EDUARDO GOMES: Zé Riva, que mandou muito em MT, chega aos 61 anos esquecido por seus antigos comensais

Ex-mandachuva e agora sem comensais Riva completa 61 anos

Acabou
Abandonado por antigos comensais do poder – que ele controlava – José Geraldo Riva, o homem que foi mandachuva na Assembleia Legislativa  por duas décadas  e deu as cartas no governo, completa 61 anos neste 8 de abril

Rei morto, rei posto. Assim, o então deputado estadual Pedro Satélite (PSD), que gravitava à sua sombra, respondeu ao meu questionamento sobre o amanhã na Assembleia Legislativa, sem o mandachuva Riva – Isso no apagar das luzes de 2014. A expressão de Satélite motivou-me a escrever um livro sobre Riva, o que fiz em seguida.

Nenhum político concentrou tanto poder em Mato Grosso quanto Riva. Por duas décadas a Assembleia Legislativa rezou por sua cartilha. Ao longo desse período os governadores engrossaram a fila do beija-mão a ele. A bancada federal nunca assumiu posicionamento que chocasse com seus desejos. AMM e UCMMAT, que são as associações dos prefeitos e vereadores, respectivamente, eram verdadeiras extensões de seu gabinete. Entidades de classe de servidores, patronais e de trabalhadores na iniciativa privada, mesmo quando dirigidas por seus críticos, sempre buscam seu apadrinhamento quando se sentiam prejudicadas ou reivindicavam algo. A força representativa dele chegou ao fim. Do poder quase ilimitado não resta nada. e, em 3  junho, começa a cumprir pena de prisão domiciliar de 2 anos, por força de uma delação premiada e homologada pelo desembargador do Tribunal de Justiça, Marcos Machado, que o livrou das grades por vários crimes de colarinho branco por ele assumido – é réu confesso e, como pasrte do acordo de delação, terá que devolver R$ 92 milhões aos cofres públicos.. Por várias vezes Riva foi preso. Todas as sentenças e prisões por improbidade administrativa. Com essa mistura de currículo e ficha corrida ei-lo agora abandonado pelo antigos comensais de seu gabinete, ex-liderados políticos, ocupantes de cargos públicos por seu apadrinhamento.

Antes era assim…

Com a mesma rapidez que se aproximavam do mandachuva, os comensais sumiram. Sumiram todos, ou como disse Satélite: Rei morto, rei posto.

Riva foi um dos principais líderes políticos de Mato Grosso desde 1998, quando foi eleito o deputado estadual mais votado em seu Estado e nunca mais deixou essa condição. Paralelamente a isso, também carregava o incômodo título de parlamentar mais denunciado pelo Ministério Público e mais processado do Brasil – o maior ficha suja. Quanto à pecha Riva sempre a desqualificou. Dizia que o MP tratou de pulverizar uma ação em várias e que repetiu essa prática em todos os casos de supostas irregularidades entre a Assembleia e fornecedores.

… Cacique também pra índio

Capixaba de Guaçuí, nascido em 8 de abril de 1959, José Geraldo Riva, comemora aniversário juntamente com Cuiabá, cidade fundada pelo bandeirante paulista Moreira Cabral, 240 anos antes de seu nascimento.

Sua benção ao Cuiabá Arsenal, na sugestiva camisa 55

Ainda criança Riva foi em busca de dias melhores no Paraná. Em 1979, com o diploma de técnico em Contabilidade debaixo dos braços, mudou-se para Juara, município na calha do rio Arinos e que dava seus primeiros passos. A profissão era conhecida como guarda-livros. Riva se orgulha dela e conta que sua família era muito pobre. Seu pai, Dauri Riva, reuniu os filhos, e sem alternativa, pediu que eles escolhessem um para continuar os estudos, porque não poderia pagar escola para todos. A decisão dos irmãos foi unânime: “Vai o Zezé, que é mais ‘danado’”. Habilidoso e considerado letrado para a época, ganhou a confiança da população de Juara e três anos depois de desembarcar naquela cidade se elegeu prefeito pelo nanico PMN. Dispensa explicar quem é o Zezé.

União com Blairo Maggi

Riva assumiu a prefeitura de um lugar totalmente desconhecido até mesmo em Mato Grosso. Ele sabia que se não divulgasse Juara seu desenvolvimento seria lento e difícil. Como se fosse caixeiro-viajante percorreu o Paraná vendendo a boa imagem de sua nova terra. A política promocional apresentou bom resultado e em pouco tempo sua cidade ganhou título de realeza: virou Rainha do Café.

No começo de 1989 o mandato de Riva na prefeitura chegou ao fim. No ano seguinte, se lançou a deputado estadual sem apoio de caciques políticos, que não apostavam naquela aventura. A região de Juara tinha pequeno eleitorado e sua candidatura serviria apenas para somar voto à coligação de seu PMN.

Na eleição de 1990. Riva empatou em número de votos com Homero Pereira, do PRN coligado ao PMN. O desempate pela primeira suplência seria por idade. Homero era mais velho: nasceu em 25 de maio de 1955. Riva, nascido em 8 de abril de 1959 viu Homero assumir uma cadeira.

