Eduardo Gomes lança livro sobre 44 anos de jornalismo em MT

Eduardo Gomes fala do lançamento do LIVRO 44, que documenta seus 44 anos de jornalismo e de reportagens em todos os rincões de Mato Grosso

EDUARDO GOMES – Precedido pelo título “Uma carona no espaço de tempo”, apresento o Preâmbulo do Livro 44 que estará nas bancas de revistas e livrarias, em Cuiabá, no dia 1º de dezembro deste ano. Aproveito para convidá-lo a ler a obra e peço que sugira sua leitura. A postagem fica restrita ao Preâmbulo e o conteúdo será exclusivamente impresso.

Uma carona no espaço de tempo

 

Duas fileiras de casas, algumas residenciais e outras de comércio; ao meio a BR-364, que não passa de uma trilha. Assim é a travessia de Alto Araguaia, na divisa com a siamesa Santa Rita do Araguaia, em Goiás. A cidade não se resume àquele corredor. Algumas vias transversais e paralelas compõem seu arruamento. As duas cidades, bem parecidas, e entre elas o rio Araguaia, que naquele trecho é pouco mais que um ribeirão atrevido por sua correnteza; a diferença fica por conta do fuso horário, registrando uma hora a menos do lado mato-grossense em relação ao goiano, pois esse adota a hora de Brasília. O calendário marca 10 de maio de 1970. Transcorridos 44 anos do meu primeiro contato com Mato Grosso, lanço este livro, cujo título pega carona no espaço de tempo que aqui vivo.

A CHEGADA – Cuiabá está a 410 quilômetros à frente, mas o destino é Paraíso do Leste, no município de Poxoréu, perto de Rondonópolis, a cidade que é o ponto equidistante entre a divisa com Goiás e a capital mato-grossense. A próxima parada seria em Alto Garças, mas o sol se põe e a prudência manda que se pouse em Alto Araguaia, não por riscos de assaltos, porque a região é pacata, mas para evitar os imprevistos da noite.

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Pela manhã, no dia 11, depois de um café corajoso – aquele que vem sozinho –, chega o momento de pegar a estrada que a cada curva me bota mais e mais distante de Alpercata, nos cafundós do leste de Minas Gerais banhado pelo rio Doce, que foi meu ponto de partida.

A 364 mistura trechos encascalhados com areões. Na direção oposta, em Goiás, o trajeto é semelhante. Seriemas desengonçadas cruzam a estrada em rápidas passadas ora com uma ora com outra asa tocando a areia. Araras azuis e papagaios voam em grupos enquanto pequenos pássaros fazem revoadas. Nos poucos veículos que trafegam em direção contrária se vê o polegar direito do motorista fixo no para-brisas, pra protegê-lo das pedras que costumam ser atiradas acidentalmente pelos pneus do carro que avança em sentido oposto.

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Pelo caminho pensões e restaurantes atendem os motoristas. O Restaurante Nininha, no município de Alto Garças, ficou famoso e depois com a mudança do trajeto da rodovia ganhou novo endereço: em Boa Vista, vila distante 30 quilômetros de Rondonópolis rumo a Cuiabá.

 

Depois de cinco horas de viagem num rasgo pelo cerrado, surge Rondonópolis, cidade pequena, empoeirada, mas com sinais de crescimento que podem ser vistos até pelo mais cético ou pessimista. O caminho para Poxoréu é a MT-130, acidentada e pouco movimentada. Esse trajeto é descartado, pois a ponte de madeira sobre o rio Poxoréu, na cidade do mesmo nome, ameaça cair. A alternativa é mudar a rota para Jarudore e dali prosseguir para Paraíso do Leste sem o risco de atravessar a tal ponte.

 

Finalmente Paraíso do Leste e a acolhida fraternal do agricultor mineiro de origem italiana José Nalon, amigo de velha data de minha família e ex-morador no município de Alpercata. Nalon veio para Mato Grosso em 1966 e foi pioneiro na fumicultura mato-grossense.

 

Em Paraíso do Leste sinto que meu lugar é Mato Grosso, esta terra que se estende de Rondônia, Amazonas e Pará ao Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás, à Bolívia a oeste e ao Paraguai ao sul. É uma vastidão sem fim e carente de tudo, mas com um quê de fascínio, como se fosse ímã. Gosto do que vejo, do cheiro do lugar, do céu azul como em nenhum outro canto se vê. Há um mundo a ser conquistado e ele está aqui. Não custa tentar, ainda mais quando se pressente que o ambiente pode ser cúmplice nessa aventura. Se a conquista será ou não alcançada, é outra história. O que conta é vivê-la neste cenário que se não houvesse teria que ser inventado.

