EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JR, filósofo cuiabano, apresenta suas primeiras anotações sobre o 15 DE MARÇO: “Continuidade do junho de 2013, este março de 2015 foi diferente. Não há a menor possibilidade de golpe militar. O que fariam os milicos com este país em estado de insolvência? Não creio em crise orgânica. Até porque não há uma unidade de forças eficazes para reorganizar um novo bloco de poder. Mas o desafio ainda mais hercúleo está nas mãos dos herdeiros do junho de 2013”

 

fora dilmaO 15 de Março: marola ou crise orgânica?

Por Edmundo Lima de Arruda Jr
Eu estava lá. São Paulo. Dia 15 de março de 2015. Estava lá no Rio e SP na luta por diretas já. Também estava lá no fora Collor.

Continuidade do junho de 2013 este março de 2015 foi diferente. Não vou entrar nas armadilhas das estatísticas. A PM estimou mais de um milhão. A Folha de SP calculou 210 mil. Reflito sobre alguns elementos que o Movimento nacional apresenta.

O chamamento virtual das redes é a continuidade do junho de 2013. Lá havia a questão do passe de transporte, agregando-se a essa insatisfação com os preços, as lutas por saúde, educação, segurança.

No dia 15 de março, o ” fora Dilma” foi o que mais aglutinou pessoas.

Por certo que esse povo nas ruas constituem o heterogêneo. Há de fato eleitores de Aécio. Por certo há uma direita de sempre postulando o impeachment e mesmo um golpe militar.

Mas o que parece forte nesse movimento é uma revolta contra os escândalos na Petrobras. O caso de polícia abarca políticos de todos os partidos. Os eleitores que não votaram em Dilma parecem não esquecer que a corrupção é endêmica e constitui tanto a ossatura do Estado quanto as entranhas da sociedade.

Mas há uma fadiga com as figuras do governo, petistas com maior força. Afinal o PT sempre posou de paladino da moralidade. Setores d’antes encantados com Lula no poder vão caindo na real. Muitos ainda não acreditam que Lulinha esteja milionário. Outros já não têm mais duvidas.

O desgaste institucional é evidente e registra uma crise política e moral. Essa crise se reforça no contexto da dificuldades do país em face da crise global.

O governo na sua ala mais autista insiste na tese da desqualificação. O março de 2015 não passou de uma firula oposicionista. Rosseto considera o Movimento reacionário. Cardozo admite alguma legitimidade das reivindicações mas adverte que movimentos devem ser ordeiros. A presidente culpa a crise internacional e afirma ser a corrupção uma realidade antiga. Agrega o discurso esperto segundo o qual hoje as notícias crimes progridem geometricamente graças à democracia.
O argumento da democracia permitir mais transparência é verdadeiro tanto quanto ao dia que apontam o volume astronômico dos roubos na Petrobras, perto dos 300 bilhões de dólares.

Não há a menor possibilidade de golpe militar. O que fariam os milicos com este país em estado de insolvência? Aécio agradece a sorte de não ter sido eleito. As metralhadoras da oposição e das más tradições se voltariam contra ele. Quanto à direita estilo “punks da periferia” e outros no estilo neonazistas não tiveram força para fixar alguma pauta capaz de provocar mudanças.

O governo se apressou em apresentar medidas anti-corrupção. O PMDB se divide entre os que distinguem o peso das denúncias sobre os presidentes da Câmara Federal e Senado. Michel Temer articula um golpe branco.

Nada legítima o impedimento da presidenta Dilma Roussef. Mas tudo legítima a conduta do Procurador Geral da Republica. A reação do presidente da Câmara Federal em relação ao procurador Janot foi algo anti-republicano e somente guarda sentido se pensarmos que o rombo é muito maior. Chegou a afirmar que há corrupção somente no Executivo, não no Legislativo. Este estaria imunizado e ungido por algum poder sobrenatural. Visão cega aquela que considere fora das leis patrimonialistas que povoam nossos parcos espaços públicos.

