CARLOS HEITOR CONY: “A pergunta fundamental, a única que realmente é pergunta, pois todas as demais são respostas disfarçadas, é a da existência de Deus. Se Deus existe ou não, é problema da filosofia. Se eu creio ou não em Deus, é o meu problema”

Carlos Heitor Cony e a Deus, na "Criação de Adão", de Michelangelo

Carlos Heitor Cony e a Deus, na “Criação de Adão”, de Michelangelo

Deus

por CARLOS HEITOR CONY

 

RIO DE JANEIRO – A pergunta fundamental, a única que realmente é pergunta, pois todas as demais são respostas disfarçadas, é a da existência de Deus. Se Deus existe ou não, é problema da filosofia. Se eu creio ou não em Deus, é o meu problema.

Ao terminar um romance coloquei na boca de um personagem a frase que podia ser minha: “Deus acabou”. Friso: não fiz o personagem afirmar: “Deus não existe”. Ou: “Não creio em Deus”. Faço-o dizer como eu mesmo me digo nas horas de angústia e tédio: Deus acabou.

Nos idos do passado, fui participar de um programa de TV apresentado por Ary Barroso, que mantinha uma espécie de debate sobre determinado assunto. Fui lá com o Austregésilo de Athayde debater a emocionante questão: Deus existe? Austregésilo defendeu a afirmativa, a mim coube defender a negativa.

Evidente, discutiu-se uma tese e não um problema pessoal. Ressuscitamos velhas questões, os argumentos de causalidade, os cinco famosos argumentos de São Tomás, a tese da realidade manifesta. O debate foi erudito e não se chegou a nenhuma conclusão. Athayde saiu de lá crendo, eu saí não crendo e Ary Barroso saiu ora crendo, ora não crendo.

Posso hoje confessar: não fui sincero naquele programa. Não que realmente acredite em Deus, mas escamoteei meu verdadeiro pensamento. Não me interessa saber se Deus existe ou inexiste. O que importa é que Deus acabou para mim. Tive Deus e gastei Deus demais. Fui um perdulário de Deus. Errei nos meus cálculos. Gastei demasiadamente um capital inesgotável. Ora, cada um de nós tem uma determinada quota de Deus. Meu capital não era tão grande como pensava, e gastei muito e depressa.

Como o filho pródigo, fui impaciente e me atirei a gozar a fundo. Um dia, amanheci pobre e nu, disputando com os porcos os restos de comida que sobravam da mesa dos mais prudentes.

 

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CARLOS HEITOR CONY, escritor e jornalista, é colunista da Folha de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras. Publicou os seguintes romances:  1958 – O Ventre; 1959 – A Verdade de Cada Dia; 1960 – Tijolo de Segurança; 1961 – Informação ao Crucificado; 1962 – Matéria de Memória; 1964 – Antes, o Verão; 1965 – Balé Branco; 1967 – Pessach: A Travessia; 1973 – Pilatos1995 – Quase Memória;   1996 – O Piano e a Orquestra; 1997 – A casa do Poeta Trágico; 1999 – Romance sem Palavras; 2001 – O Indigitado; 2003 – A Tarde da sua Ausência; 2006 – O Adiantado da Hora; 2007 – A Morte e a Vida.

 

 

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OUTRA OPINIÃO

DEUS COMO OBJETO DO CONHECIMENTO

por Henrique M. Eisenberg – Graduação em Filosofia PUC-Rio

 
Pode-se afirmar que um dos conceitos mais usados na história da filosofia, e talvez o que tenha tido o maior número de acepções seja o conceito de um deus. Não vou aqui me deter na faceta devocional que se insere nas diversas denominações religiosas que trazem este conceito de deus ao âmbito da adoração, que se baseia num tipo de “espanto”. Este “espanto”, no entanto, tem diferenças com o da filosofia e os argumentos racionais que esta tenta aplicar, calcados em definições as mais precisas possíveis, dando pouca vazão a incertezas. Certo? Nem tanto.

O que é um quadrado perfeito? Poder-se-ia estabelecer como o quadrado com o maior número de lados possível. E o quadrado mais perfeito? O que teria infinitos lados. Posso imaginar? Não, mas posso dizer que há um quadrado com infinitos lados. Mero jogo de palavras, pois o quadrado tem em sua própria definição a existência de apenas, somente, unicamente, inequivocamente, quatro lados, o que faria de um quadrado com infinitos lados uma inconsistência lógica, uma impossibilidade.

