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EDMUNDO ARRUDA: A droga triplica a alienação de uma juventude. Alienados em primeiro grau pela ausência de Machado de Assis em suas vidas. Alienados em segundo grau pela falta de perspectivas para o futuro. Alienados, por fim, porque mortos ou condenados a tal dentro de um processo social do qual sequer imaginam que são vítimas

O professor Edmundo Arruda em seminário na Universidade Federal de S Catarina

Mundo das Drogas: Uma reflexão
por Edmundo Lima de Arruda Jr

Confesso. Minha geração é a geração da droga. Algo deve ser feito em defesa do imenso contingente de jovens que passam, em termos de dados absolutos e por muitas razões alienantes,  da condição de geração da droga à de verdadeira droga de geração.

Explico-me. Foi o tempo dos adeptos do baseado, e mesmo de drogas alucinógenas,  ainda vinculados de alguma forma, com o mundo da vida e com o mundo do trabalho,  vale dizer, com algum poder de produção criativa,  em várias esferas da estética, da música (em seu clima enlouquecido do rock), atingindo a literatura, a dramaturgia, a pintura, etc. Hoje tudo mudou. A droga deixou de ser um movimento particular na esfera privada do cidadão ou mesmo uma ‘ideologia de época” como o foi Woodstock.

Nos dias atuais a droga tornou-se um negócio e uma calamidade pública. Um mega negócio para os empresários e políticos com muito poder de fogo. Uma calamidade enquanto diagnose da patologia de nossa modernidade já não tão industrial quanto dos “serviços” em tempo de esgotamento do trabalho como retórica liberal legitimadora da democracia e de suas instituições. Nesse negócio encontram-se imbricados  interesses de grandes bancos, ávidos por disputar esse fluxo  “descontrolado” de capital. Nesse “nicho de mercado” a política é atualizada em suas hierarquias,  não dispensando a mediação do “malandro com mandato federal”,  cantado por Chico Buarque. Ingenuidade infantil pensar que no Congresso Nacional não  há forte bancada do narcotráfico, e que  a prisão do facínora e ex deputado federal  Ildelbrando Paschoal teria eliminado uma tendência (residual e isolada?)  na representação eleitoral brasileira (e colombiana, e boliviana, etc). A relação de prostituição da política no narcotráfico não é um privilégio das Farcs que tanto seduzem, uma certa esquerda tradicional pusilânime, por covarde abandono da crítica,  pretensa “ vanguarda” com os faróis da história voltados para o passado.

Não me aterei à querela do bolivarianismo, em Chaves, um aliado das Farcs,  agora na expressa fase bélica e nos novos populismo emergentes, os quais também revelam o esgarçamento da frágil tecitura institucional das democracias na América Latina. Não. Fico com uma reflexão sobre a complexidade da questão, que incluirá oportunamente a discussão da complexa questão  da legalização das drogas, menos por pertinência constitucional do direito do indivíduo em face do Estado e da sociedade, e mais por uma questão de necessidade de poupar vidas e de saneamento de setores anti-modernos no mercado e na sociedade política.

Hoje a drogadicção atingiu a um patamar de consumo consetâneo ao tempo virtual do Capital, “popularizando-se” nas formas sintéticas sem as quais a classe média não vai ao paraíso das raves (adquirido no estilo deliver, diuturnamente),  e em drogas de efeito  alucinante  com imenso e instantâneo poder destrutivo como o crack, espécie de ópio dos marginalizados na zona de exclusão na qual não há se falar sequer em consciência, lá onde existe um cidadão de quinta categoria, um anti-cidadão, ou um sublumpen que jamais formará corpo do exército do cada vez mais rarefeito proletariado. O mundo da droga em tempos globais deve ser enfrentado em seus múltiplos efeitos e nas suas lógicas subjacentes. Nesse mundo estão envolvidos o desespero da falta de oportunidades, que corroendo o legítimo caminho (ideológico?) ao mundo do trabalho e à sua ética aceitável (?) de “seleção natural”, implica muitas vezes na dissolução de vínculos morais, familiares, com o  conseqüente incremento do sofrimento e do esgotamento psíquico, no qual a depressão é uma defesa, embora nem sempre funcione na mesma maneira para os que sofrem a sua injusta heteronomia. Na caricatura surreal da Rede Globo uma hermenêutica é possível.  A novela das oito Caminho das Índias nos expõs os nervos da lucidez do esquisofrênico em face da elites viciadas na banalidade e nos simplismos mediocrizantes.

