EDMUNDO ARRUDA JR: A China realiza a síntese entre comunismo e capitalismo como sonhara, de forma clarividente, Glauber Rocha

Edmundo e Glauber

China, capitacomunismo e futuro!

Por Edmundo Arruda Jr

Mais um efeito colateral de Marx no seu experimento de socialismo real. Graças ao uso das teses marxistas leninistas apropriadas por Mao chegamos a um curioso frankstein social não mais de feitio ideológico mas como inegável realidade “líquida” no mercado mundial.

O capitacomunismo é genial. Em pouco mais de três décadas aproxima-se dos EUA em riqueza e em termos bélicos. Indicam que capitalismo não precisa de democracia. E que vão mudar o mundo todo. Inclusive a ordem financeira neoliberal. De alguma maneira eles inverteram a história do mundo industrial. Melhor. A colocaram de joelhos. Do comunismo fracassado usaram o partido único comunista como ferramenta verticalizadora do centralismo burocrático para organizar o Capital de alguma maneira já acumulado pela monenclatura chinesa desde Mao Tse Tung. Afinal. De onde surgiram tantos bilionários da noite para o dia?

Deng Siao Ping percebeu bem esse movimento histórico do Capital e a oportunidade de tornar a forma comunista de poder um neotaylorismo em favor da sonhada acumulação a ser distribuída. O comunismo para o capitalismo elimina intermediações cinicamente burguesas da democracia liberal, hoje absolutamente deslegitimada. Hierarquiza comando e subordinados redefinidos ou optimizados para engendrar mais valia exponencial.

Eles, os chineses não sabem o que é democracia constitucional, estado de direito. Mas talvez o capitalismo os faça em trinta anos realizar à sua maneira a ” revolução francesa”, refundando uma modernidade outra.

O acesso à cultura ocidental e o consumo crescente para mais de quinhentos milhões de chineses vai minando os cinco milênios de tradições. “Tudo que é sólido se esfuma no ar. Tudo que é sagrado será profanado” vaticinava Marx no Manifesto, entusiasmado com a força do mercado em superar e modificar culturas.

Há uma miséria imensa para cem milhões de chineses e boa parte dos assalariados padecem com salários aviltantes, abaixo dos níveis internacionais. Em uma palavra, a luta de classes não foi apaziguada no capitacomunismo, mas acirrou-se.

Pouco a pouco os trabalhadores com algum grau de discernimento crítico vão pressionando por direitos trabalhistas, hoje quase inexistentes. É de se esperar grandes movimentos por esse e outros direitos humanos no futuro. Essa revolução provavelmente fixará o destino da humanidade nos próximos séculos.

O problema ambiental os chineses tirarão de letra mas a questão nuclear persistirá. Unidos com Irã, Coréia, Rússia e outros,  os chineses não vão seguir a tradição do capitalismo de cultuar a guerra. Aprendem rápido com as lições do século XX. Nem seu algoz maior, o Japão, preocupa chineses. Tampouco Taipé. Os vizinhos todos viram carimbadores de produtos chineses, no espetacular drible às restrições de importações impostas à China.

O império da China desta feita não será territorial. Também não visam os chineses uma geopolítica cultural. O que querem é um pragmatismo na velocidade de sua produção e capacidade de apropriar-se e forjar tecnologias em tempo e custo recordes.

De fato, enfim a China realiza a síntese entre comunismo e capitalismo, como sonhara de forma clarividente Glauber Rocha. O capitalismo destruiu os socialismos reais e destes nasceu um singular capitalismo sem o custo da legitimação retórica num liberalismo político. Os socialistas democratas terão que escolher entre democracia cada vez mais sem estado de direito e estado de direito sem democracia alguma…

Chineses e russos vão dizendo ao mundo: “A modernidade que a modernização industrial de vocês ocidentais criou não deu certo. Vocês tiveram mais de dois séculos para mostrar ao mundo que iguais perante a lei tornaram-se iguais na realidade. Isso não aconteceu. Agora é a nossa ver de experimentar outro modelo, mais pragmático e menos ilusório”.

Neste século XXI as cartas do terceiro milênio estão jogadas.

——————-

Edmundo L. de Arruda Jr é sociólogo e professor aposentado da UFSC

Floripa 19.3.20

================
CONFIRA A COLEÇÃO DE VIDEOS SELECIONADOS POR ENOCK CAVALCANTI NO VIMEO

A geriatra Luciana Vilela e o Covid 19 from Enock Cavalcanti on Vimeo.

Categorias:Cidadania

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

dois × 3 =