EDMUNDO ARRUDA JR: Para defensores ultraliberais a China é o exemplo do capitalismo-genérico contra o capitalismo-original

Edmundo, Xi Jinping e Mao

China: qual diplomacia!*

POR EDMUNDO ARRUDA JR

Parece claro para a China e vai acabar ficando “óbvio” para a esquerda tradicional (aquela que considera a democracia como propriedade privada da burguesia) que o modelo ocidental já não serve a país algum e a polarização EUA/China exigirá, mais dia menos dia, uma escolha por parte tanto dos setores “progressistas” da esquerda tradicionalista quanto dos democratas em geral.

Sendo a democracia ocidental, universalista, é muito onerosa e pouco eficiente. Neoliberais e chineses pensam igual nesse aspecto. Eis a “oportunidade” histórica para alinhar-se com a China? Essa a tendência. Questão de tempo. Bolsonaro escolheu o seu imperialismo. Temos que escolher o nosso?

No Brasil é de se esperar surpresas de todos os lados. Bolsonaro e Trump não têm garantidas suas reeleições. Perdendo ambos a tese deste artigo ganha plausibilidade. Ganhando, idem. Sinuca de bico nas duas alternativas.

Um retorno ao maoismo do atual presidente vitalício da China, Xi Jinping, pode ressonar entre nós. É retórico. Ninguém acredita que a China seja comunista, somente o astrólogo aposentado Olavo de Carvalho e alguns neoliberais ingênuos. Que retorno é possível conjugando tragédia e comédia?

O PC do B, no exemplo mais exagerado, pode se reencontrar com uma de suas fases metamórficas. Esse partido revelou sua pusilanimidade insuperável há algum tempo, solidarizando-se ao ditador da Coréia do Norte quando das ameaças de Trump de varrer aquele país do mapa. Mais o problema é maior que o PC do B. Ademais, Trump soube colocar no seu devido lugar o ditador Kim Jon-Un.

Há um certo pluralismo na marmita marxista-leninista. Ele se encontra na cena da guinada hegemônica planetária. Frei Betto, Chico Buarque, Fernando Morais entre tantos intelectuais continuam louvando Cuba… a eles agrega-se um leque de substratos inferiores (no padrão de um crescente número de “artistas” da Globo) em defesa do que tomam eticamente como politicamente correto. Falam pouco sobre o que acontece na China.

Mas há os estrategetas globais de uma geopolítica na qual o Capital tenderá à sua homeostase nas finanças e na (re) produção, controlando crises e o suicídio do mercado mundial. Para os socialistas e democratas também desdobram-se diversas visões (neo-stalinistas, liberais/gramscianas, anarco-capitalistas, garantistas-tardios,etc). O sincretismo ideológico é segredo do ornitorrinco. Volto ao efeito chinês do capitacomunismo.

Atualiza-se desta forma (sob a emergência da China) o centralismo partidário (burocrático), dinamizado pelo mercado-controlado sob o rigor da hierarquia decisional do partido único. Esse centralismo não inviabiliza uma legitimação por representação. A lógica é outra. Na legitimação senão pelo procedimento, ao menos em respeito absoluto a um pragmatismo acumulativo sem precedentes. Marx fixaria chocado com o nível da mais valia na China. Reescreveria o Capital e passaria, talvez, a colocar em dúvida a “ditadura do proletariado”.

Além disso, o centralismo melhor harmoniza “tradição”, “poder” e “riqueza”. Lembrem-se. Mao Tse Tubg levou em consideração os mais de cinco mil anos da história chinesa. Ai de quem moderniza sem levar em conta costumes, religião e cultura milenária de um povo.

Atualmente, algumas empresas chinesas somente aceitam alguns contratos no exterior, se o trabalho for realizado por chineses, vez que entendem que os ocidentais são pouco disciplinados e pouco produtivos. Chineses compram e vão continuar a comprar portos e aeroportos em todo o mundo. Neles vão circular em outro ritmo mercadorias. Entre elas, chineses. Milhões de soldados disciplinados para produzir em tempo recorde.

Lenin amava Taylor e a administração científica… O ethos dos chineses na produção obedece a outro espírito do capitalismo. Aquele no qual Calvino é substituído pela predestinação no avesso: todos são escolhidos para o novo reino mundial em outro patamar acumulativo. Aos não escolhidos restará o inferno demasiadamente humano, na terra, na periferia dos serviços ou como parte de um exército de reserva faminto.

A China não parece querer exportar sua cultura, muito menos perder tempo com cultura não-chinesa. A hegemonia em curso não é cultural, mas comercial, prática. O novo império chinês será proporcional a essa capacidade de convivência cosmopolita.

A moeda é a única realidade universal. Chineses perdoam até os japoneses, que os trucidaram entre 1937 e 1945. A China quer novas rotas da seda e fluxos contínuos de mercadorias. Não há competição possível no padrão produtivo chinês. A expansão chinesa na região faz-se contra as restrições das normas de comércio internacional. Jamais países irmanados (Vietnan, Cambodja, indonésia, etc) tiveram “exportações” tão espetaculares. Esses países ajudam a China a dissimular o dumping.

Nem entro nos efeitos bombásticos da dominação chinesa em áreas mais delicadas nos termos religiosos (sobretudo em face do islamismo). Eles são uma incógnita.

A questão hoje é mais prática: poder e riqueza. Inclusive, a China nem parecer querer impor um novo padrão de moeda (Yuan), desde que o padrão dominante (Dolar) seja conveniente ao seu modus operandi. A compra de títulos da dívida de muitos países (inclusive da norte-americana) é parte da estratégia geral dos chineses para preparar o caminho do xeque mate…

Realmente, a liderança chinesa será uma bala de prata no coração ocidental. Por isso, coerente o discurso de Trump, ao dizer que a China atinge os valores americanos. Bolsonaro, que não é tão tosco como pensam seus críticos, seguiu o “grande irmão”.

Por outro lado, dentro da Europa, começa a autofagia, as divisões que explicitam a fragilidade e os constrangimentos de um bloco em franca decomposição (comunidade européia e os que pertencem à zona do euro).

Forças e governos de extrema direita em ascensão no solo europeu terão pela frente uma tensa situação política entre a espada e a cruz. A guerra comercial EUA/China atravessará as vidas cotidianas de todos aqueles países do velho mundo, ao estabelecer um pêndulo no qual a escolha por democracia sem direito (China) ou direito sem democracia (governos neoliberais) será determinante.

E nós no Brasil? Um nós mais amplo que defensores do bolsonarismo ou do lulopetismo? Um nós composto de democratas, liberais e/ou de esquerda? Um nós conscientes da loucura social e dos desafios nas próximas duas ou três décadas? O que queremos para os nossos filhos?

Esse nós deve estar preparado para evitar a repetição histórica e a afirmar uma dupla diplomacia: a) a que retome a herança de Rio Branco e o exercício da tolerância nas práticas internacionais; b) a que incremente capacidade de reinventar a política nacional, reconstruindo as instituições com reformas absolutamente fundamentais para salvar a democracia.

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* Edmundo Lima de Arruda Jr é sociólogo e professor titular aposentado da UFSC

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