DEU NO OPÇÃO – Lulismo se firma como força política e desafia Dilma. Lulismo é uma forma de ser petista, acima do PT

Mito Populista
Lulismo, o filho do mensalão

Lula já foi um operário que o PT e as universidades imaginavam poder controlar, mas, depois do mensalão, ele transcende as instituições e as destrói
Ex-presidente Lula da Silva — que conseguiu sair incólume de todas as investigações instaladas em seu governo — sabe que o governo Dilma Rousseff, diante de uma oposição raquítica, não deve ser abalado pela CPI Mista do Cachoeira

José Maria e Silva
JORNAL OPÇÃO – DE GOIANIA

Espécie de hecatombe política que po­de atingir indistintamente governo, oposição, iniciativa privada e até o Judiciário, a CPI Mista do Cachoeira, instalada no Con­gresso Nacional, está sendo vista por muitos formadores de opinião como uma grande oportunidade para se passar o Brasil a limpo. Historicamente, a Nação brasileira tende a depositar suas esperanças em marcos salvacionistas e, desde a redemocratização do País, não faltaram episódios dessa natureza. A Lei da Anistia, promulgada em 18 de agosto de 1979, a Constituição da República, promulgada em 5 de outubro de 1988, e a campanha pelas Diretas-Já, que passou pela vitória de Tan­credo Neves no Colégio Elei­toral, em 1985, e culminou com a eleição de Fernando Collor para presidente em 1989, são alguns desses eventos.

Por absorver as esperanças da nação, todo evento que se transforma em marco salvacionista deixa a própria história em suspenso, como se o País fosse recomeçar do zero. A luta pela anistia, por exemplo, alimentou a ilusão de que homens como Miguel Arraes e Leonel Brizola, Mauro Borges e Iris Rezende, ou mesmo um Luiz Carlos Prestes, iriam mudar a história do País, fazendo justiça aos humildes e domando a crescente carestia deflagrada pela crise do petróleo de 1973, aos poucos transformada em inflação, na medida em que o jargão dos tecnocratas penetrou na linguagem popular. Com a volta dos exilados e a retomada dos direitos políticos dos cassados, as esperanças da Nação voltaram-se para as eleições diretas dos governadores, que colocou no poder grandes líderes da oposição como Tan­credo Neves (Minas Gerais), Leonel Brizola (Rio de Janeiro), Franco Montoro (São Paulo), José Richa (Paraná) e Iris Rezende (Goiás).

Mas a realidade logo se sobrepôs à esperança. Os governadores eleitos pelo voto direto em 15 de novembro de 1982 — e empossados em 15 de março de 1983 (quatro meses depois, segundo a legislação eleitoral da época) — enfrentaram, de imediato, graves crises sociais. O peemedebista Franco Montoro — jurista e professor altamente respeitado, que fora ministro do Trabalho e Previdência do gabinete do primeiro-ministro Tancredo Neves, no governo Goulart, e seria um dos fundadores do PSDB — teve de enfrentar uma verdadeira baderna nas ruas com apenas 21 dias de governo. Uma manifestação contra o desemprego, iniciada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, em 4 de abril de 1983, degenerou em saques a supermercados, envolvendo cerca de 2,5 mil pessoas ao longo de seis horas. As manifestações terminaram com a turba atacando o próprio Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, e derrubando parte das grades de proteção do prédio, sob o comando do PT de Lula e do PC do B de João Amazonas, fazendo com que o presidente João Figueiredo colocasse o 2º Exército de prontidão. Saques do gênero iriam se repetir no Rio de Janeiro e em outras cidades do País.

Desculpas para o fracasso

Obviamente, a eleição dos governadores não significou a esperada redenção do País, mas havia uma desculpa para o fracasso — o presidente da República não fora escolhido pelo voto direto, o que engessava os governos eleitos democraticamente nos Estados. Foi aí que a esperança mudou novamente de lugar, sendo depositava no ambicioso horizonte das Diretas-Já, que, entre maio de 1983 e abril de 1984, mobilizou milhões de pessoas em todo o País, culminando no comício do Anhangabaú, em São Paulo, em 23 de abril de 1984, que contou com a participação voluntária da Orquestra Sinfônica de Campinas, sob a regência do maestro Benito Juarez, executando a 5ª Sinfonia de Beethoven. Dois dias depois, a emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente da República, foi reprovada no Congresso Nacional, como uma ducha de água fria na efervescência da Nação.

