EDMUNDO ARRUDA JR: Já não há mais norte e sul. Centro e periferia. Há miséria e violência por todos os lados

Edmundo

George Floyd e Miguel Otavio Santana: duas desigualdades, dois crimes!

POR EDMUNDO ARRUDA JR

Não é à toa que a direita (cada vez mais à direita) alimenta-se e justifique-se em suas visões de mundo acirradas no bojo do pandemônio/pandemia, apelando para o bode expiatório do que representa ser a quebra de sua paz.

A atualização do bode expiatório dá-se como postura ante o duplo risco para a presumível segurança perdida: o dos imigrantes (“invasores” de sua pátria) e dos setores mais vulneráveis, negros e latinos que apavoram aos mais aquinhoados com o aumento da criminalidade a eles imputada.

Trata-se de uma passo a mais na trilha em curso da regressão (instintiva) sob bandeira de brancos mas também de negros, amarelos, latinos, de todos os segmentos sociais integrados diferenciadamente ao sistema social. Eles se identificam em face das ameaças externas e internas do que tomam por ordem democrática em perigo e a seus status e distinções.

Elites, classes médias abastadas e trabalhadores inseridos no segmentado mercado, pequenos e médios empresários buscam manter o que possuem e lhes parece escapar do controle nesse tempo de desinstitucionalização generalizada.

Tempo de pandemomias instigam medo, inseguranças, pavor e congestionamento reflexivo. Todo animal mamífero oferece a mesma resposta quando pressente seu ambiente de reprodução abalado. Tornam-se belicosos full time. E quanto maior a sensação de insegurança maior o deslocamento do racional para o irracional.

O fenômeno é conhecido como paralisia cognitiva. Freud a estudou como fenôneno traumático de guerras. Hoje na política adversários são inimigos, um alvo a ser exterminado. Vale pra todos. Bolsonaristas querem caçar esquerdistas e estes reagem no mesmo sentido. Ressentimentos acumulados e dissimulados em retóricas políticas abrem espaços para o ódio e ações de confronto físico.

Pois bem, o caso de George Floyd é uma repetição da morte de negros por parte da polícia nos EUA, um país com quase três milhões de encarcerados que ainda executa condenados na cadeira elétrica, em fuzilamentos, forca ou injeções letais.

Martin Luther King ajudou os afro -descendentes a galgar direitos civis. Década de sessenta. Guerra fria. Necessidade de inclusão=legitimação da “sociedade livre”. Agora em pleno século XXI, desde Reagan o establishement apostou no identitarismo, no multicultural, na ênfase pluralista dos novos movimentos sociais.

Depois de 1989, com o fim dos socialismos reais esgotou-se a prioridade do compromisso do Capital com políticas contra as desigualdades. O declínio das democracias segue esse percurso histórico.

O neoliberalismo é a face mais visível desse mundo bárbaro depois da revelação dos absurdos comunistas. A forma hegemônica de globalização é parte desse processo social.

A fragmentação explicitada em saudáveis reconhecimentos (gênero, com ênfase) é parte da luta jurídica por discriminação positiva. A desilusão com os grandes discursos salvacionistas redefinem as lutas para outras dimensões da subjetividade. Mas essa tendência também carrega a fragmentação na unidade postulada e já esgarçada das velhas formas de organização das classes trabalhadoras,

Enfim, o avanço do mercado seletivo, volátil, predador atravessou a luta de classes tanto no seio do Capital quanto no conjunto das demandas de trabalhadores.

Por outro lado hoje vivenciamos uma autofagia na qual o capital financeiro mata e engole vários outros capitais (e mercados produtivos). Tudo isso deve ser considerado para os casos reveladores George/Miguel. Velhos e novos conflitos os cercam.

No triste acontecimento vitimizando o menino de cinco anos no RJ temos outro evento revelador e confluente desses contextos que a todos aliena. O das violências explícitas (genocídio de jovens miseráveis, negros e pardos) e dissimuladas. Aquela possibilita a tragédia produzida por uma sucessão de “fatos diversos” que ampliam a patologia da modernidade.

A mãe de Miguel Otávio de Santana, Mirtes, é doméstica, tinha o salário pago pela prefeitura cujo prefeito é o dono do apartamento de luxo na praia onde o crime ocorreu. A empregada teve que levar o filho para a casa da patroa, por falta de educação infantil disponível (devido a proibição de funcionamento de escolas na pandemia); cuidava dos cachorros da empregadora, confiando seu filho único aos olhares daquela; a senhora branca permite ao menino deslocar-se de elevador, sabe-se se para brincar ou por vontade da dona do imóvel em manter Miguel fora do apartamento (isso nunca saberemos). Por fim, o garoto se perde no labirinto do espigão de luxo e “faz arte” encontrando a morte com a queda do nono andar.

No caso de George temos o racismo presente no Estado. No caso de Miguel, o “discreto desdém das elites” latinas pelos trabalhadores naturalizados em sua subalternidade na vida privada. Afinal, ser preto significa em boa medida ser pobre, carente, portanto, sujeito à contratos indignos e imorais de trabalho, no caso, sobretudo, sujeitos a um descaso como ser humano não merecedor de cuidados mínimos, caso evidente das crianças.

Nos EUA e no Brasil, em Paris ou em Buenos Aires o ultraliberalismo enfrenta a pandemia e busca novas formas de controle. Se o neoliberalismo trepidava, agora busca reinventar-se. Gastos sociais são necessários. Não há estado mínimo, mas máximo, do Capital. O capital fictício – sem lastro, fiat money chegou ao fim. Este o grande sinal da barbárie.

Mas a sinuca é de bico. No quadro pós-pandemia nada tende a reconfigurar o mundo para melhor. Violência à vista na disputa entre hegemonias decadente e ascendente.

A China eleva-se como um capitacomunismo capaz de mostrar ao mundo que crescimento não precisa de democracia liberal. Pelo contrário, esta só atrapalha uma economia eficaz. A mais valia na China faria corar Marx… Enquanto uma revolução francesa não ocorrer naquela potência oriental temos que continuar a apostar num garantismo jurídico que nada garante porque desprovido de condição de possibilidade eficacial: uma cultura democrática e uma crença na democratização. E, o que é mais importante que ideias, temos que apostar em ações contra todas as formas de desigualdade.

Não há massas nas ruas mas pífias manifestações contra ou em favor de Bolsonaro, sob surpreendente e covarde “isenção” de Lula e das esquerdas tradicionais.

Os EUA vão resistir ao ascenso do Império Chinês e neste não há direitos humanos. A China desconhece o devido processo legal. Melhor, o tornaram mínimo no direito pensl. Bastam 30 a 60 dias para julgar e condenar à morte dez mil pessoas por ano.

Nos EUA a resistência ao crime em Minesotta pode gerar dividendos nas eleições de novembro. Se Trump perder e Bolsonaro sucumbir, ainda resta reverter toda uma Europa em franco ritmo de barbárie.

Já não há mais norte e sul. Centro e periferia. Há miséria e violência por todos os lados e ilhas de contra-poder. A geografia da violência e das exclusões já não tem a exclusividade da cor negra mas é multicolorida. Muitos são os vitimados pela desigualdade. Entender essa dramática situação é vital para evitar renovadas cisões que enfraquecem as lutas libertário-emancipatórias.

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* Edmundo Lima de Arruda Jr é sociológo, professor titular aposentado da UFSC.

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