BENITO CAPARELLI: A conceituação analógica/histórica da mentira e/ou fake news

Caparelli

MENTIRA

Conceituação analógica/histórica

por BENITO CAPARELLI

 

A importância do estudo interpretativo e ontológico da mentira, faz evidenciar grande relevância social, porque ela é parte substancial de nosso quotidiano, costumeiramente frequente, motivo pelo qual passa a adquirir um lugar de destaque na sociedade moderna, tentando granjear, inclusive, “status” universal de “fake news”, persistindo, todo tempo, em simular ou dissimular, almejando perseguir  uma expectativa sempre encoberta,  principalmente, neste tempo, autodenominado “pós-moderno”, buscando parecer estar acima de sua adjetivação pernóstica, como “salutar” praxe rotineira, mas, configurando-se, todavia, em autênticos paradoxos: legítimo/ilegítimo; falso/real, concreto/fictício; acreditar/desacreditar, obrigando-nos à indispensável percepção, porém, não pelo viés do raciocínio lógico, mas, pela sua interceptação dialética, como ensinou Hegel, o filósofo da história pour excellence, perquirindo-se por ampla análise de respectivas premissas axiomáticas e o alcance de suas supostas abrangências e destinações, para exaurir de seu contexto, oral ou redigido, os sutis adminículos indispensáveis à sua elucidação.

 

Por razões óbvias, analisando-a de forma acurada, percebe-se que alguém mentiu. Comprovando-se que a infausta assertiva não é verdadeira, porém, questionando-se seu instituidor, sempre volta ele a mentir, dizendo-se mal compreendido; não é o que queria dizer; não quis enganar; ou não era minha intenção

 

Segundo Hanna Arendt, em sua magistral obra, “Entre o Passado e o Futuro” (ed. Perspectiva, pag. 283), a mentira sempre foi considerada instrumentação necessária e indispensável, tanto no cumprimento de ofícios políticos e demagógicos; religiosos e, até mesmo, por consagrados estadistas, como, também, em tática de guerra, a qual sempre se escuda no beneplácito de tais chavões, minimamente escusáveis, até porque, já se acostumam, como normais e perenemente aguardados, mas, sempre, como conotação psicossocial, no contexto de nossas mais intimas considerações.

 

No estudo dos contextos históricos, principalmente, após seus discernimentos serem desgarrados da filosofia e serem albergados na ciência freudiana, o que se deu ao término da Segunda Grande Guerra (1939/1945), a humanidade descobriu que a mentira é estratégia potencialmente mais eficiente do que qualquer armamento belicista, uma vez que este atinge, tão somente, nossa parte física, enquanto ela encontra abrigo na mais incauta consciência humanística, a fim de dominar os desprevenidos intérpretes, que a aceitam e a acolhem, como dogma incontestável.

 

Estratégia, esta, já comprovada cientificamente por notáveis pesquisadores, após exaustivos estudos psiquiátricos, que a mentira, quando admitida e adunada, atinge o “córtex” do cérebro dessas infelizes e crédulas criaturas humanas, “insight” (como dizem eles), ora chamados de robôs, ancorando-a nas mentes patológicas e conduzindo-a à incapacitação de eximirem quaisquer tipos de raciocínio axiomático, que pudessem contraditá-los.

 

Notadamente, considerada uma falácia, derivada do verbo latino fallere, que significa enganar, designando-se por um raciocínio errado, mas com aparência de verdadeiro, na lógica retórica de “argumento”, todavia, incoerente, sem fundamento, invalido ou falho, na tentativa de se querer provar de forma eficaz.

 

São argumentos que, ordinariamente, tentam alcançar uma persuasão, podendo parecer convincente para parte do grande público, mas não deixam de serem falsos por causa disso.

No sentir dos notáveis psicoterapeutas, “reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica. É importante conhecer os tipos de falácias para evitar armadilhas, coerentes na própria argumentação e, para reconhecer e  analisar a reflexão alheia. As falácias que são cometidas, involuntariamente, designam-se por paralogismos, e as que são produzidas de forma a confundir alguém, numa discussão, intitulam-se por sofismas.

Restou observado, também, por esses expertos e versáteis estudiosos, que há situações onde ocorre uma predominância dos afetos sobre a reflexão consciente, com subsequente alteração do juízo da realidade e com repercussões secundárias no comportamento social do indivíduo. São nominadas de Ideias Supervalorizadas, e conhecidas, também, como Ideias Prevalentes ou Ideias Superestimadas, quando o pensamento se centraliza, obsessivamente, num tópico, especialmente definido, e carregado de uma enorme carga afetiva.

A imagem literal, através da qual se estigmatiza o possuidor das Ideias Supervalorizadas é a do indivíduo fanático, cuja convicção acerca de sua Ideia Superestimada, desafia toda argumentação em sentido oposto, inclusive o contrargumento, embasado em elementos lógicos e razoáveis.

Tendo em vista a grande força sentimental propulsora da convicção prevalente, tal pensamento passa a ser dirigido exclusivamente pela emoção, comumente por um êxtase doentio e com total descaso para com a lógica ou para com a razão. A necessidade íntima convocada por este psiquismo problemático pode encontrar algum conforto na adoção de uma crença; seja ela política, religiosa, ideológica, filosófica ou artística, de tal forma que o indivíduo se encontra cego para todas as evidências, que não compactuem com sua ideia prevalente.

Tudo aquilo que possa comprometer ou ameaçar o valor e o significado atribuído à Ideia Supervalorizada é recusado pela consciência endêmica e, quanto mais a realidade dos fatos sugerir conclusões contrárias à tais pensamentos, mais claramente perceberemos a sua não-normalidade.

O estudioso francês, Elle Cheniaux, destingui esta patologia como delírio, assim chamado disturbio psiquico polissêmico, por  representar uma alteração do conteúdo do pensamento, de acordo com a definição clássica de Karl Jaspers, o pai da psicopatologia fenomenológica, sendo ele um juízo patologicamente falso, de conteúdo impossível, não suscetível à influência e caracterizado por uma convicção extraordinária.

O sagaz estrategista, que emprestou seu nome à utilização dessa presunçosa artimanha, no passado, Nicolô Maquiavel, quando consultor de monarca  italiano,  disse: “Os homens são tão simples, que quem quer enganar, sempre encontra alguém que se deixa enganar”;  enquanto o inolvidável, Mahatma Gandih, cuja retidão de caráter é universalmente acreditada, dela proferiu a seguinte assertiva, “Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida.”

De outro modo, porém, ainda mais enfático, em seu discurso de posse, como presidente da grande nação norte-americana, John F. Kennedy, asseverou: “Pode-se enganar a todos, por pouco tempo; pode-se enganar alguns, o tempo todo; mas, não se pode enganar a todos, o tempo todo”, enquanto o consagrado primeiro ministro inglês, Winston Churchil, para continuar nessa seara política, assim, tergiversou: ” Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo, antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir”; e o internacionalmente reconhecido intelectual, Bertold Brecht, asseverou: ”Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso, e é o que comumente ocorre, como sói aqui acontecer.

Em seus tresloucados arroubos discursivos, Adolf Hitler, aduzia: As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha.” 

Mas, não foi uma mentirinha, vez que ela exterminou sessenta milhões de pessoas, em todo mundo.

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    Benito Caparelli  é juiz do Trabalho, aposentado, em Mato Grosso.

 

 

 

 

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