Quanto aos militantes petistas, a confusão é evidente. Uma parte agregada por compadrios da rede política, sindical, reproduz o status quo por necessidade e gratidão. Alguns por medo de perder benefícios adquiridos por força dos governos populares. Outros ideologizam o apoio a Dilma por não abrir mão em face dos ataques da direita. Para eles os camaradas e companheiros do PT acusados ou condenados são injustiçados, no máximo uma minoria a ser processada. O cinismo de Rui Falcão em defesa do Vacarezza e outros é um exemplo de postura desesperada e irracional.

Do meu ponto de vista este março de 2015 pode trazer mais benefícios se continuarmos a luta pela democracia centrados no mote da transparência, da punição da corrupção, seja de qual partido for. Eu diria mais, gramscianamente, o PT deveria ser o maior interessado em investigar e punir os seus maus quadros. Isso é possível?

Sinceramente, com o comprometimento da alta cúpula do PT nos escândalos em todos os escândalos, não creio. Somente com uma movimentação virtual e nas ruas, centrada no basta ao roubo, poderemos tocar militantes do PT não cooperados pelo sistema, financeiramente ou por antolhos ideológicos. Somente como o povo na rua setores decentes e progressistas afinados ou não com outros partidos, poderão ir desconstruindo antigos compromissos, cimentando outras costuras e atitudes em relação ao futuro do país.

A classe política não têm por ela mesma a capacidade de fixar novos parâmetros de aperfeiçoamento institucional. Políticos no nível de Cristóvão Buarque não são sequer ouvidos seriamente. Um sintoma de uma crise na direção de um baque no bloco histórico.

Não creio em crise orgânica. Até porque não há uma unidade de forças eficazes para reorganizar um novo bloco de poder. O governo terá que se reinventar. Isso não poderá ser uma mera maquiagem. Terá que apoiar a luta contra a impunidade doa a quem doer. Terá que superar os conchavos corporativos entre partidos grandes e nanicos. Sobretudo, deverá ouvir o clamor das ruas, nele filtrando o que é recorrente e o que é novo, o que é estrutural, conjuntural e residual, frágeis transformismos, encaminhando medidas valorizadoras das instituições.

A tarefa é árdua no planalto do governo. A insistência em alguns erros na política externa, para dizer pouco, aqueles que valorizam mais Maduro que Obama…deverão ser corrigidos. O Mercosul deverá ser redefinido, assumindo sua inoperacionalidade. Mesmo a presença nos BRICS deve superar os perigos de considerá-los países do Sul, quando são mais e mais amarrados ao Norte.

Mas o desafio ainda mais hercúleo está nas mãos dos herdeiros do junho de 2013. Eles deverão criar construtivas redes de critica e encaminhá-las às ruas. A fragmentação das pautas é evidente em face da heterogeneidade social. As pautas que aglutinam não são ideológicas num primeiro momento. Todos querem direitos fundamentais, saúde, educação, segurança, mobilidade urbana, trabalho, entre outros. Considero que devemos, sim, pensar utopias mas isso somente se fará de maneira mais efetiva se o povo galgar outro patamar de modernidade jurídica e política.

 

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edmundo-arruda-jr

Edmundo Lima de Arruda Júnior, cuiabano, possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1978), Mestrado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (1981) e Doutorado em Sociologia – Université Catholique de Louvain (1991), Pós-Doutorado em Sociologia Política na Universitè Paris 8 Saint Denis (1996), Pós-Doutorado em Sociologia na Universitè Paris X Nanterre (2009). Atualmente é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, presidente honorífico do CESUSC, membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros, coordenador geral do Instituto de Estudos e Pesquisas e presidente do Instituto de Pesquisas Jurídicas. 

 

INTERVENÇAO MILITAR JÁ MANIFESTAÇÃO 15 MARÇO

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