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Alguma coisa está fora da ordem

VALTER POMAR: Tarso Genro propõe a Doria que lidere a luta contra Bolsonaro. Petistas que se cuidem

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Alguma coisa está fora da ordem

Tarso e Pomar

Tarso Genro, João Doria e a que ponto chegamos

Por Valter Pomar

Se o companheiro Tarso Genro não existisse, teríamos que inventá-lo. Pois ele tem a qualidade de levar até as últimas consequências determinadas opções políticas.

 

Um exemplo disto é a carta pública que Tarso enviou, no dia 29 de dezembro de 2020, ao governador de São Paulo, João Doria.  Quem ainda não leu, pode encontrar no endereço abaixo:

 
 

ENTENDA O CASO, LEIA A CARTA DE TARSO PARA DORIA Pagina do E | Tarso Genro sugere a Doria que lidere campanha de impeachment contra Bolsonaro. LEIA CARTA (paginadoenock.com.br)

 

Qual o objetivo explícito da carta? 

Convocar João Doria a “iniciar um ‘impeachment’ em defesa da nação”. 

Mas antes de chegar neste finalmente, vale a pena conhecer o entretanto.

Tarso começa explicando a João Doria que decidiu escrever “abrigado em três acontecimentos políticos”, que o autorizam a pensar que “esta carta é oportuna”.

Os acontecimentos são, pela ordem: 

1/ Doria ter dito que “a união na luta contra a Pandemia precede todas as demais questões políticas na conjuntura”; 

2/ “o ódio exalado pelos dementes da base fascista do Presidente, que tem sido direcionado ao Senhor de uma maneira sordidamente especial”; 

3/ “um vídeo em que Bolsonaro comete “no mínimo três delitos”: “difamação”, “ameaça” pessoal e “ameaça direta ao Estado de Direito Democrático”.

Talvez por ser de São Paulo e ver o que se diz e o que efetivamente se faz, dou um grande desconto em todos os elogios que são feitos ao Doria no tocante a qualquer coisa, a começar pelo combate à pandemia.

Talvez por ser petista, não consigo ver nada de “sordidamente especial” nos ataques feitos pelo bolsonarismo contra o governador paulista; aliás, diria que falta bastante para que causem o estrago dos sórdidos ataques que bolsonaristas (e o próprio Doria) cometem contra petistas.

Quanto aos crimes de Bolsonaro, acredito que Doria tem pleno conhecimento deles; talvez ele suspeitasse da inaptidão de Bolsonaro antes mesmo dele ser eleito, o que não o impediu de apoiá-lo na eleição presidencial de 2018. Nem de apoiar entusiasticamente a cruel reforma da Previdência Social implantada pelo governo Bolsonaro — e logo reproduzida, no âmbito estadual, pelo próprio Doria.

Mas como é véspera de Ano Novo, sigamos o conselho de Washington Quaquá, paremos de olhar pelo retrovisor e vamos olhar apenas pelo para-brisa: admitamos assim a hipótese de que Tarso possa ter mandado bem, ao estilo dos iluministas que escreviam para os déspotas esclarecidos de antanho.

[Aliás, sei lá por qual motivo exato, mas por falar em déspota, acabo de me lembrar de Lord Farquaad, de Shrek.]

Também recordando certas cartas enviadas aos “príncipes” do passado, Tarso diz humildemente para Doria o que segue: “Não tenho evidentemente credenciais políticas para lhe propor qualquer aliança política e nem esta é a minha intenção, com esta mensagem que torno pública. Alianças dignas desse nome se fazem em torno de programas e não creio que isso fosse factível entre nós, de uma parte porque tenho pouco poder convocatório, de outra porque pensamos de modo diferente sobre muitas coisas essenciais, exceto – provavelmente – a respeito dos males de todos os tipos, que o Presidente Bolsonaro tem proporcionado à Federação e a todo nosso povo”.

Se Tarso estivesse certo, as divergências entre Bolsonaro e o governador paulista iriam muito além da pandemia. Será verdade? E se for, iriam até onde? Será, por exemplo, que Doria diverge da política econômica neoliberal, do corte dos direitos sociais, das ameaças às liberdades democráticas do povo, da militarização da segurança pública, das ofensas à soberania nacional?

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Sobre tudo isso, eu opino que “provavelmente” Tarso exagerou na mão. Entretanto, assim como Alckmin na hora certa lembrou dos elogios feitos a ele por Haddad, “provavelmente” Doria vai lembrar dos elogios feitos a ele por Tarso,  se isto for útil para capturar votos numa eventual disputa contra Bolsonaro. Assim como pode fazer o contrário, se a disputa for contra a esquerda.

A verdade é que, para todos os setores da classe dominante brasileira, o “bom senso” e a “dignidade republicana” não passam de máscaras para uso eventual e passageiro.

Mas Tarso parece não pensar assim, pois se põe a explicar (para Doria!!!) que a “putrefação do Estado” (….) “pode ocorrer quando as partes conflitantes (…) não têm forças suficientes para levar a termo o controle do poder (…) e o ‘empate’ permanente entre as forças políticas leva os organismos do Estado a uma lenta desagregação, até que a crise seja solucionada pelo caos, que provém da inércia”.