Coube ao astucioso Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, renovar as esperanças do País, promovendo nova arregimentação nacional, desta vez em prol da eleição do presidente da República pelo Colégio Eleitoral. Ao contrário do deputado federal Ulysses Guimaraes, legendário líder do PMDB, Tancredo Neves movimentava-se melhor nos bastidores do poder do que nas praças públicas e soube aproveitar a grande rejeição de Paulo Maluf, pré-candidato do PDS, para angariar apoio entre os descontentes do partido governista, especialmente entre líderes do Nordeste, que não engoliam a candidatura do ex-governador de São Paulo. Com isso, Tancredo foi eleito no Colégio Eleitoral, mas sua morte antes da posse foi uma nova decepção para o País, abortando, na prática, a Nova República, como se convencionou chamar esse período. Sarney, vice empossado presidente, não desfrutava da mesma popularidade que Tancredo conseguiu legitimar durante a campanha, por meio de uma grande e discreta capacidade de articulação.

Essa é, aliás, uma das explicações para o fracasso do governo Sarney, que apostou todas as suas fichas no combate heterodoxo da inflação. O congelamento de preços implantado pelo Plano Cruzado, em 28 de fevereiro de 1986, derrubou a inflação de 517% para 51% em seus dois primeiros meses, devolvendo o entusiasmo aos brasileiros, que se transformaram em “fiscais do Sarney”. Mas a alegria durou pouco e, já em meados do ano, o governo teve de promover ajustes no plano, também infrutíferos — tanto que no primeiro bimestre de 1987 a inflação já estava em 337% e, quando Sarney passou o comando do País a Fernando Collor, em 15 de março de 1990, ela já era da ordem de 80% ao mês ou 1.000.000% nos últimos cinco anos anteriores à sua posse.

Convulsões sociais

Se Tancredo Neves não tivesse morrido, a Nova Re­pública seria diferente? Em tese, sim, pois, além da legitimidade de presidente eleito, ainda que de modo indireto, Tancredo mostrou competência administrativa no governo de Minas Gerais, tanto que não enfrentou distúrbios tão graves como os saques de supermercados que ocorreram em São Paulo e Rio de Janeiro. Mais à direita do PMDB do que o próprio Ulys­ses Guimarães, Tancredo Neves montou um governo heterogêneo em Minas, com figuras que tinham livre trânsito entre os militares, políticos oriundos do PDS e militantes do PMDB “autêntico” mais próximos da esquerda. Negociando diretamente com o presidente João Figueiredo, Tancredo Neves conseguiu rolar a dívida de seu Estado e, com financiamento externo junto aos bancos internacionais, pôde dedicar-se à realização de obras.

Quando se desincompatibilizou do governo mineiro, com 17 meses de mandato, para se candidatar a presidente pelo Colégio Eleitoral, Tancredo deixou um saldo positivo no governo de Minas. Mas ninguém garante que conseguiria repetir esse feito como presidente da República, a despeito de ter sido esse o sentimento predominante na maioria da Nação, que apostava todas as suas esperanças no velho político mineiro. Na época, outros presidentes eleitos com a onda de redemocratização na Amé­rica Latina também fracassaram, como é o caso do presidente argentino Raul Alfonsín. Eleito em 1983, Alfonsín re­nunciou ao cargo em 1989, cinco meses antes da conclusão de seu mandato, tal era o caos a que chegara o Plano Austral, primo-irmão do Cruzado.

