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Asilo “Classe A” faz sucesso em São Paulo. O cuidado com os hóspedes fica por conta dos 220 funcionários (o dobro do número de residentes). Cada hóspede paga por mês no mínimo R$ 10.400, com todos os serviços incluídos, inclusive academia, aula de pilates e alongamento. Existem três médicos de plantão, mas o acompanhamento médico é feito fora do Lar.

Como é a vida em um asilo ‘classe A’

Por Maria Fernanda Ziegler | PORTAL IG

A rotina dos 109 idosos que moram no Lar Sant’ana, em SP, cuja mensalidade é de R$ 10 mil e inclui alongamento e pilates

Maria Fernanda Ziegler/iG

No Lar Sant’ana, em São Paulo, há aulas de ginástica e musculação voltadas para o idoso

Quando Ana Maria Vanderlinder, de 71 anos, contou para a irmã e melhor amiga que ia morar em um asilo, ela recebeu como resposta uma cara feia. A reação deixou a dona de casa extremamente magoada. Não era possível. Como assim sua maior confidente não a apoiaria desta vez? Resolveu apelar para o diálogo, o pai das relações, e questionou a irmã. “Eu estou é com inveja, sua boba. Também queria ir”, respondeu a irmã com uma gargalhada.

Desfeito o desentendido, no dia 18 de março deste ano, Ana Maria se mudou para o quarto de 30 metros quadrados no Lar Sant’ana, um dos asilos classe A da capital paulista. Antes disso, ela já frequentava o local três vezes por semana para aulas de pilates e ginástica. Viúva há 17 anos, recentemente teve cálculo renal e precisou operar os rins. “Aqui é como morar num flat. Além do mais, eu tenho todos os serviços na minha mão. Vi a preocupação na cara das minhas três filhas quando fui operada e não quero dar trabalho para ninguém”, diz toda faceira.

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Ana Maria Vanderlinder, de 71 anos, decidiu mudar para o asilo mesmo cheia de saúde

Bonitona, certamente a musa do asilo já foi reparada por Francisco Serra Rocasalbas, de 94 anos e há um ano e meio morando no Lar. O catalão é galanteador e de acordo com funcionários está de paquera com duas mulheres mais ou menos da idade dele, uma interna e outra que vai ao local para fazer aula de alongamento. Ele, no entanto, não assume nem revela como administra a situação. A arte do silêncio é secular, mais antiga que ele, e malandro que é malandro fala pouco.

Francisco desconversa, dá uma pausa, um riso de canto de boca e conta que veio morar no Brasil fugido da Guerra Civil Espanhola, que ocorreu entre 1936 e 1939. Tinha acabado de se casar com a mãe de suas três filhas, nas ilhas Canárias. Conhecia o cônsul do Brasil na Espanha que indicou o País como refúgio. Músico, tocador de violino e trompete, fez muito dinheiro participando de orquestras pelo Brasil a fora. Certamente também viveu muitos romances.

Atualmente, seu Francisco integra o Grupo de Homens do Lar. Com a mediação de psicólogos, a espécie de confraria tem conversas que vão muito além do futebol, mulher e cerveja. Eles conversam também sobre luto, finitude, casamento, adultério, amor, velhice e o que mais for pedido pelos 16 homens que integram o grupo. É bom lembrar que asilos contam com uma população maioritariamente feminina, elas vivem mais que os homens. “Outro dia estávamos conversando sobre casamento e surgiu o papo de quem nunca teve uma amante”, ri o psicólogo Guilherme Afonso, de 23 anos, e que media a conversa dos velhinhos.

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Francisco Serra Rocasalbas, de 94 anos, prefere viver no asilo a aturar a marcação cerrada das filhas que ele visita toda a semana. O catalão é galanteador e, dizem, está namorando

O Grupo de Homens é um sucesso e ajuda os idosos na adaptação a nova vida e também a como aprender a viver a velhice. “Não derramei uma lágrima quando os meus pais morreram, mas outro dia soube casualmente que o meu neto Daniel tinha morrido já há um ano. Levei um choque. Sentia falta dele e perguntei. Foi quando me contaram. Chorei três dias inteiros”, lamenta o catalão.

Viúvo há muitos anos, vai para a casa das filhas duas vezes por semana. “Se eu morasse com elas, elas iam torrar a minha paciência”, disse com um sorriso.

No Lar ele convive com outros 109 moradores. São 120 suítes, sendo que 10 deles estão em reforma. O cuidado com os hóspedes fica por conta dos 220 funcionários (o dobro do número de residentes). Cada hóspede paga por mês no mínimo R$ 10.400, com todos os serviços incluídos, inclusive academia, aula de pilates e alongamento. Existem três médicos de plantão, mas o acompanhamento médico é feito fora do Lar. Todos os hóspedes tem plano de saúde. De acordo com os coordenadores do asilo, normalmente, a conta é paga pelos próprios hóspedes que costumam ser os arrimos de família.

1 Comentário

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  1. - IP 177.193.131.103 - Responder

    ah, seria bom um asilo desses para os idosos do SUS

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