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PÉ EM DEUS E FÉ NA TÁBUA – "O Deus da Bíblia é vingativo, rancoroso, má pessoa e não é confiável", declara escritor José Saramago, de 86 anos

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O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, voltou a criticar a Bíblia nesta quarta-feira, reavivando a polêmica levantada por seus comentários por ocasião do lançamento de seu novo livro, "Caim".

O romancista português, conhecido por suas posições de esquerda e seu gosto pela provocação, disse no domingo que a Bíblia é um "manual de maus costumes". Seu mais recente livro conta, com bastante ironia, a história de Caim, filho de Adão e Eva que matou o irmão Abel.
   
Suas declarações irritaram membros da Igreja Católica, que o acusou de ter ofendido os católicos e de fazer uma "operação publicitária".

"O Deus da Bíblia é vingativo, rancoroso, má pessoa e não é confiável", declarou Saramago, de 86 anos, nesta quarta-feira.

"Na Bíblia há crueldade, incestos, violência de todo tipo, carnificinas. Isso não pode ser desmentido; mas bastou que eu o dissesse para suscitar esta polêmica", ressaltou.

"Há incompreensões, já sabemos que sim, resistências, também sabemos que sim, ódios antigos", disse Saramago, durante uma entrevista coletiva perto de Lisboa.

"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho".

E voltou suas baterias contra a Igreja.

"O que eles querem e não conseguem é colocar ao lado de cada leitor da Bíblia um teólogo que diga à pessoa que aquilo não é assim, que é preciso fazer uma interpretação simbólica, e a isto chamam exegese", estimou.

Mas, continuou, "o direito de refletir sobre isso de todos nós", e denunciou "a intolerância das religiões organizadas".

"Às vezes dizem que sou valente. Talvez seja valente porque hoje não há Inquisição. Se houvesse, talvez não teria escrito este livro. Me apóio na liberdade de expressão para poder escrever", ponderou o escritor, que diz estar preparando um novo livro para o ano que vem sobre um tema completamente diferente.

"Espero que não seja tão polêmico. No ando atrás das polêmicas. Tenho convicções e as expresso", concluiu o autor de "Ensaio sobre a Cegueira".

****************

SOBRE O NOVO LIVRO DE SARAMAGO

JOGO LITERÁRIO
José não disse nada. Saramago diz tudo

Por Deonísio da Silva em 20/10/2009
Caim, de José Saramago, 176 pp., Companhia das Letras, São Paulo, 2009; R$ 36

Ainda não li o novo livro de José Saramago. Como uma multidão de leitores que ele tem no Brasil, fui impedido de o ler antes ou simultaneamente às resenhas que dele se fazem.

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É um tremendo desrespeito ao público, pois é o leitor que sustenta a obra de um escritor, não o resenhista ou o crítico. Esta tríade – autor, obra, leitor – é que faz o processo literário. Mais uma vez, com Caim (Companhia das Letras), aconteceu a aberração. A mídia submeteu-se a caprichos da editora e adotou uma estranha estratégia: comenta o livro antes que ele chegue às livrarias.

Não sei quais os benefícios de tal iniciativa, mas a chateação é bem conhecida. Naturalmente, não faz isso com filmes, peças de teatro, músicas etc. Mas, em se tratando de livros, há uma nociva disputa de quem vai dar primeiro. É nociva para os leitores, para o público. Vários jornais e revistas não vão dar uma linha sequer a um livro que foi comentado em primeira mão por um concorrente antes que chegasse às livrarias. A conversa não foi clara e o trato não foi justo.

Assim, enquanto não leio o novo livro de José Saramago, comento outros aspectos, igualmente importantes, que cercam seu lançamento, como as imperdíveis entrevistas que seu autor dá.

Fala em profusão

Sobre o mito de Caim, em 16 de janeiro de 2002 escrevi aqui: "Caim matou o irmão Abel e com uma única pedrada dizimou uma quarta parte da raça humana. O nosso primeiro e mais emblemático assassino é também, visto de um mirante estatístico, o maior genocida de todos os tempos. De todos os tempos e em todos os sentidos, pois inclui também os imemoriais tempos lendários, religiosos e míticos."

Tenho evitado escrever sobre a obra do único Prêmio Nobel que as literaturas de língua portuguesa conquistaram até hoje. Nem bem leio um novo livro de José Saramago, recomendo-o imediatamente. E atualmente posso fazer isso a mais de 200 mil alunos da Estácio – mais de 100 mil apenas no Rio de Janeiro – espalhados por 16 estados do Brasil onde a instituição mantém cursos superiores.

Fico tão embascado após a leitura de seus livros que não me saem resenhas, saem panegíricos. Com exceção de A Jangada de Pedra, para mim um livro menor e sem a criatividade que marca sua narrativa, todos os outros romances me fascinam e encantam. Uns mais do que os outros, é claro. Quando me perguntam qual o melhor romance de José Saramago, respondo sem pestanejar: Levantado do Chão. Mas isso são gostos e, gostando ou não leitores ou críticos, cada livro segue seu caminho. E Caim seguirá o dele.

