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Casado e pai de dois filhos, pastor Marcos Gladstone, fundador da Igreja Cristã Contemporânea, diz que sofre perseguição de outros evangélicos por ser homossexual e revela: muitos religiosos escondem sua sexualidade. Para ele, “”gays não precisam de cura. Precisam de afeto”

 O pastor carioca Marcos Gladstone (na foto com seu marido, o também pastor Fábio Inácio de Souza)  comanda a Igreja Cristã Contemporânea, frequentamente basicamente por casais gays. Ele prega que Jesus Cristo se aproximou de todas as minorias em sua época. "O único segmento que Jesus excluiu foi o dos religiosos, os fariseus que bloqueavam o caminho para os céus", defende.


O pastor carioca Marcos Gladstone (na foto com seu marido, o também pastor Fábio Inácio de Souza) comanda a Igreja Cristã Contemporânea, frequentada basicamente por casais gays. Ele prega que Jesus Cristo se aproximou de todas as minorias em sua época. “O único segmento que Jesus excluiu foi o dos religiosos, os fariseus que bloqueavam o caminho para os céus”, defende.

Pastor Marcos Gladstone

“Gays não precisam de cura. Precisam de afeto”

Casado e pai de dois filhos, o fundador da Igreja Cristã Contemporânea diz que sofre perseguição de outros evangélicos por ser homossexual e revela: muitos religiosos escondem sua sexualidade

por João Loes ISTOÉ

 

O pastor carioca Marcos Gladstone, 37 anos, está vivendo o melhor momento de sua vida. Com o marido, o também pastor Fábio Inácio de Souza, 34 anos, ele acaba de inaugurar o primeiro templo da Igreja Cristã Contemporânea na capital paulista. Fundada pelo casal em 2006, ela já conta com 1,8 mil fiéis cadastrados e sete outros templos, sendo seis no Rio de Janeiro, onde fica a sede nacional, e um em Belo Horizonte. “Em São Paulo, pretendemos abrir pelo menos três vezes mais templos do que temos no Rio de Janeiro”, diz. A demanda é grande e pôde ser observada no sábado 27 de abril, durante a inauguração do templo, no Tatuapé, zona leste da cidade. Cerca de 500 pessoas, a maioria casais homossexuais, se aglomeravam no pequeno espaço para cantar e orar. Em entrevista à ISTOÉ, no seu apartamento, na região central de São Paulo, Gladstone explica como concilia a fé e os escritos bíblicos com a homossexualidade, relata a perseguição que sofreu, e ainda sofre, por parte da comunidade evangélica e faz duras críticas ao polêmico pastor Marco Feliciano: “O preço que ele vai pagar pelo comportamento que tem será acertado por Deus.”

 

Istoé – O sr. está acompanhando o caso do padre Beto, de Bauru, que foi excomungado por defender o amor entre homossexuais?

Pastor Marcos Gladstone – Sim, e, para mim, a grande novidade desse caso é que o padre veio a público com essa opinião. Vivo conversando com sacerdotes católicos, geralmente pessoas muito estudadas e preparadas, e a maioria se mostra favorável aos relacionamentos amorosos entre homossexuais. Mas nenhum tem coragem de vir a público defender a causa, como fez o padre Beto. É incrível que ele esteja sendo excomungado. Nem pedófilos a Igreja excomunga com tanta agilidade.

Istoé -Dá para conciliar doutrina cristã e homoafetividade?

Pastor Marcos Gladstone – Claro. Contra o amor não há lei, diz a Palavra, que diz também que quem ama permanece em Deus. Nesse sentido, o amor entre duas pessoas jamais poderia ser contra a doutrina cristã e contra o que Jesus pregou. Veja a história de Jesus. Ele se aproximou de todas as minorias de sua época. O único segmento que Jesus excluiu foi o dos religiosos, os fariseus que bloqueavam o caminho para os céus.

Istoé -Quem são os fariseus de hoje?

