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BLOGUEIRO ENOCK CAVALCANTI: Wilson Santos traçou um quadro mais chocante, doloroso que a Guernica de Picasso. Disse, sem engasgar, que quem visitar o Pronto Socorro de Cuiabá, em qualquer dia ou horário, encontrará lá, infalivelmente, umas 150 pessoas jogadas pelo chão, nos corredores e nas salas. Seria bom se todos fizessem política, se todos votassem, se todos vivessem suas vidas, em Cuiabá, pensando nessas 150 pessoas. Essas 150 pessoas precisam ser resgatadas

Reproduzo, abaixo, versão estendida do artigo, por mim assinado, que circula nesta quinta-feira, 29 de setembro, na edição impressa do Diário de Cuiabá:
150 pessoas no chão
Por Enock Cavalcanti

Meus amigos, meus inimigos: num rasgo de sinceridade, o ex-prefeito Wilson Santos, participando de debate no Conselho Regional de Medicina, na segunda-feira (26.9), reconheceu que o atendimento à saúde dos pobres e dos filhos dos pobres, em nossa capital, representa um drama inacreditável. Uma situação que só tem feito se agravar.

Wilson Santos traçou um quadro mais chocante, doloroso que a Guernica de Picasso. Disse, sem engasgar, que quem visitar o Pronto Socorro de Cuiabá, em qualquer dia ou horário, encontrará lá, infalivelmente, umas 150 pessoas jogadas pelo chão, nos corredores e nas salas.

Falo do pintor espanhol Pablo Picasso, com seus traços que deformam a imagem das pessoas, na busca de maior impacto emocional, mas talvez devesse falar em outro quadro e em outro mestre da pintura: Os Cegos, do pintor Peter Bruegel, chamado de O Velho, que, na edição da Carta Capital que está nas bancas, ilustra um artigo do Mino Carta sobre o Brasil. Mostra um grupo de cegos, agarrados uns aos outros, que caminham por uma estrada, sem nenhuma ideia de qual será o seu destino.

Eu também poderia ser chamado de Enock Cavalcanti, o Velho, nestes meus 63 anos de tantas tristezas sempre que penso nas dificuldades que os pobres e os filhos de pobres tem que enfrentar, todos os dias, neste mundo cão.

Por serem pobres, marginalizados, humilhados, já se vê que não virá deles a ditadura do proletariado que Marx e Engels imaginaram como um período de transição necessário para a superação das dores do capitalismo.

O capitalismo continua doendo faz muito tempo. Alguns, aqui mesmo em Cuiabá, conseguem ter vida confortável, luxuosa, cheia de gozos e orgasmos, frequentando o ambiente bem refrigerado dos shoppings e comendo as delícias do Buffet Leila Malouf. Só que uma boa parte do nosso povo vive sua vida embaixo do chicote.

Que consciência do mundo pode ter uma pessoa, ferida, atropelada, machucada, que é deixada para sofrer ainda mais no chão gelado do Pronto Socorro de Cuiabá?

Um drama inacreditável, confirmou a professora Serys, dizendo que considerava a Sala Vermelha do nosso Pronto Socorro de Cuiabá um verdadeiro filme de terror. Há quantos anos falamos da carnificina que acontece ali, cotidianamente, no PSMC? O tempo passa, o tempo voa – e o drama inacreditável se arrasta.

Seria bom se todos fizessem política, se todos votassem, se todos vivessem suas vidas, em Cuiabá, pensando nessas 150 pessoas, nesses homens e mulheres que são obrigados a se acomodar no chão imundo do nosso Pronto Socorro, para sonhar com algum tipo de atendimento para o seu padecer.

Essas 150 pessoas precisam ser resgatadas para a dignidade.

ENOCK CAVALCANTI, jornalista e blogueiro, é editor de Cultura do Diário.

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