Após a acolhida por Nalon, bastou providenciar a mudança para Rondonópolis e iniciar a mais longa caminhada de minha vida, que agora completa 44 anos e somente Deus sabe até quando prosseguirá. A mudança somente aconteceria em 1973, mas no período fiquei a maior do tempo em Mato Grosso, com uma curta ausência para participar da disputa eleitoral em 1972, ano em que fui eleito vereador pela legenda da Aliança Renovadora Nacional (Arena) no município de Alpercata, pela generosidade de seu povo. Não exerci o mandato por razões que não se inserem ao contexto do livro, mas tenho a honra de manter na moldura em meu escritório o Diploma de Vereador assinado por uma das figuras mais honradas da magistratura mineira em todos os tempos, o saudoso juiz da 54ª Zona Eleitoral de Governador Valadares, doutor Joaquim de Assis Martins Costa. Ao optar por permanecer na minha nova terra, deixei vaga a cadeira na Câmara. Fui substituído pelo suplente Adelino Guilherme de Medeiros, o Delico, que não está mais entre vós.

A trajetória, onde fui espectador dos fatos ao longo desse período, é o tema deste livro, no qual conto que virei e revirei Mato Grosso pelo avesso atrás da notícia, em busca dos fatos.

O TRABALHO – Estive em todos os municípios, todas as cidades, todos os distritos, todas as vilas, palmilhei todos os caminhos. Conheci o esplendor da Rua Bahia em Poxoréu no ciclo do diamante. Brindei à criação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) pelo presidente Emílio Garrastazu Médici e à nomeação do seu primeiro reitor, o médico cuiabano Gabriel Novis Neves, que empresta seu nome ao campus principal, em Cuiabá. No auge do garimpo do ouro no Nortão, no Clube Maranhense, em Peixoto de Azevedo, respirei a fumaça dos cigarros no ambiente enquanto Nalva Aguiar soltava a voz.

Percorri a BR-163 nos rastros dos tratores que a abriam sob as ordens do comandante do 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC), coronel José Meirelles, e sobrevoei o Pantanal nas águas altas e baixas. Vibrei com a ligação de Cuiabá por asfalto com o Centro-Sul e o bicentenário de Cáceres. Nadei em rios. No episódio da divisão territorial a TV me mostrou o governador biônico Garcia Neto numa coletiva no aeroporto em Várzea Grande dizer que vestia a camisa do presidente Ernesto Geisel; essa camisa era a bandeira da divisão territorial pela criação de Mato Grosso do Sul. Milhares de mãos se elevando ao céu e de joelhos dobrados defronte o altar onde o papa João Paulo II celebrava missa em Cuiabá me mostraram a fé católica. Escutei o som do saxofone do maestro Marinho Franco, da sanfona de Lídio Magalhães e a música do trio Pescuma, Henrique & Claudinho.

Admirei a obra do colonizador e pastor luterano Norberto Schwantes no Araguaia e no Nortão. Supliquei a Deus pelas vítimas da malária, que eram atendidas em Matupá pelo anjo que respondia pelo nome de Irmã Maria Adelis. Em Rondonópolis respeitei o trabalho humanitário do padre Lothar Bauchrowitz construindo casas e mantendo creches; e de irmã Luiza de Souza percorrendo ruas e lojas vendendo balas de gengibre em busca de dinheiro para atender mulheres e crianças. Cobri em ambos os lados da divisa a demanda com o Pará pela área do contestado entre os dois estados. Pisei no solo de cidades que acabavam de brotar no vazio demográfico. Presenciei o cerrado virar celeiro de produção, com o plantio pioneiro de soja do produtor Adão Mariano Salles Riograndino; com as pesquisas do algodão patrocinadas por Olacyr de Moraes, que resultaram no cultivar de algodão ITA-90; com a ousadia de Munefume Matsubara ao plantar soja abaixo do Paralelo 13; com o surgimento da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT); com a importante participação do reprodutor Panagpur, do criador Antônio Luiz de Castro, para a melhoria racial do nelore brasileiro; e a pecuária no Megaleilão do empresário Maurício Tonhá, em Água Boa, mostrar sua força ao mundo.