Pastor Marcos Gladstone – Marco Feliciano (pastor, deputado pelo PSC/SP e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados) é um fariseu dos tempos modernos. Ele não me representa. Na verdade ele não representa nem o Evangelho. Ele pode até representar alguns evangélicos, mas o Evangelho, jamais. Não faz sentido ele liderar uma comissão de minorias tendo feito os discursos que fez. Mas a indicação a esse cargo tem um lado bom. Ela tem gerado grande inconformismo do povo com esse tipo de líder evangélico, alienado e distante da verdadeira mensagem de amor de Jesus, que já não anda no meio do povo, mas sim de jatinho. Que vive como os fariseus, que esqueceram dos excluídos. O preço que ele vai pagar pelo comportamento que tem será acertado por Deus.

Istoé -Há trechos muito claros na “Bíblia” que condenam a homossexualidade.

Pastor Marcos Gladstone – A “Bíblia” deve ser estudada com o método crítico-histórico, ou seja, precisa ser lida dentro de um contexto. Se não fizermos isso, teremos problemas. Se seguíssemos tudo o que está na “Bíblia” à risca, não poderíamos comer carne de porco ou camarão, não poderíamos usar roupa de dois tecidos, plantar dois tipos de plantas no mesmo jardim, cortar o cabelo ou aparar a barba. Mulheres não poderiam falar dentro de uma congregação e seria justificável ter escravos. Há textos na “Bíblia” que contradizem a própria “Bíblia”. No fim, a ideia é apreender o contexto geral, a mensagem universal de amor que o texto passa.

Istoé -Mas no livro de Levítico, por exemplo, fala-se: “O homem que se deita com outro homem, como se fosse mulher, está cometendo uma abominação. Os dois serão réus de morte, e o sangue deles cairá sobre eles mesmos.” (Levítico 20:13)

Pastor Marcos Gladstone –  O livro de Levítico é um livro para sacerdotes e reúne instruções para um povo muito específico em uma época igualmente específica – os judeus entrando na terra prometida. A intenção de Deus, nesse momento, era evitar misturar seu povo com outros povos. E mais, a palavra abominação também pode ser traduzida como idolatria. Assim, a tese de preservação da pureza do povo de Deus ganha força. Se deitar com outro, nesse sentido, pode ser entendido como um ato de idolatria a quem não pertence ao povo de Deus.

Istoé – O sr. citaria esse trecho em uma pregação?

Pastor Marcos Gladstone – Durante o culto não, porque não falo sobre sexualidade nem orientação sexual no púlpito. Nem a palavra gay eu uso. Na nossa igreja, tratamos a sexualidade como algo tão natural que nem menção merece. Do mesmo jeito que não dirijo minha pregação ao negro, ao branco ou a quem tem olhos castanhos, não a dirijo a quem é gay. Não temos bandeira de arco-íris na igreja, não estigmatizamos ou separamos ninguém.

Istoé -O sr. encontrou resistência da comunidade evangélica quando criou a igreja?

Pastor Marcos Gladstone – Bastante. Os fiéis evangélicos têm coração bom, o que complica são as lideranças evangélicas, aqueles que interpretam a “Bíblia”. Eles criam arcabouços doutrinários absurdos, coisas que não estão nem no texto. Isso alimenta a resistência à nossa igreja. Nunca cheguei a ser agredido fisicamente, mas com palavras e marginalização, acontece. Já fui chamado de herege e escrevem barbaridades para a gente pelo site. Nossa sede nacional, em Madureira, no Rio de Janeiro, fica atrás da Assembleia de Deus. É a única das nossas igrejas que precisa de seguranças. Já tivemos nossa fachada pichada com passagens do livro de Levítico e há quem passe fazendo piada. Os seguranças ficam lá para acalmar os ânimos desse pessoal.

Istoé -Então o sr. não participa de eventos da comunidade evangélica, como a Marcha para Jesus?

Pastor Marcos Gladstone – Uma vez a gente até participou da Marcha para Jesus no Rio de Janeiro, mas foi traumático. Todas, absolutamente todas, as lideranças evangélicas que ministraram durante a marcha fizeram pregações agressivas contra a homossexualidade. A Marcha para Jesus é uma marcha da homofobia, não frequentamos mais.

Istoé -Tem pastor de outras denominações que procuram o sr. para aprender a lidar com a própria homossexualidade?

