(65) 99638-6107

CUIABÁ

Alguma coisa está fora da ordem

ROSANA LEITE BARROS: Ali pertinho, na Argentina, é lei, é lei. Aborto legal, no hospital

Publicados

Alguma coisa está fora da ordem

Rosana

Aborto legal, no hospital

ROSANA LEITE BARROS

A Argentina vem se despontando como país onde os movimentos sociais são fortes e comprometidos. Exemplo disso foi a decisão histórica em aprovar, na madrugada do dia 30/12/2020, o direito da mulher ao seu corpo, em poder decidir sobre a interrupção da gravidez.

Agora é realidade que elas poderão ter o direito de dizer se querem ir adiante com a gestação, até a 14ª semana de gestação. A decisão, no Senado, contou com 38 votos favoráveis e 29 contrários, e com uma abstenção.

Pesquisas indicam que o índice de morte de mulheres em razão do aborto é grande em todos os lugares do mundo, sendo maior entre as mulheres negras. Por outro lado, nenhuma mulher é obrigada a fazer uso de métodos contraceptivos, e nem a se submeter à laqueadura. Segundo a Lei nº 9.263/96, a mulher e o homem possuem direito de decisão quanto ao número de descendentes que pretendem ter.

A realidade é que nenhum feto sobrevive sem o corpo da mulher, até o terceiro mês de gestação. Os métodos caseiros utilizados pelas mulheres com menores condições financeiras têm feito vítimas todos os dias. Todavia, as mulheres mais abastadas, como é sabido, realizam o procedimento em clínicas informalmente.

Assim, a criminalização do aborto, além de desrespeitar o direito de todas as mulheres indistintamente, ainda pune severamente as hipossuficientes. Enquanto os homens vivem livremente a sexualidade, as mulheres ficam ‘amarradas’ em corpos que não lhes pertence por direito.

Leia Também:  Bruneto cobra transparência; Zanata quer sigilo sobre incentivos

São direitos fundamentais da pessoa humana, juntamente com o direito à vida, à igualdade, à liberdade, à segurança, dentre outros. Merecem proteção constitucional, não se podendo falar em sociedade livre, justa e solidária, quando ocorre qualquer desrespeito.

Na América Latina, a Argentina, juntamente com Cuba, Guiana, Guiana Francesa, Uruguai, Porto Rico, na Cidade do México e no estado de Oaxaca (México), existe a autorização para que as mulheres possam determinar sobre o seus corpos e sexualidade. Ao todo são 67 os países do mundo onde o aborto pode ser exercido por vontade da proprietária do corpo.

A celebração foi farta de choro de alegria, dança e fogos de artificio da cor verde, que passou a ser símbolo em prol da luta pelo aborto legal. A sociedade seguramente ficará melhor, menos hipócrita e com maior proteção aos direitos das mulheres.

Enquanto as ‘hermanas’ e os ‘hermanos’ apresentam a realidade de que o aborto poderá acontecer no hospital, o nosso país percorre caminho inverso ao permitir a tramitação do absurdo ‘Estatuto do Nascituro’. Sem esquecer que no Brasil a mulher que deseja a esterilização através da operação de ligadura das trompas, necessita da autorização do cônjuge. Elas também enfrentam dificuldade em alguns locais do país para a realização do aborto legal….

Leia Também:  ENGAVETADOR GERAL: Primo de Jackson Lago - ex-governador do Maranhão, já falecido - protocola pedido de impeachment contra procurador geral da República. A acusação é que Roberto Gurgel cometeu crime de responsabilidade ao avocar para si e engavetar três processos em que a atual governadora do Maranhão, Roseana Sarney, filha do cacique José Sarney, é ré

Será que irão insistir em mentiras? Mentiras de que o abortamento não acontece? Mentiras de que os procedimentos não são realizados clandestinamente?

Parabéns à Argentina, que, para além da aprovação do aborto legal pela vontade da mulher, ainda incluiu uma cláusula para evitar judicialização dos procedimentos, evitando a demora.

O texto aprovado prevê que o aborto deve ser realizado até 10 dias depois do pedido da mulher. Ademais, se o profissional da medicina se opuser à realização, deverá transferir a paciente para unidade que realiza dentro do prazo. Em paralelo, foi aprovado o projeto dos “Mil Dias”, como um conjunto de políticas de contenção e assistência financeira, médica e psicológica a mulheres mais pobres que desejam continuar a gestação, mas que se encontram com dificuldade financeira.

Para elas logo ali pertinho, na nossa fronteira, as comemorações: “É lei, é lei, é lei”. “Aborto legal, no hospital”.