As convulsões sociais que sacudiram os países da América Latina no período imediatamente posterior à redemocratização do continente, especialmente no Brasil e na Argentina, podem ser vistas como causa da efervescência popular desse período, levando o povo a não abandonar as ruas. Mas também se pode pensar numa hipótese contrária: o excesso de mobilização popular é que fomentou demandas impossíveis de serem atendidas por qualquer governo, daí o fracasso de Sarney e Alfonsín. A adoção de planos econômicos heterodoxos, como o Plano Cruzado, antes de alimentar a convulsão das ruas era também consequência de um modelo político voltado para a universalização de direitos sem jamais admitir a individualização das responsabilidades.

Esquerda carnavalizada

Esse mundo parece ter voltado. Mas com outra cara. Já não se luta por direitos universais, mas por particularismos exóticos, como a liberação da maconha, o casamento gay, a permissividade sexual. No Brasil, o PT é o mestre-sala desse esquerdismo carnavalizado e, com o antropofagismo que o caracteriza, saberá tirar proveito da CPI do Cachoeira para avacalhar ainda mais as instituições. Não será difícil, dado o Estado em que o próprio Judiciário se encontra, a começar pelo Supremo Tribunal Federal, transformado numa versão jurídica do BBB desde que os ministros passaram a julgar sob os holofotes da TV. Como sempre ocorre em todas as CPIs, a primeira vítima será o próprio Poder Legislativo, que ficará ainda mais desmoralizado, saindo dela menor do que entrou, à revelia de expurgar alguns corruptos. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — grande mentor da CPI do Cachoeira — sabe disso. Ele percebeu que o governo perderá pouco com essa CPI e que ela pode ser o tiro de misericórdia nas instituições, deixando o caminho livre para o projeto de poder do PT.

Carismático e primitivo

Se o próprio Lula conseguiu sair incólume de todas as CPIs instaladas durante seu governo, mesmo diante de uma oposição mais arrojada, por que o governo Dilma Rousseff será abalado por uma oposição raquítica, que caminha para a extinção? Só a oposição — e, consequentemente, o País — tem a perder com a CPI do Cachoeira. A oposição já não tem nem anéis que possa entregar para preservar os dedos, enquanto o governo petista tem gordura de sobra para queimar. É pouco provável que Lula esteja preocupado em preservar Agnelo Queiroz, por exemplo, caso o sacrifício do governador de Brasília seja o preço a pagar pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, e pelo eclipse total do mensalão. Num momento muito mais sensível de seu governo, Lula não hesitou em sacrificar uma figura como José Dirceu — e esse corte na própria carne (uma vez que Dirceu foi o grande arquiteto de sua chegada ao poder) o fez mais forte.

A rigor, se o Lula que chegou ao poder era filho dos movimentos sociais, alimentados pela esquerda acadêmica e pelas pastorais da Igreja Católica, o Lula que deixou o governo é um mito criado pelas universidades e consolidado pela própria oposição, que perdeu a oportunidade de desconstruí-lo. O que não mata, engorda, diz o provérbio. Como a oposição teve medo de matar o mito quando o mensalão lhe apresentou essa oportunidade, Lula saiu mais fortalecido e a oposição, desnorteada. No fundo, o mensalão libertou Lula de seus próprios limites e consolidou o lulismo. Se antes Lula era o operário que o PT e as universidades imaginavam poder controlar, depois do mensalão ficou muito claro que Lula transcende as instituições — e as destrói.

Assim como Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingos Perón, na Argentina, Lula consolidou uma posição de mito na sociedade brasileira, fazendo com que suas idiossincrasias valham mais do que as instituições. O mito é essencialmente carismático e primitivo. Ele não se coaduna com a racionalidade que caracteriza o Estado moderno, descrito pelo sociólogo alemão Max Weber ao teorizar sobre a burocracia. O grande avanço técnico, político e científico do Ocidente — que permitiu não só o advento do capitalismo, mas também a garantia dos direitos fundamentais da pessoa humana — é decorrência desse Estado moderno que se coloca a serviço da razão. Ele se fundamenta em leis e contratos, que possibilitam a autonomia dos cidadãos, e não no carisma do governante, que forja a obediência dos súditos.