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José Saramago não apenas escreve bastante: ele fala em profusão. E naturalmente, corajoso como é, divide os que o ouvem e o lêem. Ao contrário de São José, que não diz uma única palavra em toda a historiografia católica, temos um José nada contido, que fala também por muitos outros josés, incluindo o seu santo onomástico.

"Só peço respeito"

Em entrevista a Mànya Millen (O Globo, 17/10/09), ele disse: "Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade". Trata-se de um tremendo equívoco histórico do nosso Prêmio Nobel. É verdade que todas elas perpetraram atos dos quais a Humanidade tem muito que se envergonhar. Mas, ficando apenas no Antigo Testamento, no Gênesis, onde ele foi buscar Caim, lembremos como a ética avançou com os Dez Mandamentos. E, pulando para o Novo Testamento, lembremos como Jesus, herdeiro do Antigo Testamento e dileto filho do judaísmo, ao preferir o novo mandamento – "amai-vos uns aos outros como eu vos amei" – criou um novo e insuperável paradigma para a convivência com o próximo.

José Saramago, a propósito da verdadeira campanha em curso no mundo para desacreditar as religiões, que inclui o endosso de personalidades como os cientistas Richard Dwakins e Cristopher Hirtchens, diz entretanto: "Por mim, não o faria. É praticamente impossível convencer alguém a virar as costas às suas crenças. Limito-me a escrever o que penso do assunto e deixo aos leitores a inteira liberdade de fazer o que entendam. O único que peço para mim é respeito."

Livro fundamental

Na mesma página, o jornalista e escritor espanhol Juan Arias, com formação em filosofia, teologia e línguas semíticas, correspondente de El País por catorze anos no Vaticano, ao resenhar Caim, diz: "O homem e apenas o homem é, definitivamente, o deus de Saramago – o homem vítima dos poderes tirânicos, o homem humilhado pela religião, o homem escravo de seus mitos, começando pelo mito de Caim e Abel que Saramago converte num jogo literário".

E Saramago encerra a entrevista a O Globo com estas palavras: "Considero este livro fundamental, quer na minha bibliografia, quer na minha vida".

Eis mais um bom motivo para ler seu novo romance.

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LUIZ CLÁUDIO: Devemos ouvir a população sobre VLT ou BRT

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A troca do VLT pelo BRT

* Luiz Claudio

Em seu primeiro discurso, após receber o resultado da última eleição, o prefeito Emanuel Pinheiro deixou claro que a gestão do Município sempre estará disponível para debater todas as ações que melhorem a vida da população cuiabana. Acontece que, para que um debate realmente seja uma verdade, esse processo necessariamente deve cumprir etapas como argumentar, ouvir, analisar e, por fim, tomar uma decisão em conjunto.

Essas etapas, essenciais principalmente em assuntos que envolvem mais de 600 mil pessoas, até o presente momento, continuam sendo completamente negligenciadas pelo Governo do Estado de Mato Grosso. O recente caso da troca do Veículo Leve sobre Trilho (VLT) pelo Bus Rapid Transit (BRT) é um grande exemplo dessa dificuldade que a Prefeitura de Cuiabá tem encontrado quando se depara com demandas em que o Executivo estadual está envolvido.

Agora, depois de tomada uma decisão individualizada, se lembraram que existem as Prefeituras Municipais. Com convites para reuniões, as quais o Município não terá nenhuma voz, tentam criar um cenário para validar um discurso de decisão democrática que nunca existiu. Por meio da imprensa, acompanhamos declarações onde se é cobrada uma mudança de postura da Prefeitura de Cuiabá. Mas, qual é a postura que desejam da Capital? A de subserviência? Essa não terão!

Defendemos sim um diálogo. No entanto, queremos que isso seja genuíno. Um diálogo em que as decisões que envolvam Cuiabá sejam tomadas em conjunto e não por meio da imposição. De que adianta convidar para um debate em que já existe uma decisão tomada? Isso não passa de um mero procedimento fantasioso, no qual a opinião do Município não possui qualquer valor.

Nem mesmo a própria população, que é quem utiliza de fato o transporte público, teve a oportunidade de ser ouvida. Isso não é democracia e muito menos demonstração de respeito com aqueles que depositaram nas urnas a confiança em uma gestão. Por conta dessa dificuldade de diálogo foi que o prefeito Emanuel Pinheiro criou Comitê de Análise Técnica para Definição do Modal de Transporte Público da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá.

Queremos, de forma transparente, conhecer o projeto do BRT. Saber de maneira detalhada o custo da passagem, o valor do subsídio, tipo de combustível, e o destino da estrutura existente como os vagões do VLT e os trilhos já instalados em alguns pontos de Cuiabá e Várzea Grande.

Confiamos nesse grupo e temos a certeza de que ele dará um verdadeiro diagnóstico para sociedade. Mas, isso será feito com diálogo. Como deve ser! E é por isso que o próprio Governo do Estado também está convidado para participar das discussões, antes de qualquer parecer, antes de qualquer tomada de decisão. Como deve ser!

Assim, em respeito ao Estado Democrático de Direito, devemos ouvir a população que é quem realmente vai utilizar o modal a ser escolhido, evitando decisões autoritárias de um governo que pouco ou quase nada ouve a voz rouca das ruas.

* Luis Claudio é secretário Municipal de Governo em Cuiabá, MT

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