Pastor Marcos Gladstone – Muitos. São homens casados com mulheres, que têm filhos e são homossexuais. Certa vez, um pastor muito influente, líder de uma denominação mais antiga, me procurou com essa questão. Pai de duas filhas e casado, ele disse que queria frequentar a Contemporânea secretamente, com seu namorado. Não deixei. Ele queria viver uma mentira dentro da minha igreja, ter o melhor dos dois mundos. Também vi coisa parecida logo que me assumi gay e saí da denominação que frequentava. Passei a visitar outras igrejas e quase me estabeleci na Igreja Renascer em Cristo. Cheguei a ser procurado por um bispo de lá para entrar, formalmente, para a igreja. De cara disse que eu era gay e o bispo me garantiu que isso não era problema, que ele também era gay, mas mantinha segredo para preservar a família e o emprego. Não queria viver uma mentira e não aceitei.

Istoé -A homossexualidade entre pastores evangélicos é comum?

Pastor Marcos Gladstone – A proporção é a mesma que na população. Mas há muitos fiéis evangélicos gays. E a razão é simples – muitos acreditam na promessa de algumas denominações de que eles serão curados ou libertos da homossexualidade. É uma promessa tentadora, principalmente para gays adolescentes, porque não é fácil ser gay. Eu sei porque sofri muito, especialmente na adolescência. Entendo quem acaba caindo na promessa de cura. Mas digo logo: não funciona. Pedir a Deus a cura da homossexualidade é como orar para mudar de cor ou para fazer o olho ficar castanho.

Istoé -Quem frequenta a sua igreja?

Pastor Marcos Gladstone – No começo eram quase só jovens homens gays. Hoje, 70% do público são casais homoafetivos, muitos com filhos. Cerca de 95% são homossexuais, mas também temos heterossexuais, muitos familiares de membros gays da igreja. E faz sentido que os familiares venham. Que mãe consegue frequentar uma denominação que repete, dia após dia, que o filho dela vai para o inferno?

Istoé -Como funciona o programa da sua igreja que ajuda casais homoafetivos no processo de adoção?

Pastor Marcos Gladstone – O grupo de apoio à adoção que temos dentro da igreja é reconhecido pela Justiça do Rio de Janeiro. Como temos esse aval, todos os meses, funcionários da vara da infância, psicólogos, advogados e assistentes sociais nos visitam para tirar as dúvidas de quem quer adotar. Então a gente basicamente serve de sede para um serviço que já é prestado pela Justiça. E estimulamos a adoção de crianças dentro do perfil mais rejeitado.

Istoé -Antes da Igreja Cristã Contemporânea, o sr. tentou abrir, no Brasil, uma igreja inclusiva nos moldes da americana Metropolitan Community Churches. O que deu errado?

Pastor Marcos Gladstone – No modelo da Metropolitan, a militância pela causa gay é muito forte e a liturgia cheia de rituais que remetem ao catolicismo. O evangélico gay brasileiro é diferente. O desejo maior é ser feliz e ter uma família. Até tentamos dar uma cara brasileira à denominação, mas não deu certo. O fato de eu ter tentado criar a igreja sozinho, sem a ajuda do meu atual marido, que na época não conhecia, também pesou. Ter o pastor Fábio ao meu lado na hora de criar a Cristã Contemporânea ajudou muito. Acabamos servindo de referencial, prova de que o amor homossexual e evangélico é possível.

Istoé -O sr. tem dois filhos adotados. O processo de adoção foi complicado?

Pastor Marcos Gladstone – Por incrível que pareça, o sistema funciona muito bem e não há empecilhos para casais gays, como eu e o pastor Fábio. Para nós, a maior dificuldade, ou melhor, o maior medo, foi de os nossos filhos nos rejeitarem. Optamos por adotar crianças mais velhas, hoje com 9 anos e 10 anos, para que pudéssemos explicar um pouco o fato de que eles teriam dois pais. Mas criança não tem preconceito, são os adultos que ensinam. Felizmente, nossos filhos nos aceitaram muito bem.

Istoé -Entre 2000 e 2010, o número de evangélicos no Brasil cresceu mais de 60%. O sr. seria feliz em um país evangélico?

Pastor Marcos Gladstone – Não sei. As chances de virarmos uma Jerusalém dos tempos de Jesus, com muita opressão, farisaísmo e perseguição a grupos minoritários, são grandes. Penso que, se isso acontecesse, só se beneficiaria quem entrasse no padrão estabelecido pelas lideranças.

 

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