DEU NO THE GUARDIAN, DE LONDRES: A noção de que concursos de beleza não são nada mais do que uma oportunidade para cobiçar lindas mulheres com pouca roupa e jogá-las umas contra as outras tem sido exposta há algum tempo. Parece estranho que durante uma época em que talvez em breve possamos ter a primeira mulher na presidência dos Estados Unidos e em que o feminismo está culturalmente mais poderoso do que nunca, nós ainda não sabemos como acabar com uma coisa tão obviamente misógina e retrógrada como concursos de beleza

miss_universo na pagina do eConcursos de beleza são vergonhosos

Tais eventos não são nada mais do que uma oportunidade para cobiçar lindas mulheres com pouca roupa e jogá-las umas contra as outras – então por que isso ainda existe?

O momento mais vergonhoso do concurso Miss Universo essa semana não foi quando o anfitrião Steve Harvey nomeou a vencedora errada ao vivo – mas sim o fato de que em pleno 2015 ainda existam concursos em que mulheres desfilam de biquíni pela honra de ganhar uma faixa e uma tiara. Isso sim é verdadeiramente vergonhoso.

Harvey não conseguiu distinguir uma mulher bonita da outra e isso é quase poético, porque em concursos como Miss Universo, Miss América e Miss Estados Unidos, as mulheres sequer são vistas como indivíduos.  Elas são literalmente símbolos – sem um nome além do estado ou do país que estão representando. São eventos que expõe mulheres como seres substituíveis, disputando pelo direito de ser o objeto mais brilhante de todos.

Esses concursos são um lembrete antiquado de exatamente tudo o que nós não queremos para as mulheres, e eles não podem ter lugar em nosso futuro.

A noção de que concursos de beleza não são nada mais do que uma oportunidade para cobiçar lindas mulheres com pouca roupa e jogá-las umas contra as outras tem sido exposta há algum tempo. Apesar das antigas reivindicações de que os concursos como Miss América são uma importante fonte de bolsas de estudos para jovens mulheres, a verdade é que eles oferecem somente uma fração do dinheiro que divulgam.  As mulheres que participam desses eventos estão muito mais propensas a gastar mais dinheiro do que lucrar com a empreitada – o custo dos vestidos, cabelo e maquiagem, as taxas de participação e muito mais são responsabilidades das participantes.

Os próprios concursos – além da competição de biquínis que é explicitamente ridícula – têm regras e políticas que deixam claro que o valor de uma mulher está fortemente ligado à sua sexualidade e habilidade de se encaixar em um modelo bem estreito de feminilidade.  Foi somente em 1999 que o Miss America finalmente eliminou uma regra de “pureza” que proibia participantes que fossem divorciadas ou tivessem tido um aborto, por exemplo, e o concurso ainda tem cláusulas bem rigorosas de “moralidade”.

Em 2002, a Miss North Carolina Rebekah Revels foi forçada a entregar sua coroa depois que foi divulgado que seu namorado tinha tirado fotos dela de topless, e após se tornar Miss Estados Unidos em 2006, Tara Conner de Kentucky se envolveu em um escândalo porque ela era vista em clubes, consumia bebidas alcoólicas e talvez teve algumas escapadas sexuais. Como ela ousa?

E então o coproprietário do concurso Miss America, Donald Trump, perdoou Conner publicamente e a enviou para uma clínica de reabilitação.  “Eu sempre acreditei em segundas chances, ” disse ele naquela época. Mais tarde, Trump relatou que estava considerando dar sua “permissão” para Conner posar para a Playboy. Exibir seu corpo não tem problema, pelo jeito, desde que o homem no comando dê sua permissão.

Apesar do progresso que mulheres fizeram ao longo dos anos, ainda há vários lembretes do quão longe ainda precisamos ir. E as feministas estão lutando por questões importantes – como a disparidade salarial e a violência sexual – há décadas.

Mas parece estranho que durante uma época em que talvez em breve possamos ter a primeira mulher na presidência dos Estados Unidos e em que o feminismo está culturalmente mais poderoso do que nunca, nós ainda não sabemos como acabar com uma coisa tão obviamente misógina e retrógrada como concursos de beleza.

*Artigo originalmente publicado no The Guardian, traduzido por Vanessa Ribeiro.

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