EDUARDO MAHON – Aqueles profissionais que estão começando, procurando alternativas e o advogado que vive distante, precisam ser acolhidos e incentivados pela própria Ordem dos Advogados.

Eduardo Mahon, advogado

Advogados órfãos
Por EDUARDO MAHON

Advogar é um eterno risco. Demanda exposição ininterrupta e muita coragem. No início, todos tremem diante de uma autoridade que pretende apequenar o advogado ou mesmo diante de colegas mais experientes. Quem, ainda na fase inicial, não sentiu a pressão da família e dos clientes? O jovem advogado é o profissional que mais merece a atenção da Ordem dos Advogados do Brasil em função das peculiaridades de um mercado bastante especializado e das características da profissão.

De outro lado, há distâncias continentais em Mato Grosso que não podem ser facilmente superadas, causando quase um apartheid entre a representação classista da seccional e o colega distante. Quais as ferramentas que a OAB oferece para auxiliar os que estão distantes das facilidades da capital? Aqueles que precisam se socorrer dos tribunais, das autarquias da administração direta e indireta e da própria Ordem, o que fazem para satisfazer suas necessidades?

São duas situações que merecem atenção redobrada, mas que parecem estar em segundo plano. Ao que tudo indica, a Ordem dos Advogados preocupa-se com questões alheias às agruras do jovem profissional e do colega do interior, fechando-se em discussões intermináveis em suas comissões. Não há interatividade e nem acessibilidade, o que gera uma sensação palpável de orfandade. Precisamos responder a uma pergunta básica: o que a Ordem dos Advogados pode fazer por nós? Surge um silêncio constrangedor diante de uma questão das mais básicas.

E aqueles advogados que tem as prerrogativas legais violadas? São protegidos de imediato na liberdade profissional, na confidencialidade com seus clientes, no acesso aos processos sigilosos, nos atendimentos em balcões judiciários, ministeriais, policiais e administrativos? Acreditamos que, infelizmente, haja essa carência. É mais uma orfandade que ocorre até mesmo com advogados experimentados, tornando crítico o problema com nossos colegas de cidades distantes e com o jovem advogado, justamente pelas dificuldades que já constatamos anteriormente.

Alertas para essas encruzilhadas, ficamos meditando sobre o mercado de trabalho na advocacia. Se, a cada ano, a Ordem dos Advogados aprova cerca de mil novos advogados a inflar a concorrência, será que haveria um concomitante acompanhamento desse jovem profissional? E aquele que se afasta da capital para tentar uma nova vida no interior, tem ele o atendimento, o suporte, o acompanhamento que merece nos primeiros passos da carreira? Num mundo informatizado, onde a internet suprime distâncias, não é possível que continuemos a nos comunicar de forma tão sofrível. É preciso mudar isso e dar a mão a quem está distante.
Essa distância da advocacia com a Ordem não é uma mera questão de quilometragem. Diz respeito muito mais à carência de atenção, cuidado, solidariedade com nossos colegas do que propriamente o afastamento físico. Não podemos deixar que a Ordem se contamine com a mentalidade elitista de um advogado que já superou os problemas iniciais, estabeleceu-se num grande escritório, vive em meio a grandes causas e tem uma carteira estável de clientes. Aqueles profissionais que estão começando, procurando alternativas e o advogado que vive distante, precisam ser acolhidos e incentivados pela própria Ordem dos Advogados. Como é de conhecimento público, o sucesso não se constrói sozinho. Queremos saber como podemos ajudar. Essa é a missão de uma OAB rejuvenescida, combativa e solidária.

Eduardo Mahon é advogado.

Categorias:Direito e Torto

3 Comentários

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  1. - IP 68.171.231.81 - Responder

    Excelente professor!!!

  2. - IP 177.41.92.230 - Responder

    Parabéns pelas sábias palavras. Quando eu comecei, demorei três anos até pegar o básico que nunca ninguém me explicou e sinto que nunca tive essa atenção. Mahon, caso você seja candidato, certamente estaremos juntos. Não tinha ouvido ainda uma palavra sequer pro jovem advogado e me coloco na situação dos meus colegas e milhares de outros que vem atrás de mim que não tem qualquer direção, depois de uma péssima faculdade.

  3. - IP 189.59.42.50 - Responder

    Ë uma agonia constante começar a se arriscar no meio da advocacia. Na verdade, não somos muito bem preparados e somos colocados crus no mercado. Obrigado pelas palavras, Dr. Mahon. Retratou o que sentimos.

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