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BLOGUEIRO MIGUEL DO ROSÁRIO: Este segundo governo Dilma me lembra a história de Benjamin Button, escrita por Fitzgerald nos anos 20 e transformada num filme com Brad Pitt em 2008. É a história de um homem que nasce velho, muito velho. Os médicos lhe dão pouco tempo de vida, mas conforme as semanas passam, a mãe nota que seu filho, ao contrário do que se previa, vai ganhando saúde e força física. No Brasil, nosso principal desafio será fazer um governo, que começou tão velho, seguir o mesmo caminho de Benjamin Button, e rejuvenescer.Não será fácil.Mas nunca foi, não é?

O segundo governo Dilma nasceu velho?

O Curioso Caso de Benjamin Button


 

Este segundo governo Dilma me lembra a história de Benjamin Button, escrita por Fitzgerald nos anos 20 e transformada num filme com Brad Pitt em 2008.

É a história de um homem que nasce velho, muito velho.

Os médicos lhe dão pouco tempo de vida, mas conforme as semanas passam, a mãe nota que seu filho, ao contrário do que se previa, vai ganhando saúde e força física.

Estranhamente, o velho recém-nascido rejuvenesce ao longo dos anos, num processo invertido do crescimento humano.

O governo eleito em 2014 – apesar de ser uma reeleição e o quarto mandato seguido do PT – trazia novas e jovens esperanças.

Talvez fossem esperanças loucas, porque o congresso eleito em outubro, mais conservador que o anterior, apontava para um período sombrio e turbulento.

Mesmo assim, havia esperanças, grandes esperanças, sobretudo quando,durante o segundo turno, houve um extraordinário e até mesmo surpreendente movimento do eleitorado jovem e progressista em torno da candidatura de Dilma Rousseff.

Após a vitória eleitoral, antes mesmo do novo governo nascer, todos os sinais indicavam, todavia, que o bebê nasceria velho.

Quando se inicia a nova gestão, o que víamos era exatamente isso: um governo recém-nascido e já de idade avançadíssima.

Assim como o personagem do conto de Fitzgerald, também o governo Dilma recebeu prognósticos sombrios de vida curta.

Os analistas mais raivosos da grande mídia (e eles são muitos), diziam que ela poderia ficar conhecida como Dilma, a Breve.

Pois bem, a presidenta atravessou com vida o seu primeiro mês de governo.

Diante dela, só dificuldades: econômicas, políticas, policiais, até mesmo climáticas; e  críticas pesadas dentro e fora do governo, na oposição e em seu próprio partido.

Quem sabe, porém, se não teremos uma surpresa e o velho, tal qual o personagem de Fitzgerald, não ganha vida e, paulatinamente, se rejuvenesce?

*

PITT

Até o momento, Dilma tem se portado com o misterioso e enervante silêncio que lhe é peculiar.

Ao menos, não repetiu as performances de sua primeira gestão, quando se apressou a quebrar omeletes no programa de Ana Maria Braga.

Entretanto, a presidenta já deixou bem claro que é assim que irá governar, com poucas palavras.

A estratégia de comunicação, tão criticada, não foi tocada: o titular da Secom, Thomas Traumann, foi mantido em seu cargo.

Consta que Traumann seja um bom caráter, de formação progressista. Evidentemente, porém, não é um quadro político, nem tem pretensões a sê-lo.

Traumann não se arrisca, não propõe, não promove debates. Suas conversas com a sociedade provavelmente se limitam a jantares com jornalistas da grande imprensa, em restaurantes de Brasília, Rio ou São Paulo.

A isso se chama prudência, uma daquelas virtudes que facilmente se convertem em vício, quando se originam não de um intelecto firme e valente, mas de um coração fraco e medroso.

Ou como dizia Blake: “A prudência é uma velha solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência”.

Mas seria uma injustiça culpar Traumann, quando é evidente que a estratégia de comunicação do governo é definida pela presidenta.

E a presidenta, pelo visto, determinou que não haja estratégia.

E pur se muove, como teria murmurado Galileu, segundo a lenda, logo após concordar, contra sua vontade, com a teoria católica de que a Terra era o centro do universo.

No entanto, se move.

A mesma coisa vale para o governo.

Aparentemente, o governo se mantém parado, atônito, como que concordando com os vaticínios apocalípticos e acusadores da mídia.

Se olharmos de perto, contudo, o veremos sussurrar para si mesmo algumas frases rebeldes.

É o que faz o ministro da Comunicação, Ricardo Berzoini, por exemplo, ao tentar levar adiante o debate sobre regulação econômica da mídia.

Mas talvez também aqui estejamos perante um erro político primário, que é partilhado por boa parte da esquerda.

Neste sentido, a presidenta Dilma, com base no que já falou sobre o tema, parece estar do lado certo.

A regulação econômica da mídia apenas será um discurso progressista, com ares de vitória democrática, se vier na crista de uma defesa firme e apaixonada da liberdade de expressão.