Testemunhei o União Esporte Clube nascer e Colniza dizer “não” ao primeiro plebiscito para emancipá-la. Visitei na fazenda Aliança, em Pedra Preta, a primeira área invadida pelo MST na Terra de Rondon. Fiz reportagens no local da queda do Boeing da Gol, que fazia o voo 1907 e se chocou com um jato executivo Legacy; e pisei no chão ao lado dos destroços do avião da Varig que errou a rota de Marabá para Belém e pousou de barriga na floresta em São José do Xingu. Percebi o medo dos moradores de Campinápolis depois que índios xavantes a invadiram e cometeram uma chacina. Acompanhei o drama dos atingidos pela grande enchente de 1974, que inundou Cuiabá e transbordou o Pantanal. Naveguei pelo Paraguai e Juruena.

Conheci aldeias e aplaudi o Kuarup. Tamborilei os dedos ao som do conjunto Aurora do Quariterê, de Vila Bela da Santíssima Trindade, na apresentação da Dança do Chorado. Tive contato com o Curussé, em Porto Esperidião. Escutei o apito do trem chegando a Alto Taquari, Alto Araguaia, Itiquira e Rondonópolis. Senti o calor do fogaréu que devorou mais de uma centena de casas e estabelecimentos madeireiros em Marcelândia. Ouvi moradores de Nova Brasilândia sobre um suposto acidente com um OVNI naquela região. Escrevi sobre o surgimento da agroindústria e de fábricas iguais à Cervejaria Petrópolis, que envasa a Cerveja Crystal. O chão tremeu sob meus pés em Porto dos Gaúchos, num dos abalos sísmicos comuns naquela área. Entristeci-me com a demolição da vila Estrela do Araguaia e a retirada dos seus moradores e da zona rural da antiga Fazenda do Papa, no Araguaia, que virou terra indígena Marãiwatsédé; roguei a Deus para livrar Jarudore do mesmo destino. Juntei o meu grito ao barulho das torcidas nos jogos da Copa do Mundo na Arena Pantanal.

Cruzei os viadutos construídos em Cuiabá e Várzea Grande como parte da mobilidade urbana para o Mundial da Fifa e a preparação da capital para o tricentenário em 2019. Vi coisas do arco da velha e de que até Deus duvida. No dia a dia, enquanto o tempo passava inexorável, o cabelo caía e o restante embranquecia, enquanto a face moldava as rugas da idade, acumulei informações e um banco de dados do qual muito me orgulho, pois ele não está nos arquivos de computadores nem nas estantes, mas na memória, e o que é melhor: com boa parte no meu coração.

Por se tratar de obra escrita por jornalista, não poderia faltar no Livro 44 reproduções de textos do autor sobre os pilares que, acredito, foram decisivos para o desenvolvimento mato-grossense e criaram as bases para o grande salto que fará desta terra o Estado com a economia mais diversificada do Brasil, mais próspero, melhor para se viver e com uma infraestrutura em suas matrizes de transporte compatível com as demandas decorrentes de sua localização geográfica no centro do continente.

Os pilares são cinco, suas abordagens não levam em conta eventual prevalência de um sobre outro e não há engessamento cronológico. Creio que direta e indiretamente tudo em Mato Grosso tem a ver com o setor mineral, a divisão territorial, o agronegócio, o transporte e Cuiabá.

Porém, no contexto do otimismo há uma barreira poderosa, manuseada fora de Mato Grosso e até mesmo do Brasil: a política de expansão das terras indígenas, que em nome da independência do país é executada pela Funai com suporte do Ministério Público Federal, Ibama, Incra e poderosas ONGs, mas que na verdade representa os interesses de americanos, ingleses e outros povos feudais. Não ficaria claro ao leitor se escrevesse somente sobre os avanços e as perspectivas de se avançar ainda mais se não mostrasse o monstro quase sempre invisível, incolor e inodoro que se move sem cessar nas entranhas do poder para fragmentar não somente Mato Grosso mas a Amazônia em nações indígenas soberanas perante a ONU, para minar este que ainda é o grande país do hemisfério sul e que atende pelo nome de Brasil.

Alguns fatos narrados tiveram início antes de 1970 e prosseguiram após esse marco temporal; nesses casos, o livro retroage para facilitar o entendimento com sua contextualização.

Os protagonistas são figuras que influenciaram nas transformações ocorridas no espaço de tempo focalizado. Mesmo em se tratando de obra sem cunho biográfico, aproveito para dizer que  adotei Mato Grosso e o faço minha terra, mas sem renunciar à minha mineirice de meu berço em Barra do Cuieté, no município de Conselheiro Pena, quase ao lado do Espírito Santo; essa adoção é recíproca e posso senti-la. Neste chão, com as bênçãos de Deus, nasceram em Rondonópolis meus filhos Agenor e Luiz Eduardo e em Cuiabá minha neta Ana Júlia. Aqui, a terra se abriu em Marcelândia para receber o corpo de minha mãe Alzira, a dona Filhinha, que foi luz em minha vida. Aqui arranco o sustento de minha família com meu trabalho, sem nunca reclamar e sempre agradecido pela força que me move aos 64 anos.