Pensar na descriminalização do aborto é garantir a redução de morte materna por raça, cor e condição social. Por aqui, em ‘terra brasilis’, quem sabe um dia…

 

ROSANA LEITE BARROS é defensora pública em Mato Grosso

COMENTE ABAIXO:

Propaganda
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Alguma coisa está fora da ordem

LÚDIO CABRAL: 5 mil vidas perdidas para a covid em Mato Grosso

Publicados

em

Por

CINCO MIL VIDAS

Lúdio Cabral*

Cinco mil vidas perdidas. Esse é o triste número que Mato Grosso alcança hoje, dia 26 de janeiro de 2021, em decorrência da pandemia da covid-19.

Cada um de nós, mato-grossenses, convivemos com a dor pela perda de alguém para essa doença. Todos nós perdemos pessoas conhecidas, amigos ou alguém da nossa família.

A pandemia em Mato Grosso foi mais dolorosa que na maioria dos estados brasileiros e o fato de termos uma população pequena dificulta enxergarmos com clareza a gravidade do que enfrentamos até aqui.

A taxa de mortalidade por covid-19 na população mato-grossense, de 141,6 mortes por 100 mil habitantes, é a 4ª maior entre os estados brasileiros, inferior apenas aos estados do Amazonas (171,9), Rio de Janeiro (166,2) e ao Distrito Federal (147,0). O número de mortes em Mato Grosso foi, proporcionalmente, quase 40% superior ao número de mortes em todo o Brasil. Significa dizer que se o Brasil apresentasse a taxa de mortalidade observada em Mato Grosso, alcançaríamos hoje a marca de 300.000 vidas perdidas para a covid-19 no país.

Lembram do discurso que ouvimos muito no início da pandemia? De que Mato Grosso tinha uma população pequena, uma densidade populacional baixa, era abençoado pelo clima quente e que, por isso, teríamos poucos casos de covid-19 entre nós?

Leia Também:  SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA: STF atuou como juiz iniciante na AP 470

Lembram do posicionamento oficial do governador de Mato Grosso no início da pandemia, de que o nosso estado não teria mais do que 4.000 pessoas infectadas pelo novo coronavírus?

Infelizmente, a realidade desmentiu o negacionismo oficial e oficioso em nosso estado. Não sem muita dor. O sistema estadual de saúde não foi preparado de forma adequada. Os governos negligenciaram a necessidade de isolamento social rigoroso em momentos cruciais e acabaram transmitindo uma mensagem irresponsável à população. O resultado disso tudo foram vidas perdidas.

Ao mesmo tempo, o Mato Grosso do sistema de saúde mal preparado para enfrentar a pandemia foi o estado campeão nacional em crescimento econômico no ano de 2020. Isso às custas de um modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza, de um sistema tributário injusto que contribui ainda mais com essa concentração, e de um formato de gestão que nega recursos às políticas públicas, em especial ao SUS estadual, já que estamos falando em pandemia.

Dolorosa ironia do destino, um dos municípios símbolo desse modelo de desenvolvimento, Sinop, experimentou mortalidade de até 100% entre os pacientes internados em leitos públicos de UTI para adultos em seu hospital regional.

Nada acontece por acaso. Os números da covid-19 em Mato Grosso não são produto do acaso ou de mera fatalidade. Os números da covid-19 em Mato Grosso são produto de decisões governamentais, de escolhas políticas determinadas por interesses econômicos, não apenas agora na pandemia, mas por anos antes dela. E devemos ter consciência disso, do contrário, a história pode se repetir novamente como tragédia.

Leia Também:  Luis Nassif levanta pistas sobre quebra do sigilo bancário do delegado Protógenes: Roberto Gurgel recebeu advogado (curiosamente um ex-chefe da PGR, Aristides Junqueira) do banqueiro Daniel Dantas, que não fazia parte do processo, antes de mudar posição da PGR no caso

Temos que ter consciência dessas injustiças estruturais para que possamos lutar e acabar com elas. A dor que sofremos pelas pessoas que perdemos para a pandemia tem que nos mobilizar para essa luta.

Lutar por um modelo de desenvolvimento econômico que produza e distribua riqueza e renda com justiça, que coloque pão na mesa de todo o nosso povo e que proteja a nossa biodiversidade. Lutar por um sistema tributário que não sacrifique os pequenos para manter os privilégios dos muito ricos. Lutar por políticas e serviços públicos de qualidade para todos os mato-grossenses. Lutar pelo SUS, por um sistema público de saúde fortalecido e capaz de cuidar bem de toda a nossa população.

São essas algumas das lições que precisamos aprender e apreender depois de tantos meses de sofrimento e dor, até porque a tempestade ainda vai levar tempo para passar.

*Lúdio Cabral é médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso.

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

MATO GROSSO

POLÍCIA

Economia

BRASIL

MAIS LIDAS DA SEMANA