O quadrado, no entanto, tem uma definição. E Deus? Tem alguma definição? Não. Apenas se define como o superlativo de tudo o que podemos alcançar com nossa compreensão. Como, então, parametrizá-lo com alguma definição que possa circunscrevê-lo na existência? Como balizar que exista ou não, se ele é único? Como, afinal, conhecê-lo?

O conceito filosófico de Deus, sendo ele único, autoconsistente, absoluto, poderá ser aproximado, ou mesmo identificado, ao conceito de verdade? Neste caso a existência de Deus estaria assegurada caso a verdade existisse, mas sabemos que a verdade tem várias concepções (correspondentista, coerentista, etc) que, por sua vez, frequentemente são mutuamente exclusivas (=ou uma ou outra, mas não ambas). Deus não pode ser enquadrado simultaneamente em todos esses tipos de verdade, pois não aceitaria, por definição, condicionantes. Em tese nada pode “enquadrá-lo”, exceto se for indubitável e tiver outros atributos que se confundem com o próprio Deus.

Vivendo em um mundo de relatividades, não temos como compreender algo que se quer absoluto e, caso este absoluto fosse possível, ele estaria tão inacessível quanto o não-ser de Parmênides. No mesmo momento em que o absoluto se fizesse presente no relativo, ele se relativizaria e perderia sua condição original: o absoluto é indivisível, não é composto de partes. O ser parmenídico não se mescla ao não-ser, não se transforma nele, ou vice-versa: é avesso a essa dialética. Mas, pode-se perguntar, nosso mundo obedece a esses ditames tão antigos na filosofia? Se o não-ser não existe, faz sentido falar mesmo no ser? Será o absoluto nem tão absoluto assim? Será Deus nem tão grande assim? Ou seu infinito não poderá apenas sê-lo frente à nossa finitude e, por conseguinte, falhar em alguma explicação mais básica do que aquelas que conseguimos pronunciar?

Deus está firmemente atrelado ao conceito de infinito. A tentativa de se colocar o infinito como um dos apanágios de Deus soa apenas como um toque de incompreensibilidade, que nos faria simplesmente sentirmo-nos pequenos frente a uma imensidão incalculável e incompreensível, mas que teria em nós (sim, nós!), paradoxalmente, uma âncora fincada no espaço e no tempo. Entretanto para ele, Deus, espaço e tempo são concepções sem sentido, pois ele abarca o infinito e a eternidade, e se porventura ele criou o universo, está fora do tempo e do espaço.

Ele seria infinitamente isso ou aquilo. Por definição, Deus é superlativo. Talvez pudéssemos levar esse conceito a uma assíntota que a nossa realidade permitiria supor como possível, apesar de inatingível. Como, no entanto, sairmos do campo da possibilidade e entrarmos no campo da necessidade? O salto não é quantitativo: é qualitativo. Como, com nossas limitações óbvias de seres finitos, poderíamos aceitar como explicação algo que não podemos nem imaginar, apenas vislumbrar numa penumbra tão distante, quanto o infinito? Por último, de qual infinito estaríamos falando ao citar Deus? Há infinitos tipos de infinitos, e não apenas aquele que se faz somando-se indefinidamente 1 ao próximo número. Este é o menor dos infinitos, mas é exatamente aquele que temos em mente ao pensarmos em algo tão grande. Eis o ponto: pensamos em algo grande, o “mais grande” possível, tão grande quanto a nossa admiração permite supor, afinal qualquer causa que possa ser a explicação de tantos inexplicáveis deveria ser o maior dos inexplicáveis. Como então vê-lo como o maior dos explicadores?

Essas dúvidas pairam sobre grandes pensadores ao longo dos séculos, cada qual com sua resposta, e se até hoje ainda há uma busca, é porque presumivelmente nenhuma dessas respostas satisfez.

Seria Deus um artifício da linguagem, podendo apenas ser pensado a partir dela? Neste caso, sua verdade seria apenas aquela que pudesse ser pronunciada e que pudesse ter valores de verdade. Deve-se lembrar que a mera descrição não basta para se inferir uma relação causal, ou mesmo funcional: não basta um pássaro ter asas para poder voar. Estamos em círculo vicioso: não podemos conceber qualquer coisa que seja exterior ao campo de alcance da linguagem. Estamos presos a nós mesmos e qualquer ente externo será apenas um artifício linguístico. Mas Deus poderia ser, literalmente, enquadrado nestes termos? Mesmo que passássemos a depender de nossa imaginação, que também está presa às mesmas rédeas, não teríamos uma saída.

