EDMUNDO ARRUDA – Em busca de gente bonita

Em busca de gente bonita…
por Edmundo Arruda
Tem me incomodado ao ponto de me provocar esta crônica aquela frase senso comum de gente da classe média, parentes não muito inteligentes, menininhas bonitas “promoteurs”, locutores de rádios FM e apresentadores de programas de TV, mesmo declarações de ex BBB, etc. Na falta evidente de conteúdos eles soltam esta pérola: “venham ao evento X ou Y, lá encontraremos pessoas bonitas”.

Pensem em algo mais inconstitucional que isso. Ao conclamarem um seleto encontro, porque lá se esbarram “gente bonita” os beócios estão de outra maneira dizendo que não se deve ir a outros lugares, de gente feia. Lembrem-se da sátira do Chico Anísio há décadas: “o povo, que se exploda”… Elitismo inaceitável, penso eu, para os padrões multiculturais e constitucionais do século XXI.

Lugar de gente feia é em biblioteca? em clube de xadrez? em círculo poético?ou em café-filosófico? Em laboratórios de pesquisa? e mesmo nos lugares do trabalho duro que permitem a sociedade se reproduzir!

Lugar de gente bonita seria o lugar de popozudas, leia-se, mulheres de bundão imenso? de tetas siliconadas, ou corpos bronzeados? Garotos malhados naquele estilo inchado de bombas? Um lugar no qual os músculos desprezam o cérebro, talvez!

Claro que o belo deve ser observado e mesmo admirado, mas jamais alçado a valor último, ou princípio de encontro. Estilo, vamos a tal lugar por que lá encontraremos gente bonita. O elogio se aproveita do dito de Vinicius, “..que me perdoem as feias mas a beleza é fundamental”. Claro, Vinicius era lindo em todos os sentidos, mas não se adequaria bem àquele site estrangeiro que seleciona somente bonitos descartando o intelecto.

Receio que esse senso comum de péssimo gosto nos leve a encontrar pessoas feias, mesmo horrorosas. Não obstante os bumbuns arrebitados, os seios vergados ao céu, os músculos dos meninos de um neurônio e meio, por regra, os lugares considerados pelos fazedores de opinião, os colunistas conhecidos por seu alto coeficiente de formação/ação política e histórica por cidadania, inúmeros são os lugares de gente de estética política pobre, que se avizinham do que Brecht considerava como prostitutos e/ou analfabetos políticos.

Ora bolas, o bonito pela indumentária e não por valores mais profícuos me parece um disparate. Corpos sarados valendo mais que capacidade de pensar. Claro, há gente inteligente e bonita, por certo, Mas não é a esse seleto grupo que me destino. Me refiro aos milhares dos que sequer conhecem a sua própria gênese, alienados que são nas formas, nos fetiches, das marcas de carro que desfilam em Jurerr Internacional e em outros cantos nos quais esses mutantes se reproduzem se considerando algo mais elaborado na evolução da espécie..Fetiches sim, por grifes, por este ou aquele frisson de consumo, por esta ou aquela histeria de seguir as modas das paquitas de verão, ou de plantão. Um exército de Midas ao contrário, onde tocam tudo vira merda.

O Brasil chegando a quinta economia mundial, embora na execrável condição social de 72 entre os mais pobre em termos de distribuição de renda e certa classe média rindo com ienas no mundinho de certo consumo. Viva o sertanejo universitário e o brega em geral. Esprimidas entre a massa e o capital lá se vai a pequena burguesia em busca de uma identidade pouco provável. Jamais se verá como parte dos assalariados e nunca será burguesa. Estruturalmente os setores medianos não têm a menor idéia de sua importância ou (des)importância. Seguem na história como proxenetas do acaso.

Volto ao ponto daqueles que inconstitucionalmente (pois que se trata de crime hediondo, inafiançavel) à retórica da mesmice, estilo, “gente, vamos a tal bar por que lá encontraremos gente bonita” e outras patetices…

Os lixeiros, os garis, os domésticos, os mineiros, enfim, os milhões de trabalhadores do Brasil que constroem este país, que nos permitem acessar a bens e mercadorias, a nos possibilitar as ruas limpas, a água encanada, os serviços elétricos, as fossas sob controle, todos eles, devem obedecer ao padrão estético do “bonito”, fixado por uma classe média de péssimo gosto, inculta mesmo, por regra? Essa mesma classe média que ama assistir BBB e programas de qualidade duvidável nos domingos tem legitimidade para dizer o que “bonito ou feio? Afinal, trocar de carros e se endividar em financiamentos, tudo pelo apartamento novo ou carro do ano, tudo isso é bonito? Ou participar das conhecidas viagens a Europa, Abreu ou CVC, nas quais arrotam esse medianos “conhecer” o velho continente, dez países em vinte dias?

Temos que deixar de ser cínicos, o país é lúdico em sua tragédia, de milhões de trabalhadores lutando por seus dia-a-dia, batalhando para levar para casa a proteína aos seus filhos. Eles padecem de uma super-exploração da mão de obra, trabalham em condições de trabalho aviltantes, e um bando de vadios os desconsideram e somente elogiam os lugares de gente bonita… tão bonitas que vão se produzindo como andróides da nova estética. Toda idiotice deve ser perdoada?

Bonita em que pergunto eu? em botox, em bombas para o corpo estufado? em cartões de crédito que testemunham suas burrices? Bonitos em bronzeadores e caras feitas para fotos e sites de satisfação momentânea de presença e influência?

Perdoem-me os leitores, mas esses iletrados, alienados, esses babacas de classe média não tem a menor idéia estética do que seja bonito e feio. Feio é ser corrupto e viver de maneira desonesta. Bonito é trabalhar honestamente por um lugar ao sol. O que pensar um pai cuja filha sonha em ser modelo? De um filho que aposte todas as fichas em ser jogador de futebol? Mas fiquemos por aqui, afinal, gosto é gosto dirá a tradição, a má tradição…

Em nosso país há milhões de menores trabalhando, há trabalho escravo, há prostituição infantil e esses energúmenos medianos me falando e enaltecendo como um plus estar ao meio de “pessoas bonitas”. Bonitas em quê? vou eu me perguntando…Bonitas na arte do avestruz?

Edmundo Arruda, cuiabano, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina

Categorias:Cidadania

3 Comentários

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  1. - IP 177.78.140.89 - Responder

    O professor Edmundo foi ao ponto! Essa frase usual de “ir onde tem gente bonita” é de fato um bobagem, dita pelos bobões e bobonas que se acham… Ou idiotice para mim é dizer “tal coisa é tudo de bom”.

    • - IP 177.78.140.89 - Responder

      Onde se lê: “um bobagem”, leia-se “uma bobagem”(antes que o Xomano venha me chamar de burro)..

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