Cristo bíblico defendeu direitos humanos e morreu por isso

Natividade, de Piero Della Francesca

Natividade, de Piero Della Francesca

 

Natal dos Covardes

Por Marcelo Freixo

 

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Nesta quinta-feira, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”, diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, neste Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal.

 Marcelo Ribeiro Freixo (Niterói, 12 de abril de 1967) é professor e está no segundo ano do seu segundo mandato como deputado estadual fluminense pelo Partido Socialismo e Liberdade


Marcelo Ribeiro Freixo (Niterói, 12 de abril de 1967) é professor e está no segundo ano do seu segundo mandato como deputado estadual fluminense pelo Partido Socialismo e Liberdade

 

 A Descida da Cruz é um retábulo da Deposição de Cristo do pintor italiano Jacopo Pontormo, concluído em 1528. Pintado em óleo sobre madeira, está localizado acima do altar da Capela Capponi da igreja de Santa Felicita, em Florença.


A Descida da Cruz é um retábulo da Deposição de Cristo do pintor italiano Jacopo Pontormo, concluído em 1528. Pintado em óleo sobre madeira, está localizado acima do altar da Capela Capponi da igreja de Santa Felicita, em Florença.

 

1 Comentário

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  1. - IP 186.225.191.21 - Responder

    Bandido bom é bandido morto? Não, Bandido bom é o que se arrepende, mas quem não se arrepende… Jesus dá a resposta.
    Jesus não foi crucificado sozinho. Ele estava entre dois bandidos, ocuparam cruzes uma de cada lado dele (Mateus 27:38; Marcos 15:27; João 19:18). A princípio, ambos ridicularizaram Jesus (Marcos 15:29-32). Mas um deles evidentemente mudou de opinião. “Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje: estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:39-43). Apesar da história criminosa deste bandido, ele se arrependeu. Antes, ele tinha se juntado às pessoas zombando e insultando Jesus. Mas, sofreu um impacto na sua consciência, ele mudou e começou a defender o Jesus. É difícil mudar, é duro admitir que estamos errados. É muito mais fácil continuar nos velhos hábitos e ser levado pela onda, pelos modismos. Mas um bandido mudou de direção e começou a nadar contra a corrente. Confessou sua culpa E ainda admitiu que o sofrimento dele e do outro bandido foi justo. É sempre assim, gostamos de transferir a culpa para os outros. As pessoas são verdadeiros artistas na hora de fugir da responsabilidade por suas ações, culpam sempre os pais, os amigos, a natureza, as drogas, a sorte…
    Um dos bandidos defendeu Jesus, reconheceu Sua inocência. Quem sabe já sabia de algo sobre ele anteriormente, talvez o tivesse ouvido discursar ou mesmo tivesse-o conhecido pessoalmente. Ele reconheceu o escárnio e o deboche do outro como injusto e o reprovou.
    Um dos bandidos se arrependeu e pediu socorro a Jesus, se humilhou. Não gostamos de nos humilhar e de admitir nossa necessidade. Muitos, mesmo em circunstâncias desesperadoras, como o outro infrator, continuam a manifestar seu orgulho e auto-suficiência. Mas Jesus vai exaltar somente aqueles que se humilham e pedem sua ajuda e se arrependem. Não, não é bem assim. Jesus andava com infratores, prostitutas, para que se arrependessem. Mas não vamos esquecer, Jesus andava também com influentes, bem sucedidos, também necessitados de arrependimento. Só sei que bom o exemplo deste bandido mostra claramente os nossos fracassos. Será que somos tão bons como o fora da lei arrependido? Havia dois bandidos, um deles salvo, o outro morto.

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