Não é à toa que as crenças religiosas dão um salto nesta questão, como um Aquiles que se recusa a ficar sempre atrás da tartaruga. O salto é o que se chama de fé. Os filósofos não religiosos não aceitam tal salto, que leva a outros saltos bem engenhosos que dão a esse Deus características ou atributos que não fazem parte da explicação a que se queria inicialmente chegar. O deus a que os filósofos querem chegar não teria o menor apelo ao religioso, pois seria algo vago: uma explicação, apenas.

Será a ideia de Deus uma ideia tipicamente platônica, inalterável, existente numa realidade longínqua à qual somente podemos ter acesso sob um véu que deixa transpassar sombras? Se o fosse, como poderíamos dizer que o conhecemos, se nunca teríamos frente a nós um todo, mas apenas aquela porção que nos seria “permitida” por nossos sentidos e nosso entendimento humano? Conhecimento parcial é conhecimento? A resposta é, claro, “depende”, mas pode-se afirmar que, como não temos um conhecimento do todo de inúmeros aspectos da realidade, teríamos que admitir que se um conhecimento parcial não fosse conhecimento, não conheceríamos nada. Essa resposta talvez satisfaça uma necessidade psicológica nossa, mais do que epistemológica.

 

No caso em questão, o de um deus que tenha o infinito embutido em suas características, seria (na minha opinião) um erro gnosiológico dizer que o conhecemos, pois seria inacessível não apenas aos sentidos, mas à própria imaginação, pois ela teria como corolário a premissa que esse infinito teria uma “constância de direção” (na falta de um termo melhor) que não o faria, por exemplo, retornar a si mesmo. Neste conceito de Deus temos impregnada toda uma psicologia do infinito que o faz atingir, sempre, o inalcançável. Mas, como se quer que Deus tenha uma existência, e não seja apenas uma concepção mitificada em nossas cabeças, não podemos adaptá-lo a conjecturas que provavelmente estão historicamente em desenvolvimento, como a imensa maioria de nossas conjecturas.

 

Uma abstração secundária a uma percepção parcial (nos sentidos de: (a) não ser total, e (b) não ser imparcial, visto que distorcida pela condição humana, imersa em vontades, desejos e pré-conceitos) pode se arvorar a um estatuto de realidade ontológica que prescindiria do próprio ser humano? Santo Anselmo e outros acham que sim, mas a pré-condição é que a existência seja uma perfeição, o que é no mínimo questionável.

Será Deus um fenômeno, no sentido de que a gravidade o é? Não enxergamos os dois, mas sentimos o efeito da gravidade e muitos sentem os “efeitos” de Deus. E se o fosse, comportaria uma teoria que o justificasse e o trouxesse à existência? Essa teoria, baseada em nossos sentidos, por definição, não teria como ser qualificada como científica, mas… se os efeitos são encontrados na esfera em que nos situamos (física e mental), como poderíamos nos furtar de tentar entender de um modo organizado e metódico esse fenômeno?

Muitas são as perguntas às quais não se tem respostas e, por outro lado, há várias “respostas” às quais não foram formuladas perguntas precisas, tendo em vista a inacessibilidade dos quesitos respondidos. Isto é, há um descasamento entre nossa imanência e uma realidade que se pretende necessária.

Sempre que se estuda um fenômeno, para que possamos apreendê-lo num sistema cognoscível temos que, ao mesmo tempo em que elegemos certas características definidoras, ignorar, ou descartar, outras que não nos permitam circunscrever uma sua definição. No entanto, para tal, teríamos que conhecer todas ou, pelo menos, o máximo possível desses características para apontar quais as que seriam primordiais. Isso dependeria de uma teoria prévia que demarcaria um critério de valoração das escolhas. E no caso de Deus? Retirar algumas de suas características faria algum sentido? Mas se Deus representa ou açambarca o todo, poder-se-ia desfalcá-lo de alguma parte? Ele tem partes? Como, então, estudá-lo sem cair numa desfiguração? Nesse sentido isto não seria possível.

