BRUNO BOAVENTURA: Era mais um dia de Sol. Era mais uma manifestação em Cuiabá. Só que a cidade não pode parar, a cidade só cresce, aos estudantes que manifestam não foi oportunizado o diálogo. O que assistimos foi a Policia a mando da Reitoria dando tapa na cara, sangue no pulmão e bala de borracha na mão.

Bruno Boaventura é advogado em Mato Grosso

Era mais um dia de Sol. Era mais uma manifestação em Cuiabá. Era mais um dia de luta. Estudantes reivindicavam casa para morar, não podendo pagar, devem contar com assistência da Universidade Federal de Mato Grosso. Só que a cidade não pode parar, a cidade só cresce, aos estudantes que manifestam não foi oportunizado o diálogo. O que assistimos foi a Policia Militar a mando da Reitoria dando tapa na cara, sangue no pulmão e bala de borracha na mão.

Nesse dia em que o brilho do Sol é ofuscado, em que a força de uma escopeta de elastômero é maior do que a voz de um ideal: não tema em reagir, não se indigne apenas com palavras, mobilize para a ação.

Não deve ser o movimento estudantil, o qual invariavelmente é sempre solidário a todos os outros movimentos sociais, que será tolerante ao tapa na cara.

A face que a Polícia Militar barbaramente socoteou não é só a face de um estudante, de um cidadão, é a face de um ideal de Sociedade, de um ideal de Estado. É a face comum, é a nossa face, a de todos aqueles que acreditam que em uma Sociedade deve haver liberdade de manifestação do pensamento. É a face de todos aqueles que acreditam que em um Estado deve haver respeito a dignidade humana de qualquer pessoa, qualquer pela democracia.

O soco brutal do policial militar é a expressão da mentalidade autoritária, da enraizada mentalidade da ditadura militar que segue impune. Hoje, mais do que nunca, o Estado de Mato Grosso como uma totalidade é a exemplificação desse autoritarismo militaresco que ainda corrompe nosso cotidiano, que ainda corrompe nossa história. A Polícia Militar de Mato Grosso nunca recebeu nenhum treinamento que possa lhe permitir adequadamente lidar com uma circunstância que é própria do Estado Democrático, a liberdade do povo em manifestar. A estratégia é única e simples: borracha neles, borracha neles !

Lembro do episódio de Andreza Moraes Leria, professora membro do Comitê de Luta pelo Transporte Coletivo, covardemente atacada por policias militares em uma manifestação. Lembro do episódio de Paulo Pacheco, trabalhador membro do Comitê de Luta contra a Privatização da Sanecap, também atacado por bala de borracha. Ainda, faço questão de lembrar do episódio, em que o então Vice-Governador Silval Barbosa, em pessoa, disse no evento organizado pela RedeJur a indagação de um advogado alagoano defensor de usineiros sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST: “Por mim, o Governo tinha que sentar borracha neste povo.” Na verdade não se tratam mais de episódios, mas sim de uma reticência que haverá de perdurar se não fizermos nada.

Muito mais do que exigir a punição por abuso de autoridade, abuso de poder, lesão corporal, e crime de tortura, os movimentos sociais em sua totalidade devem reagir contra a opressão que faz possível um projétil de elastômero calar o ideal da defesa de um projeto de civilidade.

 

Bruno Boaventura é advogado. WWW.bboaventura.blogspot.com

2 Comentários

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  1. - IP 177.193.159.202 - Responder

    Meu caro Bruno, esse episódio dos estudantes da UFMT, nos faz pensar porque pagamos impostos e porque votamos.Teoricamente, pagamos impostos para que o poder público possa nos fornecer serviços, e votamos para que os políticos, tanto o legislativo quanto o executivo legislem e governem em favor do interesse coletivo. Porém, na prática não é isso o que ocorre. Uma polícia truculenta como essa (Rotam), é apenas o reflexo de um governo não democrático, pois, ela só age assim respaldada pelas autoridades públicas! Até porque, não é de hoje que vemos cenas e notícias das ações truculentas dessa “tropa de elite”, e nenhuma ação concreta é tomada para coibir a violência praticada por parte de agentes públicos, que aliás, são pagos para dar segurança para a população. Acho que agora é o momento para que os movimentos sociais presssionem o governador deste Estado de coisas, a mudar sua política de dar borrachadas em trabalhador e estudantes!

  2. - IP 189.123.134.123 - Responder

    O comandante desta operaçao ufmt deve ser expulso da policia como tambem os policiais que cometeram estes atos. Se eles fazem atrocidades com pessoas que manifestam seus direitos imagina o que não deve fazer na periferia na calada da noite, na surdina. Policia como esta somente faz aumentar a criminalidade, cria revolta na sociedade e desconfiança. A policia esta despreparada já a muito tempo, nao podemos esquecer que a poucos meses atras agiram da mesma forma contra reintegraçao de posse no parque humaitá I, caso em que o coronel osmar lino foi afastado do comando da PM. Todos que cometeram esse tipo de atrocidade devem ser expulsos a policia não coaduna com criminosos em sua corporação. A OAB/MT deve ir ate o fim nessa questão para ver os policiais bem como o comandante desta operação punidos e expulsos da PM.

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