Por outro lado, não deixa de ser curioso como a história se repete. A esquerda, sempre tão progressista quando se trata de defender os direitos sociais da classe trabalhadora, tem o costume histórico de vestir uma carantonha de velha carola quando se discute o tema das liberdades individuais.

A explicação é simples: a classe trabalhadora sempre considerou as tais liberdades individuais como um luxo burguês.

Não se pode culpá-la em demasia. As circunstâncias históricas, e o próprio sistema, terrivelmente desigual e injusto, produz essa mentalidade.

Afinal, na prática, as tais liberdades são sempre desfrutadas por uma minoria. Quanto maior desigualdade, portanto, maior o desprezo da maioria por essas liberdades.

O direito à uma defesa justa, com uso de todos os recursos penais possíveis, por exemplo, parecerá ao pobre uma liberdade insuportavelmente elitista, porque apenas acessível àquele que tem recursos para pagar bons advogados.

A mídia sabe explorar bem esses preconceitos, e joga com eles com uma incrível astúcia.

Políticos ligados ao governo têm direito a recursos judiciais junto ao Supremo Tribunal Federal? Ora, a mídia de oposição então joga fora o seu discurso pela defesa das liberdades e faz campanha para derrubar o simples direito a esses recursos, dizendo que eles são um privilégio de ricos e poderosos.

Quando o assunto é a liberdade de expressão, a mídia dá uma pirueta e passa a defendê-la radicalmente.

Ora, é claro! Desde que os meios de comunicação permaneçam sob controle de poucos, a mais absoluta liberdade de expressão representa um imenso poder.

A esquerda, intuitivamente, conhece esse poder, e o teme. Os trabalhadores conhecem na carne o poder da mídia de humilhar e derrotar politicamente seus representantes, usando a tal “liberdade de imprensa e de expressão”.

Numa sociedade cujo comportamento e agenda política tem estado sob um controle terrível daquele que talvez seja monopólio familiar mais fechado do mundo democrático, a classe trabalhadora brasileira passa a ver a liberdade de expressão como uma das armas mais letais de seus adversários.

Os trabalhadores até conseguem eleger seus representantes, mas não conseguem pautar a agenda política.

Bem, de qualquer forma, o debate está no ar.

Talvez o próprio nome do que se pretende fazer seja um erro terminológico.

O certo talvez fosse: Lei da Liberdade de Expressão. Ou Lei do Pluralismo Político. O conceito principal dessa lei seria ampliar o acesso da sociedade aos meios de expressão. Isso se daria através da quebra dos monopólios, com vistas a criar rádios, jornais, canais de TV com uma linha editorial mais independente e mais livre.

No site da Câmara Federal, há uma matéria sobre a regulamentação da mídia que nos dá uma ideia de como o assunto tem sido tratado pelos parlamentares.

O PSDB tornou-se, assumidamente, o adversário mais feroz de qualquer regulação da mídia no Brasil, confirmando a sua vocação de partido conservador.

Luiza Erundina, deputada federal pelo PSB, defende a regulamentação da mídia como um avanço democrático necessário e urgente.

As lideranças do movimento pela democratização da comunicação têm bastante consciência das armadilhas interpostas diante de si, e por isso sempre afirmam, claramente, que a regulação visa ampliar a liberdade de expressão.

As acusações de que o governo pretende “censurar” a imprensa vêm invariavelmente daqueles que querem sustar o debate sobre a liberdade de expressão e o pluralismo político.

*

O caso Eduardo Cunha é um exemplo perfeito sobre os males causados pela falta de pluralismo político.

A nossa mídia age em bando, como faziam os cangaceiros. Se há um alvo, todos os órgãos passam a visá-lo ao mesmo tempo.

Se há alguém que precisa ser blindado e protegido, cria-se um pacto silencioso e ninguém o ataca.

É o que acontece com Eduardo Cunha, deputado federal (PMDB-RJ), e favorito a levar a presidência da Câmara no próximo domingo.

Nada se publica contra ele na grande imprensa, apesar da abundância de denúncias e processos constantes em seu passado e presente.

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As declarações de Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência da República, em defesa do seguro-desemprego, também mostraram que ainda há resquícios de juventude política no governo.

O velho sobreviveu. Sua pele parece um pouco menos enrugada, seus cabelos, um pouco menos brancos.

Ainda não se pode afirmar que temos uma tendência aqui, mas não custa sonhar que podemos assistir, ao longo dos próximos quatro anos, um governo velho se tornar jovem.

Curious Case of Benjamin Button 1

 

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Sobre a Lava Jato, parece claro que para aí se convergiram todos os vícios políticos causados pela concentração da mídia.

Ao final de 2007, a Polícia Federal empreendia diversas investigações de grande porte. A mídia, no entanto, não conseguiu estabelecer uma narrativa favorável a seus amigos, e passou a atacar a PF. Inventou-se a teoria do “Estado Policial”.