Que tipo de questionamentos e respostas deveríamos perseguir para podermos dizer que este ser que se busca é uma divindade e existe? Ele deveria prescindir do homem pensante para existir, apesar de que aparentemente nenhum outro animal tenha a estrutura mental para conceber algo deste nível de abstração. Isto é, Deus existiria se não houvesse alguém para pensá-lo? Se for um mero conceito, a resposta é: não. Mas, e se não fosse? Como poderíamos separar o deus sagrado dos adoradores do deus mundano dos filósofos? Como poderíamos atingir o conhecimento de algo tão indefinido e, por definição, estranho à nossa realidade? A resposta me parece ser: exceto se a imaginação fosse uma forma de conhecimento objetivo das coisas (afinal, quer-se que Deus seja um ser existente, por isso o “objetivo”: aquilo que aponta a algo classificado como objeto), é impossível conhecermos.

A “história de Deus”, como evoluindo dentro da história humana, não pode ser desvencilhada do fenômeno mental, como, aliás, todos os produtos que perpassam nosso pensamento. Mas, poder-se-ia perguntar, qual a marca que deixamos nós, humanos, numa suposta figura que simplesmente transcende a realidade onde vivemos, mas que a toca? Mesmo, supondo que houvesse um deus, seria possível acesso a ele através de um arcabouço mental que, por definição, sofre de grandes restrições? E se houvesse tal acesso parcial, como poderíamos tecer atributos ou, mesmo, existência a algo simplesmente inacessível no todo? Se não se conhece o todo, como poderíamos afirmar algo como infinito, por exemplo? Não conhecemos seu limite (ou a falta dele). Mesmo deduções lógicas e matemáticas têm em sua base premissas e axiomas. Como, então, “provar” a existência de um ser que não precisa se conter nas chamadas “leis da natureza”, pois afinal elas seriam um produto seu, e não o inverso?

O método filosófico não teria como chegar a afirmar atributos nitidamente religiosos como onisciência, onipresença e, mais ainda, infinita bondade. Por que? Porque a mera definição dos termos está sujeita a controvérsias e, principalmente, a conjugação destes três simultaneamente num único ser. A presença, o ser-no-mundo, caso seja elevada a uma presença universal, relativizaria todos os outros seres (como nós e as cadeiras) a integrantes de um conjunto de seres que convive neste Ser Geral. Se sua presença fosse a mesma que o total dos seres unitários, mesmo assim haveria o problema das partes, ou seja, uma cadeira é parte de uma escola, que é parte de uma cidade, etc, que são todos partes de Deus. O arranjo de todas estas partes seria infinito, logo Deus seria, sim, infinito. Mas ocorre um dinamismo intrínseco nas coisas, sujeitas ao tempo e ao espaço (aos quais Deus não estaria sujeito), e emperra qualquer raciocínio, pois ficamos sem âncora para iniciá-lo. Ficamos no terreno nas conjecturas, não das certezas. E conjecturas podem ser refutadas.

Obviamente não passa pela cabeça de ninguém achar que Deus seja uma hipótese científica, restritiva por definição. A onisciência é um salto maior, pois requer uma definição de conhecimento que sobrepuje a nossa biologia e nosso pensamento, pois dentre os sujeitos de conhecimento, todos aparentemente passam por uma estrutura biológica (humana ou não), mas ninguém admitiria que Deus tenha uma biologia. Ele não é um ser vivo que nasce, cresce e morre. Está “acima” das contingências dos mortais, e este termo “acima” é muito utilizado quando se quer reforçar um sentimento de humildade e, até, submissão. Deus estaria presente onde os mortais não têm como ir, tem consciência daquilo que os mortais não podem nem pensar e, mais difícil, está repleto de uma moral inacessível a nós, apesar de incompatível ao que nós percebemos no mundo em que vivemos e, por isso, desvinculada de uma realidade que é a única que podemos conhecer, pois é temporal e os atos morais se dão no tempo, ou tendo ele como referência (por ex.: “eu deveria ter feito isso ou aquilo”; “deverei fazer isto sempre que tal oportunidade ocorrer”, e por aí vai), mas tendo sempre como pano de fundo uma condição humana que me faz atuar por paixões e não por uma racionalidade infinita.

Quem, afinal, sou eu frente a Deus? Como poderia eu, um bicho, um animal que se comporta no mundo, fazer frente a uma imagem da perfeição, mesmo que ela não seja nunca definida? Como definir uma perfeição infinita num sistema como o nosso em que vivemos, em que a perfeição precisa ser vista por compartimentos, sempre segmentada, sempre comparada à imperfeição? Uma perfeição num traço específico pode levar a imperfeições se analisada sob outro ângulo. E a pergunta que pode se fazer é: existe perfeição? O que isso significa? Como posso dizer que, digamos, o amor é uma perfeição, se há vários tipos de amor, se há vários objetos para o amor? Em certos casos não podemos, mesmo, dizer que o amor é um detrimento?