Para oficializar a relação da Terra de Rondon comigo, a Assembleia Legislativa concedeu-me o Título de Cidadão Mato-grossense em 30 de novembro de 2005, por iniciativa do então deputado estadual Ságuas Moraes (PT), a quem torno público meu sincero agradecimento. Além de mato-grossense de direito, também sou Cidadão Rondonopolitano por outorga da Câmara dos Vereadores em 5 de dezembro de 1997, por uma propositura de José Carlos Junqueira de Araújo, o Zé do Pátio (à época PMDB e agora deputado estadual pelo SD), a quem externo meus agradecimentos.

Tento botar no papel o que vi ao longo desse período, concentrando-me, do ponto de vista geográfico, exclusivamente na área remanescente à divisão territorial para a criação de Mato Grosso do Sul. O conteúdo desta publicação não tem pretensão estatística nem a ousadia de se apresentar como registro histórico. Tratam-se apenas de anotações de um repórter sem convívio social com a elite e afastado das fontes do poder em sua amplitude. Com a bênção de Deus, buscando sempre a verdade, o Livro 44 sai do sonho e ganha a realidade gráfica. Aos que contribuíram para sua publicação, meus agradecimentos.

Boa leitura,
Cuiabá, 2014

Eduardo Gomes de Andrade

 

 

Restaurante Nininha (boxe)

A goiana Arlinda Marques Camargo, mais conhecida por dona Nininha, montou um restaurante com seu nome, à margem do antigo traçado da BR-364, distante 42 quilômetros de Alto Garças, no sentido Rondonópolis. O estabelecimento foi o meio por ela encontrado para tratar da família, uma vez que seu marido, o garimpeiro Pedro Bueno de Camargo, a deixou.

O restaurante manteve as portas abertas ao lado da 364 empoeirada até que em 1972 ocorreu a mudança do traçado –com a pavimentação – para a Serra da Petrovina. Sem a freguesia que garantia o ganha-pão, imediatamente dona Nininha encontrou novo endereço: à margem da mesma rodovia, na vila Boa Vista, município de Rondonópolis e distante 30 quilômetros daquela cidade no sentido norte.

Depois de uma luta dolorosa contra um câncer no fígado, em 4 de outubro de 2009 dona Nininha fechou os olhos para sempre, enquanto recebia tratamento na Santa Casa de Misericórdia de Rondonópolis e levou para o túmulo a data da inauguração de seu restaurante no antigo endereço, que somente ela sabia.

Dona Nilza Camargo, filha de dona Nininha, agora é quem cuida do tempero da comida caseira e de atender a freguesia, formada por antigos clientes, mas nenhum do tempo do velho endereço. O Restaurante Nininha é um dos poucos personagens remanescentes da antiga 364 sem pavimentação e agora em processo de duplicação no trecho de Rondonópolis a Posto Gil (de Diamantino).

Estabelecimento modesto à margem da rodovia com o maior fluxo de cargas agrícolas do Brasil, o Restaurante Nininha sobrevive apesar da concorrência predadora de grandes churrascarias, porque carreteiro que é carreteiro sabe muito bem que refeição gostosa e barata fica por conta da comida caseira e, na arte de cozinhar, dona Nilza herdou a competência da mãe.

3 Comentários

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  1. - IP 189.59.51.31 - Responder

    Bom dia Eduardo. Gostaríamos que muitos pessoas que se foram nesses 44 anos estivessem presentes nessa festa do jornalismo e da história recente do nosso Mato Grosso.

    Parabéns, Brigadeiro.

    Divino.

  2. - IP 177.65.146.3 - Responder

    pelo que conta, uma bonita carreira. fiquei curiosa, querendo ler este livro

  3. - IP 200.101.24.247 - Responder

    Prezado Brigadeiro,

    Leitor voraz dos seus textos, ora lembranças de uma Jackeline Bisset pelas ruas poeirentas da Rondonópolis dos anos 1970, ora o perfil de um Zacarias Mourão, vez por outra (um tanto raramente, é verdade…) somos surpreendidos com mais uma produção da sua lavra. Reservo desde já o meu exemplar do “44”. Grande Abraço, Boleslau Dorada.

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