Há várias formas de defender essa juventude morta prematuramente em todo o mundo. No Brasil quase setenta por cento dos homicídios são relacionados com o tráfico de drogas. São aproximadamente  trinta mil mortos por ano ou mais, em média mil jovens brasileiros assassinados, entre 14 e 24 anos.  Afora os que sucumbem de overdose ou vem se tornando parte de um exército de sequelados, que perambulam pelas casas dos pais, quando ainda tem esse importante, embora dificísslimo apoio, ou vagabundeam pelas ruas, caso dos drogadictos sem poder aquisitivo e sem esperança. Acresça-se a isso os conhecidos prejuízos sociais causados por todas as drogas, e potencializados com as oficiais e de alta periculosidade para a saúde, o álcool e o tabaco, cujos estragos nas contas da saúde pública devem ser melhor averiguados.

As drogas não oficiais operam como mercadorias e se reproduzem na lógica mercantil extra mercado convencional. São bilhões, senão trilhões de todos os dinheiros que já fixam na cocaína, por exemplo, um novo e estranho padrão referencial de certo lastro over, para os que desejam lavar dinheiro. Inimaginável o crescente número de empresas criadas como laranjas para legalizar dinheiro sujo. São poucos os bancos que não se interessam e não disputam em verdadeira briga de foice no escuro por esse  capital sedento de se ‘legalizar”. Há estudos de conhecido promotor do Rio de Janeiro nesse sentido.

A droga triplica a alienação de uma juventude. Alienados em primeiro grau pela ausência de Machado de Assis em suas vidas. Alienados em segundo grau pela falta de perspectivas para o futuro. Alienados, por fim. Porque mortos ou condenados a tal dentro de um processo social do qual sequer imaginam que são vítimas, produção das elites. Quando vejo certos traficantes presos, anunciados como chefes de uma rede na área das drogas, não contenho o sorriso, talvez mórbido, de ainda se divertir com o cinismo de nossos líderes, afinal, quem acredita que favelados, negros, sejam eles mesmos os traficantes, sem consideração sobre a complexidade desse movimento no qual, como afirmado, há profundos graus de financiamento da drogadiccão, o maior negócio do mundo.

Volto a questão da necessária discussão, agora avalizada também por Fernando Henrique Cardoso, sobre a legalização das drogas como forma possível de controle, discutida e partilhada entre setores modernos do sistema político e da sociedade civil. Ganhará o Estado, o grande pai presente como limite, o de mediador de conflito inter geracional no contexto agudizado de crises que expressam o turbilhão de mudanças que nos assolam. Ganhará a família, com uma economia de vidas de milhares de vidas, jovens que poderiam estar a serviço da construção de um país que deles necessita, como jamais em nossa história. Nesse sentido o mercado também se aproveita, afinal, nosso país está longe do crescimento que se anuncia para as próximas décadas. O Estado também ganhará em termos fiscais, arrecadando melhor e controlando as empresas realmente produtivas. Em termos penais haverá um alívio geral seja para o Executivo (Ministério Público, delegacias, presidios) seja para o Poder Judiciário, por significado esvaziamento de fatores criminógenos das empresas e atores desse processo anti-socia em termos afirmação de uma vida social mais solidária e fraterna, eu diria mesmo, democrática no sentido mais profundo apontado por nossa constituição republicana.

Quem perde? Perdem os narcotraficantes, os financiadores da morte, os políticos do capital. Os setores anti-modernos na máquina estatal em todas as esferas da federação, os corruptos nas polícias, no judiciário e em todo o sistema judicial.

Ganha o Brasil e a vida. Acredito que essa discussão também deva ser discutida em profundidade sob o ponto de vista do indivíduo, embora essa questão coloque como urgente aquela outra, a de afirmação da modernidade jurídica na qual o Estado é o melhor antídoto contra todos os fundamentalismos com suas moralidades autoritárias, pois gravadas pela intolerância num mundo cada vez mais atravessado pelo multiculturalismo e pela diferença como marca da individualidade e da subjetividade. Não há sociedade eliminação de todos os anti-depressivos numa sociedade cada vez mais doente, sejam eles o álcool, o tabaco, os quais devem ser também alvo de uma política de estado menos laxista, com maior impedimento do estímulo e da propaganda, mas sem leis secas de todo o gênero. Se alguém quer beber, fumar, cheirar, etc, quer o faça no espaço privado e dentro de padrões de compra de suas drogas sob o bastião legal. Ademais, e afinal, Hitler não fumava nem bebia…

EDMUNDO ARRUDA, cuiabano, é professor titular da UFSC e CESUSC, em Santa Catarina

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