A imprensa sempre ao seu lado

A fase política adversa de Riva se estendeu a 1992, quando disputou e perdeu a eleição para prefeito de Juara. Nem mesmo a coleção de tropeços em pouco tempo o desanimou e, em 1994, estava novamente nos palanques pedindo apoio para deputado pelo PMN. Naquele ano conseguiu chegar à Assembleia, com 8.090 votos. Começava assim sua ligação umbilical com o parlamento mato-grossense.

Em 1998 Riva foi o candidato a deputado estadual mais votado, com 29.776 votos. Repetiu essa condição em 2002, com 65.389 votos; em 2006, com 82.799 votos; e em 2010, com 93.594 votos.

Nesse longo período na Assembleia trocou de partido algumas vezes: saiu do PMN para o PSDB, deste para o PP e liderou a criação do PSD em Mato Grosso.

No mesmo barco com Guilherme Maluf

Plenário sempre foi território estranho pra Riva. Desde sua posse em janeiro de 1995, por cinco vezes presidiu e por duas foi primeiro-secretário da Assembleia. Nesse período enfrentou contratempos. Na legislatura de 2007 a 2010 foi afastado da presidência e posteriormente teve o mandato cassado por decisão unânime do TRE por crime de compra de votos na eleição de 2006, no município de Santo Antônio de Leverger; Riva recorreu dessa decisão ao TSE e a reverteu. Cassado, foi candidato à reeleição em 2010 e, mesmo fora do poder, foi novamente campeão de votos ao cargo.

Riva foi o deputado mais atuante e o que mais apresentou projetos e indicações. À época, sua assessoria revelou que ele foi autor de 450 leis e indicações importantes.

Na legislatura de 2011 a 2014 Riva também foi afastado da presidência por decisão judicial. Primeiro foi mantido na função, mas impedido de administrar a Assembleia, e Romoaldo Júnior (PMDB) o substituiu. Depois foi destituído do cargo de presidente, mas conseguiu reverter a situação.

O chamego da filha herdeira política Janaína

O momento mais crítico de Riva aconteceu em 20 de maio de 201, quando foi preso em Cuiabá pela Polícia Federal, no desenrolar da 5ª fase da Operação Ararath, que apura desvio de dinheiro público e outros crimes Levado para a Penitenciária da Papuda, em Brasília, o deputado foi solto três dias depois. Tanto a prisão quanto a soltura foram autorizados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Riva protestou contra a prisão, que definiu como arbitrária. Ao decidir pela liberdade do parlamentar, Dias Toffoli admitiu que foi induzido pelo Ministério Público ao erro na decretação (da prisão), pois a papelada que chegou às suas mãos omitia o fato de Riva ser deputado e estar em pleno exercício do mandato.

Antes do indeferimento de sua candidatura Riva era endeusado por prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e políticos de modo geral nos municípios. Seu perfil parlamentar em algumas situações o fazia administrador informal, mas com muito poder. Se uma ponte quebrasse, o gabinete procurado seria o dele; se uma comunidade buscasse uma escola, seu porta-voz seria ele; não importava onde nem quando a barriga doesse, o que importava era saber que “o Riva” tinha solução pra tudo, ou quase isso. O endeusamento abria caminho para as grandes votações e seu poder que  fundia e confundia Assembleia e governo.

Impedido de disputar eleição em 2014. Acumulando várias prisões preventivas. Processado. Com várias condenações em primeira instância. Delator de dezenas de deputados estaduais e ex-deputados estaduais, de ex-governadores, de conselheiros do Tribunal de Contas do Estado e de empresários. Essa a imagem agora, do ex-mandachuva, um homem solitário, que insiste em não aceitar responder por crimes de outros, mas que assume os seus.

O reino político de Riva mas foi duramente atingido. Perdeu o poder. Seus irmãos Priminho e Paulo Rogério, que foram prefeitos em dois mandatos em Juara e Tabaporã – Priminho na primeira – estão no ostracismo. Resta a filha e deputada estadual, Janaína Riva Fagundes (MDB), que sempre está ao seu lado, mas que adota o nome parlamentar de JANAÍNA, sem alusão ao sobrenome que no passado era reverenciado. Janaína é reeleita e no pleito de 2018 alcançou a maior votação ao cargo.

Do lado oposto ao da lei, sem a corrente de sorrisos que o cercava, sem os aplausos que o embalavam, sem o microfone com o qual conduzia a Assembleia, sem a força do mandato e impedido de articular junto aos poderes, Riva é um homem na terceira idade, cidadão do povo, que escreveu o capítulo de maior dualidade na história política de Mato Grosso: com um lado positivo e outro negativo, mas que fora da família não encontra uma alma sequer com coragem pra dizer: eu também botei a mão na massa e participei daquele período. Foi exatamente esse quase reinado político que me levou a escrever no começo de 2016 o livro O ciclo de fogo – Biografia não autorizada de Riva.

Eduardo Gomes de Andrade – Editor de Boamidia

FOTOS:

!, 2, 3 , 4, 6 e 8 – Maurício Barbant

5 – Site público do Governo de Mato Grosso em arquivo

7 – Ronaldo Mazza – Site público da Assembleia Legislativa de Mato Grosso

9 –  Capa do livro; Édson Xavier

 

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