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EDUARDO MAHON: Não se enganem: não há uma primavera brasileira, porque o sistema político não está em xeque.

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Mahon lembra que a primavera árabe questionava a organização estatal, política, eleitoral, partidária. Embora sem reformas consistentes e alta dose de instabilidade, o manifesto brasileiro em nada se compara.

Mahon lembra que a primavera árabe questionava a organização estatal, política, eleitoral, partidária. Embora sem reformas consistentes e alta dose de instabilidade, o manifesto brasileiro em nada se compara.

Primavera brasileira?
por EDUARDO MAHON
Um bafejo ufanista espalha-se pelo Brasil. Movimentos contrários ao aumento das tarifas do transporte público, a maioria inflamada por partidos oportunistas, a depredação deslegitimou as primeiras movimentações. A reação foi imediata: nada justifica o ataque ao patrimônio público e particular. De imediato, veio o contravapor do movimento: cartazes e faixas contra a corrupção e por melhorias da prestação de serviços públicos. Não se enganem: não há uma primavera brasileira, porque o sistema político não está em xeque. Na guerra da comunicação social, pululam gritos de ordem e palavras de esperança, junto às redes sociais de relacionamento virtual. Mudar para não mudar: é isso.
O movimento padece de foco. Não sabemos exatamente contra o que ou quem luta a juventude. Com o fim do período de exceção e o ocaso da guerra fria, ficou mais difícil identificar os inimigos. Lutar contra a corrupção, mas não nominar quem é corrupto e precisa abdicar da vida pública, é somente um exercício vazio de retórica. É que megamanifestações tendem ao esgotamento em um rápido período de tempo e a classe política entende perfeitamente bem que o tempo conspira favoravelmente em prol do arrefecimento dos ânimos. Bradar por melhores serviços públicos e não identificar problemas e os responsáveis é aspergir frustrações sem canalizá-las e, por isso, é questão de tempo para haver o cansaço, melhorias pontuais e o consequente esvaziamento.
Tudo indica que as obras da Copa foram um dos episódios identificados. Nada mais justo. O gasto bilionário dos governos que se apegam às obras com múltiplos aditivos, em sistemas diferenciados de licitações, favorece a corrupção que irrigará as futuras campanhas eleitorais. No entanto, ainda que haja condenações e alertas por tribunais de contas, acintosos eventos de desvios, roubos e abandonos, nada indica que os manifestantes tenham a ciência do que fazer, a quem responsabilizar, como mudar ou o que propor. É que as pesquisas eleitorais não dão mostras de qualquer alteração no quadro político partidário nacional, o que redunda na inocuidade dos movimentos que não ecoarão nas urnas, reelegendo um governo que sustenta a miséria em níveis aceitáveis para mapear e controlar o voto.
Desconfio de que esta mesma primavera brasileira murche no sufrágio dos mesmos candidatos que, uma vez no poder, conspirem contra os ideais das sazonais manifestações. Desconfio que, de posse de auxílios governamentais, estes jovens rapidamente esmoreçam. Desconfio que soluções paliativas dos governantes às reivindicações populares, façam o movimento desmantelar-se. E, passados os eventos esportivos, a campanha eleitoral encarregue-se de promover o continuísmo político, sem qualquer nuance reformista. Reservo-me ao ceticismo quando me deparo com a vontade popular que entroniza Fernando Collor, Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney no comando nacional, unidos ao governo inspirado numa cúpula condenada por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, fraudes das mais diversas naturezas.
Não há foco. Uns empunham bandeiras pelo transporte, outros pela saúde, alguns contra a ditadura(?), estes contra a polícia militar, aqueles em desfavor da corrupção, aqueloutros se batem contra o sistema político. Enquanto há vários movimentos civis organizados que identificam perfeitamente onde nasce, cresce e medra a corrupção brasileira, ainda não os vi se integrando às pautas discutidas pelos jovens. Financiamento de campanha, a forma atual das licitações, enriquecimento ilícito de políticos e parentes, indicações políticas para tribunais, loteamento partidário de cargos públicos, são os fatores que consomem a riqueza brasileira. Como essa discussão jurídica é profunda e demanda debate refinado, não cabe nas máximas de faixas e cartazes.
A primavera árabe questionava a organização estatal, política, eleitoral, partidária. Embora sem reformas consistentes e alta dose de instabilidade, o manifesto brasileiro em nada se compara. A revolução democrática vem com o voto. A derrota de um político corrupto tem muito mais impacto do que qualquer passeata. Quando (e se) o esforço de mobilização ganhar corpo nas eleições, com contornos definidos, reivindicações objetivas, alvos nominados, de forma suprapartidária, para denunciar políticos corruptos a exigir julgamento judiciário célere, o fim das inaceitáveis imoralidades no serviço público (auxílios imorais que excedem o teto constitucional, indicações políticas inaceitáveis para tribunais e outros cargos, perpetuação personalista no poder legislativo etc), e esquemas corruptos de obras e serviços superfaturados, haverá adesão de quem não quer passar um cheque em branco.
Eduardo Mahon é advogado.

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Morre o prefeito de São Paulo, Bruno Covas

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O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, morreu às 8h20 deste domingo (16), em decorrência do câncer da transição esôfago-gástrica e complicações do tratamento. O velório será fechado, com a presença apenas para a família, mas haverá também uma cerimônia na prefeitura.

Licenciado do cargo no início deste mês, Bruno Covas estava em tratamento no Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista.

Filho de Pedro Lopes e Renata Covas Lopes e pai do jovem Tomás Covas, Bruno nasceu em Santos, no litoral paulista, no dia 7 de abril de 1980, e foi advogado, economista e político brasileiro.

Mudou-se para a capital paulista em 1995 e, dois anos depois, filiou-se ao PSDB, seguindo os passos do avô, o ex-governador Mário Covas (1930-2001), sua grande inspiração e influência política . No partido, chegou a ser presidente estadual e nacional da Juventude do PSDB e ocupou cargos na Executiva Estadual.

Sua carreira na política começou em 2004, quando se candidatou a vice-prefeito de sua cidade natal. Dois anos depois, foi eleito deputado estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo e reeleito para o mesmo cargo e m 2010, com mais de 239 mil votos, sendo o mais votado d aquele ano.

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No ano seguinte, assumiu a Secretaria Estadual do Meio Ambiente no governo de Geraldo Alckmin, permanecendo no cargo até 2014, quando foi eleito deputado federal para o mandato 2015-2019.

Edição: Nádia Franco

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