[Confesso que não entendi a parte final da explicação, pois nunca vi uma “crise” ser solucionada pelo “caos”. O que já vi ou já li a respeito são duas coisas diferentes: 1/ o caos ser fomentado artificialmente, para gerar pretexto e legitimação para “medidas extraordinárias”; 2/ o caos ser resultado das circunstâncias e ser solucionado através de “medidas extraordinárias”. Mas imagino que Doria vai se interessar pelo raciocínio e vai entender perfeitamente tudo aquilo que eu não alcancei. E talvez algo mais!]

Segundo Tarso, a situação acima citada seria a “do país, não só pela divisão entre as forças que formaram blocos distintos, depois da deposição ilegal da Presidenta Dilma, bem como entre a totalidade daquelas forças – antes unidas – e a oposição social e política formada pela esquerda e a centro-esquerda. Nenhuma destas forças tem a possibilidade de comandar, no momento, a derrubada constitucional do Governo, pelo impedimento do Presidente: a inércia se consolida e o Estado adoece gravemente”.

Se entendi direito, a continuidade de Bolsonaro gera o caos. E ainda assim Bolsonaro continua, porque nem a direita não bolsonarista, nem a oposição de centro e de esquerda têm a “possibilidade  de comandar” o impeachment.

Aqui Tarso “passa o pano” em Doria (e no grande empresariado). Afinal, é verdade que a esquerda e o centro não têm a “possibilidade de comandar”. Mas a direita não bolsonarista tem a possibilidade de começar o processo de impeachment, ou pelo menos poderia defender a proposta. Mas não faz nem uma coisa, nem outra. Aliado de Doria, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, literalmente sentou-se sobre dezenas de pedidos de impeachment. O “caos” não é o mesmo para todos; alguns lucram muito com a situação.

Nesse ponto, a carta pública de Tarso introduz o personagem adorado por 9 em cada 10 defensores da “frente ampla”: o genial Winston Churchill, aquele do sangue, suor e lágrimas que seriam derramadas em defesa… do Império Britânico.

Segundo entendi, o objetivo da citação parece ser fisgar Doria pela vaidade: aja como um Churchill, seja um “estadista”.

Trocando em miúdos, Tarso pede a Doria um grande “gesto”, que mobilize não apenas ele, mas uma parte do “bloco que derrubou a Presidenta Dilma”, aquela parte “que está em estranhamento com o fascismo emergente”.

Tarso evoca até mesmo os brios bandeirantes. Não chega ao ponto de citar o lema do brasão – non ducor duco – mas o sentido do que escreve a Doria é o mesmo: “pela sua condição de Governador do Estado mais importante do país, no qual suas classes dominantes têm exercido uma tutela quase plena, há muitos anos, o Sr. detém hoje a legitimidade necessária para – através dos devidos processos legais – desequilibrar o jogo contra Bolsonaro. Pode reunir em torno de si um apoio significativo do empresariado mais privilegiado e rico do país, para defender seu Estado da barbárie negacionista e – por tabela – também ajudar o país: Bolsonaro não pode continuar governando, o Estado está se deteriorando e a aposta dele no ‘quanto pior melhor’ só favorece os assaltantes do caos”.

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Quando li estas palavras, fiquei na dúvida sobre o que pensar. Tarso estaria dizendo tudo isto para desmascarar Doria? Ou Tarso acredita mesmo que uma frente político-empresarial controlada pela oligarquia paulista seria capaz de “ajudar o país”?

Pois esta é a questão de fundo: Tarso, em nome pessoal, está propondo a Doria que assuma a liderança da luta contra Bolsonaro. Se entendi direito, faz isso sob o argumento de que, se depender apenas da oposição de esquerda, o gesto “poderá chegar tarde demais” e o “caos” seria por demais perigoso.

A questão que parece escapar a Tarso (assim como parece escapar aos que defendem apoiar o Bloco do Maia) é que Bolsonaro é parte do nosso problema, mas o problema como um todo inclui o neoliberalismo; como já escrevi noutro texto, “o programa que esta gente defende – o programa neoliberal versão 5G – vai ampliar a desigualdade social e o corolário disso é menos democracia, não mais democracia. Ou seja, na melhor das hipóteses, teremos expulsado o cavernícola pela porta, mas as condições econômicas, sociais e políticas continuarão propícias ao reino das cavernas”.

Tarso quer pegar um atalho para se livrar do caos, mas o resultado tende a ser o oposto do que ele deseja. Claro: para alguns setores médios talvez não. Mas para o povão, “provavelmente” sim.

Não vou comentar o trecho da carta pública que traz recordações familiares. Apenas registro que Tarso defende compormos “um momento [sic] unitário de redução de danos, visando livrar o país do seu verdadeiro Satanás”. E remete para um ciclo de debates que ele (Tarso, não Satanás) está organizando, ciclo que até onde eu sei começará com… Ciro Gomes no dia 18 de janeiro, tudo com o objetivo de “buscarmos um caminho comum, que não será composto sem a derrubada constitucional do Satã em compota que nos assola”.

