EDMUNDO ARRUDA JR: Ascensão do “capitacomunismo” chinês, com ajuda do coronavirus, deve apressar derrota de governos de extrema direita

Edmundo, Xi Jinping e Mao

O VIRUS E A NOVA (DES)ORDEM*

Por Edmundo de Arruda Jr



Há muita informação desencontrada e desinformação dirigida no que diz respeito ao novo coronavirus.

De um lado, interesses políticos, econômicos, financeiros e culturais emergem em infindáveis disputas de poder. De outra parte, milhões de pessoas se encontram confusas, impactadas por insegurança e medo ou por alguma razão alheias ao problema.

Tomemos uma parte da questão, mais visível no cotidiano que a pandemia gerou. O isolamento é aconselhável, por um tempo, tanto que seguido por mais de 150 países. Sair do isolamento é outro problema de difícil condução a curto prazo.

Parece óbvio que a inteligência acumulada a serviço de uma visão pública mais ampla apontará para o ponto elástico de saturação entre o ciclo do virus e seus efeitos e o ciclo da produção na retomada, com as suas consequências, muitas delas imprevisíveis.

Mensurar os efeitos atuais e futuros do tsunami viral nos variados setores do mercado já asfixiados permitirá conter a rota do black out no sistema econômico. O desabastecimento geral é a ponta do iceberg.

Cada país buscará no seu tempo político e de investimento solucionar essa equação isolamento/não isolamento. Equação que implica a frieza utilitarista na contabilidade de vidas humanas a serem perdidas. Uma realidade a ser considerada, por todos.

As drogas disponíveis devem ser usadas na falta da vacina específica, observando as colateralidades e sopesando custos/benefícios. Negá-las ou louvá-las em termos absolutos indicam políticas menores.

O programa de isolamento tenderá a ser definido hoje ou amanhã, combinando-o com o gradativo retorno à normalidade possível, senão ao crescimento, ao menos ao desenvolvimento social típico em toda situação reconstrutiva de pós-guerra. O virus chama o Estado à responsabilidade de sair do imoral invólucro do mínimo social na direção do seu ético máximo, de intermediador para a vida social dígna desse nome.

Fraturas sociais e traumas familiares permanecerão gerando cicatrizes sempre expostas. Há quem compare o vivenciado hoje somente aos traumas da segunda guerra mundial. O que nos parece ainda um tanto invisivelmente como danos poderão adquirir formatos trágicos em algumas regiões do planeta, inclusive ampliando a periferização do Norte.

O que é preocupante é a reideologização do mundo em termos de uma absoluta e curiosa polarização tendente ao incontrolável. Nesse estúpido bumerengue esquerda e direita tradicionais estão juntas, reacionárias, contra uma ordem comum.

De fato, contextos de descontrole continuado alimentam as forças da barbárie a escapar, ela mesma, dos contornos institucionais, jurídico-constitucionais (em termos nacionais) quanto da política internacional do direito público já bem ou mal logrados.

Nessa polarização com risco apocalíptico torna-se urgente a tarefa de sua compreensão mais ampla, vale dizer, da sua complexidade-limite.

O tamanho gigantesco dos impasses mundiais que o coronavirus causa não são claramente percebidos. A paralisia no pensamento insere-se dentro do acirramento do caos social.

Reflexões e esforços intelectuais mais isentos são substituídos por uma inusitada conjunção de guerra de narrativas e guerra de informações nas quais prevalecem tanto fake news quanto o vale tudo entre verdades científicas dos PhDs. Guerras das quais derivam guerrilhas com seus mercenários a serviço de objetivos ocultos, inconfessáveis, abjetos, misturados ou não com a questão objetiva da acumulação, tomada ainda como necessidade.

Há muito se sabe de certo engodo liberal e de certo cinismo comunista, quando ambos se irmanam a certo senso comum segundo o qual há que crescer para dividir, quando hoje mais do que nunca há que distribuir uma riqueza hiperconcentrada a reproduzir desigualdades em várias dimensões.

Sem ilusões, esse giro redistributivo é algo quase impossível, mas necessário. O virus da vez nos interpela ao horizonte radical da redefinição de modos de vida. Essa a consciência a ser universalidade em tempos virtuais contra todos os vírus do mal.

Sim, o novo coronavirus nos provoca a revisitar essa vitalidade do sonho e das energias utópicas, concretas, um tanto despotencializadas. Ele nos defronta com a urgência de encarar formas outras de sociabilidade diante do que não funcionou, empurrando toda a população apavorada da terra para outro patamar civilizatório.