Anos depois, diferentes circunstâncias permitiram à mídia assumir o controle sobre as investigações conduzidas pela Polícia Federal em contratos de empreiteiras com a Petrobrás.

A mídia dominou a narrativa, transformando investigações conduzidas por órgãos vinculados ao Executivo, como a Polícia Federal, ou independentes, como o Ministério Público, contra o próprio governo, o que é um sinal de vigor democrático e republicano, em mais um circo político de oposição.

A operação Lava Jato, no entanto, apesar da incrível manipulação política da qual é objeto, com a mídia pressionando promotores e juiz via ameaças veladas ou lisonja, pode vir a ser um importante avanço na luta contra a corrupção.

Após a vergonhosa performance da imprensa, do Ministério Público e do Judiciário ao longo da Ação Penal 470, espera-se que ainda existam alguns promotores e juízes com bom senso para não entrar no jogo político da mídia.

O preço político pago pelo governo, em especial pelo PT, ao se descobrir que maracutaias bilionárias aconteceram sob sua gestão, é merecido.

Em outro post, já disse que tentarei dar um voto de confiança ao Ministério Público e ao juiz Sergio Moro, apesar de todas as críticas que fiz a ambos.

É um voto meio louco e meio cego, porque francamente eu perdi um bocado da confiança que um dia tive no judiciário e no MP, e as sinalizações, até o momento, foram péssimas, com vazamentos seletivos, prisões preventivas desnecessárias, manifestações partidárias por parte de delegados federais, além das desavergonhadas alianças com a mídia.

No entanto, independente das injustiças pontuais que forem cometidas, das manipulações, do partidarismo explícito de alguns agentes do Estado, quero acreditar que será dado um passo importante no aprimoramento da relação entre fornecedores privados e o setor público.

O Brasil precisa de um Ministério Público forte, e talvez seja natural, e até mesmo saudável, que haja um sentimento crescente de oposição ao Executivo dentro da instituição. Isso o torna mais independente, e obriga ao Executivo fazer dois movimentos: purgar-se de seus maus elementos, e ampliar a sua capacidade de defesa, seja juridicamente, seja na mídia.

Quando o PT deixar o poder, e outro partido assumir, creio que, após alguns anos, o movimento se repetirá: um sentimento de confronto, de oposição, tenderá a crescer dentro do Ministério Público. Ou assim deveria acontecer, a menos que o partido no poder inicie uma ofensiva para amordaçar o MP, como aliás fez FHC, ao jamais nomear para a chefia da Procuradoria Geral da Republica o nome mais votado pelo conjunto dos promotores.

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A economia brasileira ainda patina. A inflação segue alta. Segundo o IBGE, a inflação nos primeiros quinze dias do ano ficou em 0,89%, acima de dezembro e do mesmo período do ano anterior.

Os analistas do setor privado, segundo o boletim Focus, do Banco Central, fazem as seguintes previsões para 2015 e 2016.

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A expectativa do mercado para 2015 é de uma inflação de 6,99%, ou seja, 0,49% acima do teto da meta. Em 2014, a inflação encerrou no teto da meta, em 6,46%.

Para 2016, porém, o mercado está mais otimista, e prevê inflação de 5,6% (há uma semana, o mercado previa 5,7% para 2016).

Para um país que já conviveu com inflação de quase 1.800% num ano (em 1989), acho que dá para sobreviver.

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O mesmo mercado prevê um crescimento de 0,13% do PIB este ano, o que é bem mais pessimista do que ele previa um mês atrás, de 0,55%.

Para 2016, o mercado prevê um crescimento de 1,54%.

Não é nenhuma maravilha, mas também dá para o gasto, por enquanto. Piketty, o economista francês cujo livro, O Capital no Século XXI, vem fazendo estrondoso sucesso no mundo inteiro, prevê que crescimentos baixos serão uma tendência geral daqui para frente, em todos os países. Ele observa, contudo, que um crescimento de 1% ao ano é muita coisa, porque nos permite dobrar, ou mesmo triplicar o PIB em algumas décadas.

Os investimentos estrangeiros devem continuar constantes, em US$ 60 bilhões, tanto em 2015 ou 2016, mantendo o Brasil entre os cinco maiores países recebedores de investimentos estrangeiros destinados à produção.

Nos próximos quatro anos, teremos que ampliar a nossa infra-estrutura, não apenas de escoamento de produção, mas também aquela voltada ao conforto da população, como a mobilidade urbana. Em parte, isso já está acontecendo, mas é preciso acelerar.

Para voltar à metáfora literária mencionada no início do post, nosso principal desafio será fazer um governo, que começou tão velho, seguir o mesmo caminho de Benjamin Button, e rejuvenescer.

Não será fácil.

Mas nunca foi, não é?

 

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FONTE O CAFEZINHO

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