BRENDA CARVALHO, estudante, discute ética e jornalismo: “Muitas vezes os jornalistas querem trabalhar de maneira correta, mas são impedidos de abordar tal assunto de determinada maneira porque vai contra a linha editorial do jornal. Neste contexto, observa-se que a mídia é imbricada de jogos políticos e cheia de interesses que vão muito além do produto jornalístico”

brenda estudante de jornalismo

Ética e jornalismo

por Brenda Carvalho

Quando se entra em uma universidade para cursar jornalismo, muito se aprende sobre as técnicas jornalísticas, como fazer pautas, entrevistar pessoas, redigir textos, aprendemos teorias que vez ou outra podem fazer parte de nossa vida profissional ou, em boa parte, não. O diploma de jornalismo, hoje, não é obrigatório. Em outras palavras, faz faculdade quem quer.

A realidade anda longe de ser assim e discordo de quem pensa dessa maneira. Quando decidi que queria fazer Comunicação Social, muitas pessoas me fizeram a seguinte pergunta: “mas jornalismo não precisa mais de diploma, não é?”. Imediatamente eu respondia: “você acha que a Rede Globo vai aceitar um profissional sem diploma?”. A pessoa se calava e se dispunha a refletir alguns segundos sobre o que eu dissera. Elas acabavam concordando comigo.

A verdade é que pessoas como eu, que não têm grande poder aquisitivo ou que não têm um tio que é amigo do dono da TV da minha cidade ou é político, dificilmente vão ingressar na profissão jornalística sem ter o bendito diploma. Assim, o que nos resta é estudar.

Escolhi a faculdade não só porque não tinha condições de ser jornalista sem passar pelo banco universitário. Decidi pela qualificação porque queria ter conhecimento sobre a área e desempenhar o meu papel com louvor. E não vou mentir sobre querer elevar o meu status social por ser a única graduada na família. Mas, acima de tudo, queria ser “A Jornalista” e não apenas uma jornalista entre tantos.

Vejamos, então, que a questão da ética no jornalismo já se inicia desde o momento em que escolhemos ir para a faculdade ou não. Entendo que talento conta, e muito, na hora de se conquistar um emprego. Mas nem só de talento vive o jornalista. Essa é uma profissão complicada, pois lida diretamente com pessoas e entra em confronto com diferentes ideias. O fato é: a faculdade é importante para ampliar nossa visão de mundo e para nos tornarmos profissionais excepcionalmente éticos, já que aprendemos a valorizar a informação verídica que atenda às necessidades do público. É o que pelo menos deveria ser.

O tal do Código

Temos um código de ética lindo para ser seguido e que vai muito além de nossos direitos como jornalistas. Compreende também os direitos do cidadão quanto à informação de qualidade e a preservação da integridade das fontes. Em tese, ele proporcionaria o bom funcionamento midiático. Na prática, não é bem assim que a coisa funciona.

Avaliando o texto de Bernardo Kucinski, “Uma nova ética para uma nova modernidade” (ainda dos idos de 2002, mas bem atual), há um vazio no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros ocasionado por causa do capitalismo e das ideologias dos proprietários dos veículos de comunicação. Antigamente, a informação era apenas informação, agora se tornou um produto embalado e pronto para ser consumido.

Muitas vezes os jornalistas querem trabalhar de maneira correta, mas são impedidos de abordar tal assunto de determinada maneira porque vai contra a linha editorial do jornal. Neste contexto, observa-se que a mídia é imbricada de jogos políticos e cheia de interesses que vão muito além do produto jornalístico e do público ao qual ela é destinada. Somos obrigados a seguir o tal do sistema ou acabamos no olho da rua. É uma questão de sobrevivência.

Os jornais mandam profissionais mais jovens no mercado de trabalho para fazerem determinadas reportagens porque sabem que eles não conhecem muito bem ou desconhecem os meandros da profissão. E isso pode comprometer a qualidade da informação, além de invalidar o sentido real da prática jornalística: “servir” à sociedade e não a empresa em que trabalha.

Há de se considerar que o jornalista também participa da tomada de decisões sobre a informação que publica, pois a notícia nada mais é do que a interpretação do jornalista acerca de um fato. Por mais que ele relate o que aconteceu de forma verdadeira, ele sempre terá de fazer escolhas, tratando de certos aspectos do que aconteceu em detrimento de outros, ou seja, é um trabalho de seleção. E se a ética compreende sempre dizer a verdade, onde é que ela fica quando deixamos de falar algo só porque esse assunto não nos interessa ou não atende às regras de um jornal?

A ética, e não só o que diz respeito ao código dos jornalistas, é um reflexo da sociedade que se altera com o tempo e, se o tempo é modificado, naturalmente, o código de ética também deve ser mudado.