Desde que assumiu o poder, Lula vem desconstruindo todas as instituições, do Congresso Nacional ao Poder Judiciário, passando pelos partidos políticos e universidades públicas. Convém lembrar que quando Lula foi eleito, em 2002, as instituições brasileiras estavam em fase embrionária, com apenas 14 anos de vida, uma vez que tinham sido sedimentadas na Constituição de 88. O Ministério Público, por exemplo, nasceu de novo, tornando-se praticamente um quarto Poder, que passou a substituir a imprensa como “ombudsman” do Estado. Ainda na oposição, o PT já exercia enorme influência no Ministério Público, que, muitas vezes, funciona como uma espécie de braço estatal das esquerdas.

Em seus dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso muito fez para institucionalizar o Brasil, mas, como bom tucano, não percebeu (ou fingiu não perceber) que, ao fazê-lo, incrustava a esquerda nos próprios alicerces do Estado brasileiro, antes mesmo que o PT obtivesse o poder formal. Por isso, é muito fácil para Lula desinstitucionalizar o País sem dar na vista. Quem poderia julgá-lo — a burocracia acadêmica que opera o Estado com seus professores, advogados, magistrados, intelectuais etc. — é sua aliada histórica e essa aliança saiu reforçada justamente pelo escândalo do mensalão, que levou à queda de José Dirceu e chegou a ter na filósofa Marilena Chauí, decana da USP, uma espécie de ideóloga informal.

Ideologia na educação

Um exemplo da desinstitucionalização do Brasil promovida pelo presidente Lula foi a que ocorreu na educação. O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) talvez seja o caso mais sintomático. Criado pelo ministro Paulo Renato de Souza, quando esteve à frente do MEC no governo Fernando Henrique Cardoso, o Enem foi totalmente reformulado no governo Lula, transformando-se numa espécie de vestibular oficial e único. Em suas três edições realizadas sob o comando de Fernando Haddad ocorreram graves problemas que geraram protesto de estudantes, acarretaram demandas na Justiça e feriram profundamente a credibilidade do exame. Entretanto, como o governo Lula e o de sua sombra (Dilma Rousseff) têm o apoio das entidades estudantis e contam com a simpatia da maioria dos docentes, os protestos estiveram muito aquém da gravidade do problema.

Quando se viu acossado pelas críticas ao livro que ministra erros de português aos alunos, Fernando Haddad, em depoimento no Senado, acusou seus críticos de não terem lido a obra e afirmou: “Porque existe uma diferença entre Hitler e Stalin que precisa ser devidamente registrada. Ambos fuzilavam seus inimigos, mas Stalin lia os livros antes de fuzilá-los” — disse o ministro, de dedo em riste, escandindo as sílabas, com um tom professoral que depunha contra a ironia que quis imprimir à frase. Imaginem se fosse o economista Paulo Re­nato de Souza, ministro da Educação de Fernando Hen­rique Cardoso, a fazer esse tipo de afirmação. No mínimo teria de pedir desculpas, sob pena de obrigar seu chefe a demiti-lo, tais seriam os protestos em todo o País.

Haddad não corre esse risco. Tanto que deixou o MEC para ser candidato a prefeito de São Paulo. A confiança de Lula em sua vitória é tanta que impôs sua candidatura ao PT, atropelando Marta Suplicy. José Serra que se cuide. Numa democracia normal, a gestão de Haddad no MEC já seria mais do que suficiente para sepultar seus planos de se eleger prefeito de São Paulo. Do kit gay às provas do Enem, passando pelo livro de português que ridiculariza a língua ao chancelar erros de gramática, o MEC de Fernando Had­dad tornou-se um aparelho ideológico do marxismo, exacerbando a doutrinação esquerdista já presente no MEC de Paulo Renato. Quem chegou à escola quando Fernando Henrique chegou ao poder tem hoje 19 anos e, se não foi um exótico autodidata com diploma, corre o risco de ser apenas um robô ideológico digno do cabresto eletrônico da Justiça Eleitoral, que tão bem simboliza a nossa democracia.

Categorias:Jogo do Poder

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