China e EUA tornam-se, por interesses diferenciados, perigosamente, os protagonistas de um esperado agravamento do caos e das incertezas que podem deflagrar explosões locais com alcances imediatamente mais amplas.

No caso dos EUA trata-se de um império decadente. Trump anteviu, na contramão de democratas e republicanos uma nova deténte, ou guerra quente. Políticos democratas e republicanos estavam e ainda se cencontram esperando Godot. Agora, aparentemente, amplia-se rapidamente no senso comum norteamericano um alarme anunciando a guerra entre Ocidente e Oriente, o que renderia, hoje, a reeleição do presidente. Um passo do progresso? Será?

Afinal, a decadência e a ascensão de impérios dá-se ao longo de um tempo mais alargado. A China conhece e se recusa a erguer mais muralhas e perder seus domínios territoriais. Almeja uma rota muito mais poderosa que a da seda e muito mais espetacular que o modelo acumulativo de cariz financeiro. Eis o nó górdio.

Trump reconfigurava um chega prá lá na China buscando uma tarefa quase impossível: a de resgardar nos núcleos públicos do estado geral do Estado imperial norte americano a rede de feudos comerciais compatíveis com os seletos guetos financeiros de agências e atores supra estatais.

A China de Xi Jin Ping encontra-se em um outro patamar de acumulação no qual a industrialização e o consumo em escala mundial co-constituem aquele projeto e talvez afirme uma revolucionária guinada na hegemonia neoliberal, refundando uma outra, a ser conhecida.

A referida guinada da China em face da hegemonia neoliberal não elimina mas redireciona os fluxos e créditos financeiros a outros lugares produtivos e reprodutivos ampliando o caminho do novo império chinês. Tampouco supera os antagonismos e contradições típicas de um modo industrial acelerado sob modus operandi de ausência institucional de democracia liberal.

Mas se de fato a China vai erguendo suas bases geopoliticas, o faz de maneira pragmática em termos de sucesso industrial, com uma identidade com o mundo capitalista atual sob a égide política ultraliberal: o da desnecessidade da democracia fundada no estado de direito, sobretudo de direitos sociais.

Uma repetição histórica talvez esteja em vias de ocorrer. Da mesma maneira que a emergência do bloco das repúblicas socialistas dirigidas pela União Soviética pós-segunda guerra mundial ajudou o conjunto dos países capitalistas centrais a redefinir-se politicamente em termos sociais no centro (wellfare state) e nas periferias(descolonização), em face da globalização predadora neoliberal a ascensão do “capitacomunismo” chinês deverá apressar, com a ajuda do novo coronavirus, à derrotar a onda de governos ultraliberais conservadores e de extrema direita, cessando o seu movimento de ascensão e provocando uma revalorização das instituições liberais que se encontram acima das ideologias, como os direitos fundamentais que afirmam os regimes democráticos.

Mas essa repetição histórica, como toda repetição, não é uma ocorrência nos formatos de cópia fidedígna de farsas, tampouco como tragédias bem conhecidas. Talvez enquanto comédia. A China com seu virus pressiona o Capital a sair da ciranda de financeirizações e a redefinir os termos da acumulação e da distribuição da renda mundial, com a possibilidade de reinvenção de novas formas de experimentar a democracia além das formais estrututuras de representação eleitoral falidas.

Tudo dependerá do desesperado movimento do Capital mundial de encontrar seu conceito universal acima das ideologias e sobretudo das culturas.

A cultura chinesa é de cinco mil anos. Marx previa a capacidade revolucionária do Capital tudo transformar em mercadoria. A China ao caminhar na direção da hegemonia econômica e bélica, portanto política, felizmente será contaminada mais do que possam calcular seus estrategistas, pela ocidentalização do mundo que o consumo implica.

É de se esperar uma revolução francesa no Oriente tão avassaladora quanto sua industrialização tardia. Revolução surpreendente em termos de fazer corar Marx e o forçar a reescrever o capítulo da mais valia, radicalizando-a em termos de performance optimal graças ao capitalismo organizado por um partido único, a vanguarda definitiva do Capital.

O mundo de nossos filhos e netos será um pouco parte dessa herança do que restou de dois sistemas nos quais a liberdade e a igualdade mostraram-se moedas fracas ou mesmo podres em face do poder e fortes em suas mutações virais.

Ter consciência dessa metamorfose já é um bom início analítico.

Viva o novo coronavirus!

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* Edmundo Lima de Arruda Jr, sociólogo e professor titular aposentado da UFSC.
Florianópolis. 8.4.20

Categorias:Mora na Filosofia

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