E qual a imperfeição relativa à “categoria” amor: a paixão, o ódio, a indiferença, o desconhecimento do objeto, ou outro? Não é possível enquadrar uma perfeição absoluta, pois ela (por definição) é relativa à sua negação. Além do mais, quem julgaria o que é perfeição? Baseado em quê? Em uma ética? Estética? Política? Teoria filosófica? Todas estão sujeitas a críticas. O fato de se prenunciar “o mais perfeito”, caso não haja uma definição precisa quanto ao que foi dito, torna-se um mero jargão que cada um interpreta como quiser, com o arcabouço teórico que melhor lhe aprouver que, por sua vez, pode se modificar ao longo da trajetória dos seres e das teorias.

Estaríamos num impasse? Como oferecer uma solução filosófica e um estatuto ontológico a um pretenso (no sentido de “pretendido”) ser que seria o mais perfeito, infinito em suas qualidades, infinito em seu conhecimento do universo, presente em todas as instâncias e, por último, perfeitamente bom, além de imune ao tempo, por estar supostamente fora dele?

Precisaríamos ter definições filosóficas precisas sobre o que se está propondo: os termos e sua conjunção harmoniosa em um ser superlativo, ser este que não dependesse desta proposição (nem do ato de ser enunciado): que fosse o único “token” de um “type”, mas que fugiria totalmente à compreensão do mero pensar, pois não teríamos como penetrar nesta seara proibida aos nossos limites.

Um ser totalmente derivado de nosso humano “thauma” (espanto) com o mundo, assim como da constatação bem humana de tudo aquilo que vemos como nossos defeitos, teria como ser extrapolado a um ser que não fosse apenas um super-homem sem defeitos, mas que tivesse uma realidade além disso? Uma realidade “escondida”? Inacessível? E, nesse caso, o que dizer dela?

A rigor, Deus não é objeto do conhecimento humano. É o objeto de uma pergunta, de um questionamento, talvez de uma vontade. Isto, obviamente, não significa que ele não exista, mas, apenas, que é incognoscível para nós, objeto, então, de um ceticismo ou de um agnosticismo.

Por último, retirando-se, novamente, o conceito devocional, de que serviria um conceito tão amplo quanto inexplicável, tão inalcançável quanto incapaz de responder às nossas perguntas mais profundas? Difícil dizer. Por isso, ele é sempre cercado de ritos e mitos, que o tornam alcançável e fazem-no responder a certas perguntas e propor regras de conduta. Filosoficamente, ao que eu saiba, ele não oferece respostas. Seria tão magnificente, tão tudo, que não teria como se deter nas partes: ele seria o todo, e apenas o todo.

Sendo o todo, não seria nada além dele. O todo, sendo a soma das partes e de suas relações recíprocas, presente na imensidão do espaço e do tempo, prescinde de uma explicação, pois ele já é. Qualquer explicação teria que vir de fora e, então, o Todo teria que passar a englobá-la, o que tornaria Deus não transcendente, mas parte do nosso mundo tão físico, tão parte de nós, tão humano.

Deixo com vocês a resposta, se resposta existe a esta pergunta. Vou mais além: esta pergunta é uma pergunta filosófica? Eu creio que é, e se toca a tantos bilhões de pessoas pelo mundo, é porque respostas são esperadas. Ao mesmo tempo, Deus sendo o nome desta resposta, indica tanto que as angústias, tristezas, incertezas e dores pelas quais o ser humano passa são incompreensíveis sem uma figura cujo simples pronunciamento e ritualização serve de um apoio para o dia seguinte, mas também indica que, mais do que respostas, o que se aceita é que um incompreensível substitua outro, desde que seja um pouco mais sorridente e prenhe de esperança.

1 Comentário

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  1. - IP 177.158.162.96 - Responder

    De forma muito inteligente, Carlos Heitor Cony, em seu artigo DEUS, tem a certeza do perdão do Pai Celestial quando encerra o texto se penitenciando “meu capital (quota de Deus) não era tão grande como pensava e gastei muito depressa.” (…) “amanheci pobre e nu, disputando com os porcos os restos de comida que sobravam da mesa dos mais prudentes”. Demorou a reconhecer, hen?

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