Todo apoio ao Fora Bolsonaro, ao impeachment e à derrubada constitucional. Mas se isso tudo não vier acompanhado do “fora este governo e suas políticas”, poderemos ao final constatar que tirar o bode da sala não reduz o aperto, embora possa melhorar o odor. Neste sentido, Doria é o cara certo: seus perfumes devem ser de última geração, talvez até tenha trazido alguns de sua recente viagem-relâmpago a Miami.

Um registro final: nenhuma palavra é dita na carta pública sobre a recuperação dos direitos políticos de Lula. Levando isto em consideração, mais a disposição de outras peças no tabuleiro (participação no Bloco do Maia, o que está rolando no Senado, a carta ao Doria etc.), temo que o movimento de “redução de danos” para impedir o “caos” pretenda ir bem mais longe do que se está dizendo, ao menos publicamente.

Quem for petista, que se cuide.  

VALTER POMAR é historiador e militante do PT

 

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LÚDIO CABRAL: 5 mil vidas perdidas para a covid em Mato Grosso

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CINCO MIL VIDAS

Lúdio Cabral*

Cinco mil vidas perdidas. Esse é o triste número que Mato Grosso alcança hoje, dia 26 de janeiro de 2021, em decorrência da pandemia da covid-19.

Cada um de nós, mato-grossenses, convivemos com a dor pela perda de alguém para essa doença. Todos nós perdemos pessoas conhecidas, amigos ou alguém da nossa família.

A pandemia em Mato Grosso foi mais dolorosa que na maioria dos estados brasileiros e o fato de termos uma população pequena dificulta enxergarmos com clareza a gravidade do que enfrentamos até aqui.

A taxa de mortalidade por covid-19 na população mato-grossense, de 141,6 mortes por 100 mil habitantes, é a 4ª maior entre os estados brasileiros, inferior apenas aos estados do Amazonas (171,9), Rio de Janeiro (166,2) e ao Distrito Federal (147,0). O número de mortes em Mato Grosso foi, proporcionalmente, quase 40% superior ao número de mortes em todo o Brasil. Significa dizer que se o Brasil apresentasse a taxa de mortalidade observada em Mato Grosso, alcançaríamos hoje a marca de 300.000 vidas perdidas para a covid-19 no país.

Lembram do discurso que ouvimos muito no início da pandemia? De que Mato Grosso tinha uma população pequena, uma densidade populacional baixa, era abençoado pelo clima quente e que, por isso, teríamos poucos casos de covid-19 entre nós?

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Lembram do posicionamento oficial do governador de Mato Grosso no início da pandemia, de que o nosso estado não teria mais do que 4.000 pessoas infectadas pelo novo coronavírus?

Infelizmente, a realidade desmentiu o negacionismo oficial e oficioso em nosso estado. Não sem muita dor. O sistema estadual de saúde não foi preparado de forma adequada. Os governos negligenciaram a necessidade de isolamento social rigoroso em momentos cruciais e acabaram transmitindo uma mensagem irresponsável à população. O resultado disso tudo foram vidas perdidas.

Ao mesmo tempo, o Mato Grosso do sistema de saúde mal preparado para enfrentar a pandemia foi o estado campeão nacional em crescimento econômico no ano de 2020. Isso às custas de um modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza, de um sistema tributário injusto que contribui ainda mais com essa concentração, e de um formato de gestão que nega recursos às políticas públicas, em especial ao SUS estadual, já que estamos falando em pandemia.

Dolorosa ironia do destino, um dos municípios símbolo desse modelo de desenvolvimento, Sinop, experimentou mortalidade de até 100% entre os pacientes internados em leitos públicos de UTI para adultos em seu hospital regional.

Nada acontece por acaso. Os números da covid-19 em Mato Grosso não são produto do acaso ou de mera fatalidade. Os números da covid-19 em Mato Grosso são produto de decisões governamentais, de escolhas políticas determinadas por interesses econômicos, não apenas agora na pandemia, mas por anos antes dela. E devemos ter consciência disso, do contrário, a história pode se repetir novamente como tragédia.

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Temos que ter consciência dessas injustiças estruturais para que possamos lutar e acabar com elas. A dor que sofremos pelas pessoas que perdemos para a pandemia tem que nos mobilizar para essa luta.

Lutar por um modelo de desenvolvimento econômico que produza e distribua riqueza e renda com justiça, que coloque pão na mesa de todo o nosso povo e que proteja a nossa biodiversidade. Lutar por um sistema tributário que não sacrifique os pequenos para manter os privilégios dos muito ricos. Lutar por políticas e serviços públicos de qualidade para todos os mato-grossenses. Lutar pelo SUS, por um sistema público de saúde fortalecido e capaz de cuidar bem de toda a nossa população.

São essas algumas das lições que precisamos aprender e apreender depois de tantos meses de sofrimento e dor, até porque a tempestade ainda vai levar tempo para passar.

*Lúdio Cabral é médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso.

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