve no Brasil lançando Religião para Ateus, livro em que ele defende a tese de que, mesmo sem acreditar em Deus, é possível ter fé. E mesmo sem ter fé, é possível encontrar na religião elementos úteis e consoladores que suavizam o dia-a-dia.

Botton condena a hostilidade que há entre crentes e ateus, e diz que em vez de atacar as religiões, é mais salutar aprender com elas, mesmo quando não compactuamos com seu aspecto sobrenatural.

Não é de hoje que admiro esse autor, e mais uma vez ele me empolga com sua visão. Fui criada numa família católica, mas já na adolescência minha espiritualidade se divorciou dos rituais de celebração, já que deixei de acreditar em fatos bíblicos que me pareciam implausíveis. Nem por isso fiquei órfã dos valores éticos que as religiões pregam.

Solidariedade, gentileza, tolerância, princípios morais, nada é furtado daqueles que descartam a existência de Deus. Claro que, se não houver o hábito constante da reflexão, podemos nos tornar materialistas convictos e acabar exercendo a bondade só em datas especiais.

É nesse ponto que Alain de Botton defende o lado prático e benéfico das religiões: elas funcionam como lembretes sobre a importância de nos introspectarmos e de fazermos a coisa certa todos os dias. Quem prefere não buscar esses lembretes na igreja, pode buscar na arte, no contato com a natureza ou onde quer que sua alma se revitalize.

Do que concluo que é possível encontrar o sentido do Natal sem montar presépio, sem assistir à missa do Galo e sem servilismo religioso. Basta que sejamos uma pessoa do bem, consciente das nossas responsabilidades coletivas e que passemos adiante a importância de se ter uma conduta digna. Nós todos podemos ser os pequenos “deuses” de nossos filhos, de nossos amigos e também de desconhecidos.

Dentro desse conceito, posso afirmar que o Natal é frequente aqui em casa: hoje, amanhã, depois de amanhã. A diferença é que nos outros dias estamos de moletom em vez de vestido de festa, e a ceia vira uma torrada americana, mas o espírito mantém-se em constante estado de alerta contra o vazio e a superficialidade da vida.
Categorias:A vida como ela é

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