EDMUNDO ARRUDA JR: A reinvenção possível de Jair Bolsonaro

Edmundo e o capetão

A reinvenção possível de Bolsonaro

POR EDMUNDO ARRUDA JR

Bolsonaro desgarrou-se do bolsonarismo que o elegeu mas busca desesperadamente novas bases de sustentação.

Enfraquecido entre muitos setores sociais que d’antes o apoiaram, perdeu legitimidade com governadores e prefeitos e se encontra isolado no Congresso Nacional. Não bastasse, o Poder Judiciário é outra pedra no caminho do presidente, pressionando deputados na apreciação do impeachment.

Apoiado por quem o cultua acriticamente como Salvador da pátria, Bolsonaro sabe que uma liderança com hegemonia não se constrói com um exército (de Brancaleone?) de fiéis radicais; com o apoio de certas igrejas pentecostais cujas bandeiras dos costumes é limitada em face da sociedade complexa; nem com a adesão de parte do Alto Comando das Forças Armadas. Há que se conquistar e aglutinar muitos segmentos sociais (altamente diferenciados) necessários para governar e quiça ter um segundo mandato. Os 33% atuais de apoio político não são a garantia de nada em face das incertezas que se anunciam.

As políticas de socorro aos mais vulneráveis pela pandemia ajuda o presidente a ganhar um folego, principalmente na regiões Norte e Nordeste. Mas Bolsonaro é, ao contrário dos que o tomam como um idiota incorrigível, um bicho político muito inteligente. Vejamos.

As exonerações dos ministros mais populares, Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro desgastaram o governo mas também permitiram uma sobrevida ao Messias. Ao insistir na tecla leal/fiel, traíra/desleal Bolsonaro chega ao coração do senso comum de milhões de brasileiros comuns. Com esse duscurso o presidente mostrou que entra na luta pela sovrevivência política com uma nova e brilhante estratégia de legitimação. Pesquisa da Folha de SP divulgada hoje expressa um país dividido com o governo ainda em bases fortes de apoio.

Bolsonaro também jogou bem em face do Alto Comando Militar. Não somente trocou cinco dos seus dezoito membros (em março/2020), “renovando” aquele coletivo, como anuiu com certo protagonismo ao general Hamilton Mourão, vice-presidente (para falar sobre a aproximação com o centrão).

Bolsonaro foi além, nomeando dois excepcionais generais quatro estrelas, Walter de Braga Netto (como chefe da Casa civil) para expor o novo projeto (Pró-Brasil) de desenvolvimento e Eduardo Pazuello, como homem forte do novo Ministro da Saúde, Nelson Teich.

A aproximação com o centrão deita por terra a retórica bolsonanista, embasada na distância de políticas clientelísticas e corruptas, vale dizer, sem acordos de trocas indecorosas que caracterizam a política tradicional. A pesquisa da DataFolha indica que se 45% desejam que a Camara Federal inicie o processo de impeachment, mas 48% são contrários. Surpreendentemente 58 % consideram o governo ótimo/bom (33%) e regular (25%).

Mas Bolsonaro caiu na real. Entendeu o puxão de orelha dos generais. Basta às compulsivas e odiosas aleivosias de Olavo de Carvalho e às constrangedoras imposturas dos filhos do presidente.

Ou Bolsonaro compõe com o Congresso ou terá que renunciar em face da inevitável pressão do processo de impedimento, ou agir dispensando o estado de direito e as conexões institucionais com os outros poderes. O Congresso é um balcão de negócios. Isso não significa necessariamente negócios excusos.

Não há espaço para um golpe de Bolsonaro intervindo nos outros poderes da República, como o querem os seus apoiadores ultraconservadores e mesmo de extrema direita. O Alto Comando não é de extrema-direita, tampouco carimba o conjunto de histrionices de Jair Bolsonaro ou avaliza eventuais crimes dos filhos do presidente.

Por sua vez, Rodrigo Maia é muito hábil e guarda pretensões presidenciais. Sabe que a velha política dos tempos do seu pai encontra-se combalida. Não vai deixar passar essa oportunidade de repaginar o centro e a ele mesmo, afastando-o dos extremos e redefinindo um resgate de parte dos defenestrados do governo Bolsonaro.

A questão que a mudança imposta ao presidente pelo Alto Comando das Forças Armadas é a seguinte: até que ponto Bolsonaro suportará uma situação de governo complicada no qual o prometido crescimento não parece evidente sob efeito da pandemia; o clima presente de impeachment e a aura de um fiel da balança ávido para ser presidente (Rodrigo Maia); sem contar a espada de Dâmocles a pairar sobre a cabeça do pai ao observar seus filhos serem enquadrados nas leis criminais sob os aplausos de Sérgio Moro.

Bolsonaro nos lembra a fábula do escorpião pedindo carona ao sapo para a travessia de águas…

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*Edmundo Lima de Arruda Jr
Prof Dr. Aposentado/UFSC.

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