Tomando por base o fato de que o texto de Kucinski foi escrito em 2002, de lá para cá o Código de Ética dos Jornalistas já foi alterado – em 2007. Ainda assim, acredito que ele deve sempre ser reformulado, visto que precisamos nos adaptar a novas formas de se ver e pensar o mundo. Os grupos sociais, os valores morais e culturais se modificam a todo momento. É o curso natural da vida, principalmente com os avanços tecnológicos e científicos.

A culpa é do sistema

De acordo com Hegel, somos seres históricos e culturais. Por isso, discordo da parte do texto de Kucinski em que a ética deve ser individualizada, pois, apesar de vivermos em conjunto, temos desejos e necessidades semelhantes e diferentes dos outros. E é essa diferença que nos faz agir em prol de interesses próprios, por vezes egoístas e que podem prejudicar outrem.

Por mais que lutemos contra o autoritarismo dos patrões da mídia, tal como o professor Bernardo Kucinski sugere, sem regras a sociedade não funcionaria corretamente, ainda mais se cada indivíduo fizesse as próprias regras. É o que contempla a psicanálise freudiana ao relacionar o homem ao seu desejo sexual intrinsecamente ligado à morte. É certo que a ética não é um imperativo categórico, ou seja, um preceito universal aplicado em todas as condutas e circunstâncias.

É por isso que precisamos de um código definido que, mesmo que não seja totalmente seguido, está ali para trazer de volta a consciência do jornalista sobre o seu dever, para punir quem o desrespeita. Ele pode até impor comportamentos, mas desconheço outra forma que faça o ser humano ao menos tentar agir corretamente para o bem comum de toda uma sociedade.

Com o caso da reportagem sobre a expedição do navio da USP à Antártida, em que um estudante de jornalismo decidiu não entrevistar representantes da universidade porque poderia se comprometer, Kucinski evidencia que a ética jornalística não depende somente do sistema – como disseram os então pós-graduandos latu senso –, mas também da iniciativa própria do jornalista de querer dizer a verdade dos fatos.

Saindo do papel

O jornalista não nasce sabendo. É preciso que ele acumule conhecimento durante sua profissão para ter mais noção de como agir e medir as consequências do que faz. É por isso que defendo a importância do diploma. Resolvi cursar uma faculdade porque queria ser uma profissional completa, com destaque no mercado de trabalho e que compreendesse a importância do “fazer jornalismo”.

Hoje já não levo mais tanto em consideração a vontade de ser uma jornalista da Rede Globo. Não posso negar que a ideia, por vezes, ainda me é atraente. Mas sei que ela não é a única empresa de jornal do mundo e que também deixa a desejar ao omitir informações importantes por interesses próprios. (Não entremos aqui numa discussão sobre as ideologias das empresas jornalísticas do país)

Apesar disso, somente a faculdade não basta. É preciso buscar sempre novas maneiras de se qualificar, seja com uma pós-graduação, mestrado, doutorado etc, seja por meio do trabalho nas diferentes áreas que a profissão oferece, seja por experiência própria de vida.

O problema não está apenas em obedecer aos proprietários dos veículos de comunicação, é mais do que isso. Também se trata do conhecimento que adquirimos durante a vida, desde os ensinos na escola ao trabalho diário jornalístico. Assim, se temos conhecimento e certeza daquilo que acreditamos, temos um motivo e coragem para enfrentar os patrões da mídia.

Mas o problema vai muito além, pois acredito que a ética vem de berço, isto é, da educação que recebemos em casa para depois ser praticada na sociedade. Como diz Rousseau, é fato que a sociedade corrompe o homem, mas se desde o início todos tivéssemos uma boa educação, seríamos, talvez, pessoas mais éticas. Assim, essa é também uma questão de caráter.

Certa vez questionei ao meu professor de Ética e Legislação Jornalística sobre o código da categoria por considerá-lo utópico, visto que é praticamente impossível seguir tudo o que ele determina. Perguntei a ele para que existem leis tão bonitas e o que poderiam amenizar os casos de corrupção midiática que, em grande parte, não saem do papel. Ele me respondeu que o Código de Ética dos Jornalistas é como a Bíblia – para os cristãos –, pois está cheio de leis que tornariam o ser humano eticamente correto e foi feito para ser seguido, mas depende de nós se vamos querer ser éticos ou não. Em outras palavras, um Código de Ética ultramoderno não vai solucionar o problema se não quisermos que ele seja resolvido.


Brenda Carvalho tem 20 anos e é estudante do 7º semestre do curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)- campus de Alto Araguaia.

2 Comentários

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  1. - IP 179.216.205.163 - Responder

    ser jornalista e ético realmente é um grande desafio

  2. - IP 189.59.37.208 - Responder

    O maior predicado de um jornalista,com J maiúsculo, é a ISENÇÃO.Se não for isento não é jornalista ,é blogueiro ou é manifestação de opinão pessoal, desprovida de fatos, e apenas palavras perversas.

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