EDMUNDO ARRUDA JR: A defesa ingênua, romântica de Maduro alimenta e converge com as doutrinas e esquisitices da ultradireita

Edmundo e Maduro

Venezuelização: os avessos das ideologias!*

POR EDMUNDO ARRUDA JR

Tenho insistido num denominador comum entre pandemônio e pandemia do Covidc19 na política e na sociedade. Ambos aceleram em tempos de medo e incertezas paralisias cognitivas e regressões comportamentais, convergentes com ações irracionais, primitivas. A recorrente expressão “venezuelização” é um dos muitos exemplos desse quadro de barbárie em curso.

Governo e apoiadores se unem em face da perda de legitimidade de Bolsonaro, alimentando o fantasma da venezuelização. Uma estranha unidade fundada em um conjunto de truques ideológicos de coloração variada.

A Venezuela de Maduro é muito diferente daquela sob o comando de Chávez. O sonho bolivariano passou de retórica estratégica de um líder capaz de gerar alguma expectativa sob a bandeira genérica do socialismo para o século XXI a um renovado embuste caudilhesco.

Maduro não possui as características carismáticas de Chávez nem conta com o mesmo apoio interno. Também a situação do petróleo no mercado mundial enfraquece o ditador atual. A esquerda tradicional divide-se entre fãs e ativistas do atual presidente e não entusiastas acanhados do regime de Maduro, incapazes de vir a público registrar os desmandos autoritários.

Lembro de um fato interessante que vale o registro histórico. Frei Betto esteve na UFSC em 1989, ano em que caiu o muro de Berlim, convidado pela APUFSC, por mim presidida, para refletir sobre o futuro do socialismo. Quando eu apresentei a ideia do seminário ele logo me avisou que “…não estava ali para colocar azeitona na empadinha da burguesia”. A frase leva três décadas mas serve a muitos militantes juvenis, para lhes embotar cérebro e ação.

No fundo abdicar à crítica é covardia, para dizer pouco e poupar a dialética de mais um fiasco. Essas posturas covardes de renúncia ao pensamento repetem-se na história. A esquerda tornou o termo revisão o sinônimo de revisionismo, pejorativamente carimbado como comportamento indicativo de traição. Traição ao que ortodoxos de santas igrejas do marxismo tomam como revelação seja em livros sagrados ou na palavra de líderes cristalizados em diuturna propaganda típica dos cultos à personalidade até hoje presentes em Cuba e na China, no Vietnan e na Coréia do Norte. Nesse sentido é de se agregar novos usos e abusos no significante traição. A razão pusilânime é uma Igreja com muitas cisões e seitas.

Ao lado desse autismo ideológico supra mencionado há compreensões e atitudes da extrema direita turbinando ideologicamente o campo do anticomunismo primário. Trata-se de um conjunto de tópicos retóricos descontextualizados e em grande medida contrafáticos historicamente. Afinal, o comunismo dos socialismos reais foi varrido da terra e os movimentos sociais clássicos perderam suas forças d’outrora.

Mas se o fim dos regimes comunistas parecia abrir espaço para um liberação dos entraves para uma democratização ampla, casando liberalismo político e mercado capitalista, isso não só não aconteceu como ajudou as democracias liberais a se descompromissar socialmente na exata medida da conquista hegemônica do novo padrão acumulativo, o da financeirização global.

Daí os contextos da desinstitucionalização geral e da ampliação das crises de intermediação. Cada vez mais Hegel nos falta. Cada vez mais constatamos menos Estado, menos Direito, menos direitos humanos e no limite, menos mercados no sentido de lugares onde se produzem mercadorias, troca, sem prescindir e esmagar o trabalho. Em uma palavra, acirram-se conflituosidades, de classe, intraclasses sociais.

Esse mundo em estado de nudez, no qual promessas capitalistas e comunistas fracassaram, instiga os extremos e produz muitas polarizações.

Então Olavo de Carvalho surfa nessa onda ultraliberal e vende seu ideário reacionário no qual misturam-se o espectro vingativo de um gramscianismo inexistente e um desejo de todo delirante de amalgamar ordem nacional xenófoba e neoliberalismo decadente. Como se possível fosse conciliar uma globalização seletiva e predatória com um garantismo jurídico-político agora cada vez mais desterritorializado em termos de valores e instituições soberanas (nível do imaginário), evidenciando o esgarçamento de um mínimo ético para uma sociabilidade mínima capaz de conferir à essa nova ordem ultraliberal um sentido dígno do que se possa chamar de sociedade.

Em resumo a defesa ingênua, romântica (ou por critérios de pressuposta “realpolitik”) de Maduro em busca de um novo bloco de países do socialismo do século XXI, por parte de indivíduos, grupos e partidos que se autorepresentam como progressistas/socialistas alimenta e converge com as doutrinas e esquisitices da ultradireita. Esta vem logrando tocar amplos setores sociais (subalternos, medianos e altos) quanto escora-se nos sensíveis assuntos dos costumes (em dissolução) na ordem privada e das pautas sociais (públicas) em face das desigualdades/iniquidades da ordem vigente, a serem superadas. Pois bem, essas pautas são vendidas como perigosas, obra de comunistas.

A superação desses extremos retóricos confluentes parece ser o nó górdio para a luta democrática.

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Edmundo Lima de Arruda Jr é sociólogo e professor titular aposentado na UFSC

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