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GRANDE, COMO ERA GRANDE: Aos 98 anos, morreu Antônio Cândido, um gigante da cultura brasileira

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Antonio Cândido, um dos gigantes da cultura brasileira, foi galardoado com o Prémio Camões em 1998

Marcos Santos/USP Imagens

Era um exemplo em tudo o que fazia e uma referência para os intelectuais do Brasil. Democrata, opositor da ditadura militar, escritor, estudioso da literatura do seu país, crítico literário e professor universitário. Em 1998, foi galardoado com o Prémio Camões. Morreu na madrugada desta sexta-feira aos 98 anos

Antonio Cândido de Melo e Sousa era tão só “o mais importante inteletual público de São Paulo e um dos mais importantes do Brasil”, diz ao Expresso Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.
Com formação de base em sociologia, cedo se dedicou à “crítica literária, não deixando nunca de lado a abordagem analítica de origem”, acrescenta Lynch que também é investigador da Fundação Casa de Rui Barbosa.
A sua obra maior, “Formação da Literatura Brasileira”, é “um clássico do pensamento brasileiro [uma obra que] marcou todas as gerações que lhe sucederam. Foi uma personalidade determinante na modelagem da identidade da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)”.

Um resistente e um lutador

O historiador Francisco Palomanes Martinho destaca o facto de Cândido ser “um democrata e um opositor da ditadura militar” que governou o Brasil entre 1964 e 1985.
Para Lynch , Antonio Cândido foi uma “personalidade determinante na modelagem da identidade da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo”: teve como pares neste projeto o ex-Presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso na área da Ciência Política, Florestan Fernandes, na Sociologia e, na História, Sérgio Buarque de Holanda —pai do cantor Chico Buarque — que também foi jornalista e um dos fundadores do PT.
Já Lynch diz ao Expresso que mesmo “a despeito de sua avançada idade, continuou manifestando-se politicamente nos eventos mais recentes da vida brasileira, sempre de modo coerente com o ‘pensamento radical’ de classe média, de que se julgava intérprete e representante”.

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O papel do grupo Clima

O jornal “Estado de São Paulo” recorda que Candido “ nasceu no dia 24 de julho de 1918, no Rio de Janeiro, e depois de passar a infância nos limites entre Minas Gerais e São Paulo, se estabeleceu na capital paulista em 1937. Ingressou e abandonou a Faculdade de Direito da USP, para em 1942 se graduar em Filosofia”.
“Foi na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no fim dos anos 1930, que encontrou o grupo que ajudaria a formatar a intelectualidade paulistana por meio da crítica cultural. Do Grupo Clima faziam parte, além de Candido, nomes como Décio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Ruy Galvão de Andrada Coelho, Gilda de Mello e Souza, entre outros”.
“A marca fundamental do Grupo Clima foi a modalidade intectual escolhida para o trabalho: a crítica cultural, da literatura, ao cinema, ao teatro e às artes plásticas. Em contato com professores franceses da USP [Universidade São Paulo], Candido e os colegas do Clima promoveram uma renovação à ensaística brasileira, rompendo com a geração modernista anterior – mais ligada à produção artística e doutrinação política”.
“Nos anos 1940, eles editam a Revista Clima, que os insere de vez no cenário cultural paulistano e brasileiro. Na mesma década, Candido também escreve regularmente para os jornais Folha da Manhã e O Diário de São Paulo. Em 1945, se torna professor catedrático da USP e publica seu primeiro livro, Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero, sua tese de livre-docência.”

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O legado

Deixa uma infinidade de discípulos: “Influenciou gerações e gerações de críticos literários brasileiros, através de sua obra volumosa, influência esta que se estendeu à sociologia e à ciência política, na forma de uma abordagem ‘socioliterária’ desses campos do conhecimento”, lembra o investigador Christian Lynch. “Tudo pesado, o que se percebe é que foi um intelectual realizado, talvez a última unanimidade intelectual do Brasil contemporâneo, brutalmente dilacerado desde 2013. Como tal, será lembrado.”
Casou com a sua companheira do grupo Clima, Gilda Rocha de Mello e Sousa, que faleceu em 2005. O casal teve três filhas — Ana Luísa Escorel, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza.
O gigante da cultura brasileira morreu na madrugada de sexta-feira, 11 de maio, em São Paulo, cidade onde vivia. Tinha 98 anos.

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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