DIÁRIO DE CUIABÁ: Gustavo de Oliveira não gostou muito do novo filme de Woody Allen

Um Allen menor
por GUSTAVO DE OLIVEIRA

DO DIÁRIO DE CUIABÁ
A esta altura, já não há tanta necessidade de dizer que Nova York deixou de ser cidade musa de Woody Allen. Ainda em 2005, o cineasta descobriu que é mais fácil financiar seus filmes no Velho Mundo e embarcou no que a mídia chamou de sua “fase europeia” – que já passou por Londres (em ‘Match Point’, ‘Scoop’ e ‘O Sonho de Cassandra’), Barcelona (‘Vick Cristina Barcelona’) e Paris (‘Meia-Noite em Paris’). Todos esses filmes foram muito bem-sucedidos. Manter um padrão de qualidade entre o decente e o genial, aliás, é uma das virtudes da obra de Allen. Mesmo bobagens como ‘O Escorpião Jade’ (2001), por exemplo, não são necessariamente fiascos; apenas filmes menores.

‘Para Roma, com Amor’, o último trabalho de Woody Allen – infelizmente não chegou aos nossos cinemas, mas já pode ser encontrado nas videolocadoras de Cuiabá -, também se mantém acima da média, se comprada a outras comédias enlatadas atuais. Mas não dentro da média do diretor. É possivelmente seu trabalho mais fraco de sua produção europeia. No longa, quatro histórias paralelas (que nunca se cruzam) reciclam temas que Allen já explorou à exaustão – e de forma mais efetiva. Jesse Eisenberg (de ‘A Rede Social’) faz um jovem arquiteto em férias na capital italiana, dividido entre uma relação estável e a paixão tórrida por uma pseudointelectual vivida por Ellen Page, também melhor amida de sua namorada. Esse arco desperdiça incrivelmente o talento de Alec Baldwin, que não tem por onde evoluir, delegado a um enigmático papel que serve como uma espécie de voz da consciência do personagem de Eisenberg.

Sempre exagerado, Roberto Benigni faz um cidadão comum convertido em celebridade da noite para o dia – sem nenhuma explicação lógica. A moral que Allen tira daí é rasa e muito previsível. Ainda mais superfula é a subtrama que envolve um rapaz bom samaritano, a cargo do italiano Alessandro Tiberi, que se desencontra da sua noiva para aprender os segredos de uma boa relação ao lado de uma bela prostituta vivida por Penelope Cruz.

Por último, temos Woody Allen e Judy Davis como o casal americano que vai a Roma para conhecer/aprovar o pretendente da filha (Alison Pill, da série ‘Newsroon’) e sua humilde família. A história desdobra-se quando Allen, na pele de um produtor musical aposentado, descobre os extraordinários talentos operísticos do pai da nora (Fabio Armiliato, famoso tenor italiano). O sujeito é um agente funerário conformado com sua rotina e só canta no chuveiro – incondicionalmente. Allen, porém, bola um mirabolante plano para torná-lo um astro.

O que se salva afinal em ‘Para Roma, com Amor’? Mesmo no piloto automático, Allen é sempre um bom escritor. Em meio à aparente mediocridade, surgem tiradas brilhantes. Note os detalhes que expõem a personagem de Ellen Page ao ridículo; a histriônica frustração pós-fama de Benigni; ou a cena surreal em que Armiliato é levado ao público dentro de um Box de chuveiro.

Pode ser um sério passo em falso na fase europeia de Woody Allen, mas não necessariamente um desperdício de tempo.

* Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário. [email protected]

Categorias:Quebra Torto

1 Comentário

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  1. - IP 200.17.60.247 - Responder

    FILME ENCONTRADOS EM VIDEOLOCADORAS, EM CUIABÁ? QUAIS E ONDE FICAM? PELO QUE SEI, ESSE TIPO DE COMÉRCIO FOI ENGOLIDO PELA INTERNET E OUTRAS TECNOLOGIAS DE ACESSO… “K” PRA NÓS: OS FILMES DE WOOD ALLEN SÃO UMA M…..MAS OS TEXTOS DE GUSTAVO OLIVEIRA, ESSES SIM, SÃO BONS…

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