GRANDE, COMO ELE É GRANDE: Aos 84 anos, Dom Pedro Casaldáliga continua como fonte de inspiração para políticos e idealistas de esquerda no Brasil. Filme “Pés descalços sobre a Terra Vermelha” contará a história do lendário bispo do Araguaia

Luz, câmera… bênção!

História de Dom Pedro Casaldáliga chegará às telas dos cinemas sob as bênçãos do lendário bispo que mescla fé, coragem e muita polêmica no Araguaia mato-grossense.

Por Leandro Trindade,
especial para RDM

Foram três anos de trabalhos de campo e pesquisas, mais de oitenta pessoas na produção, e a construção de uma cidade cinematográfica, para que em julho começassem as gravações do filme “Pés descalços sobre a Terra Vermelha”, que contará a história de Dom Pedro Casaldáliga, o lendário bispo do Araguaia, em Mato Grosso.

Segundo o jornalista espanhol Paco Escribano, o filme é uma adaptação do livro que escreveu em 1996, com o mesmo título, e que relata os primeiros anos do religioso em São Félix do Araguaia, sua luta contra a Ditadura Militar (1964-1985) e a adesão à Teoria da Libertação, corrente duramente reprimida pelo Vaticano.

Escribano é o homem de confiança de Dom Pedro na produção. Coube a ele convencer o bispo a autorizar o projeto cinematográfico. Casaldáliga resistia à ideia, segundo ele, para evitar a glorificação de uma pessoa, uma vez que sua luta seria comunitária e não individual.

Hoje, Paco diz que Casaldáliga está empolgado com os trabalhos, principalmente na oportunidade de a juventude conhecer, não a sua história, mas os valores das causas que defende, segundo o jornalista, Dom Pedro o ensinou que “as causas são maiores que a vida, pois são elas que dão sentido a nossa existência”.

O filme terá passagens curiosas e dramáticas, lembrará o momento que o Papa, maior liderança católica do mundo, chamou Dom Pedro Casaldáliga para uma reunião pessoalmente em Roma (Itália), para falarem sobre seus posicionamentos em relação a temas políticos e aos processos de expulsão do Brasil, mas também abordará o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, que foi confundido com Casaldáliga e alvejado por disparos da própria polícia, morrendo nos braços do bispo.

O padre Burnier faleceu tragicamente em 12 de outubro de 1976, em Goiânia (GO), depois de ter sido baleado por um policial na tarde de 11 de outubro, em Ribeirão Cascalheira (MT), quando, junto com Dom Pedro Casaldáliga, intercedia em favor de duas mulheres presas que eram torturadas na delegacia.

Um acervo histórico riquíssimo. A expectativa da produção é que os trabalhos sejam finalizados no primeiro semestre de 2013, para isso uma cidade cinematográfica foi montada em São Félix do Araguaia, onde acontecerão mais de 80% das gravações, que passarão também por outras cidades do Araguaia, como Luciara  e Confresa, além de cenas realizadas em Barcelona, na Espanha.

O premiado ator espanhol Eduardo Hernandez, que tem no currículo mais de trinta filmes, interpretará Casaldáliga, e assim que chegou à região declarou que este é o papel mais importante da sua carreira, pois se trata de um homem que dedicou sua vida às pessoas: “O filme não é ficção, mas realidade. Estamos contando a história real de um homem que deixou tudo para se dedicar as suas causas”.

Trajetória de lutas

Dom Pedro Casaldáliga tem 84 anos, vive em uma casa simples em São Félix do Araguaia, onde por muitos anos esteve à frente da prelazia na região. Adepto da Teoria da Libertação, enfrentou a Ditadura Militar e o latifúndio, defendendo negros, indígenas, crianças, trabalhadores e mulheres marginalizadas.

Nomeado bispo em 1971 e enviado para a prelazia de São Félix do Araguaia, assumiu a defesa dos índios que estavam sendo expulsos de suas terras por grandes projetos agropecuários financiados pelo governo, por meio da antiga Sudam. Uma carta aberta que ele lançou em 1971, denunciando os problemas enfrentados pelos trabalhadores rurais, é considerada uma espécie de precursora das denúncias do trabalho escravo que acabaram resultando na PEC do Trabalho Escravo aprovada pelo Congresso Nacional. Ajudou a criar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Conselho Pastoral da Terra (CPT).

Sofreu diversos atentados contra sua vida, além de cinco processos para expulsão do Brasil durante a ditadura e chegou a ser chamado pelo Papa para se explicar pessoalmente quanto a sua atuação religiosa, já com a saúde debilitada renunciou ao cargo de bispo no final dos anos 1990, mas continua influente em toda a região do Araguaia. Autor de seis livros, Casaldáliga continua como fonte de inspiração para muitos políticos e idealistas de esquerda no Brasil. No poema “Confissão do Latifúndio”, o religioso revela a tendência que marcaria, para sempre, sua trajetória histórica: a defesa dos excluídos.

2 Comentários

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  1. - IP 177.64.231.25 - Responder

    Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente em sua casa em Sao Felix. O bispo dispensa comentários. Existe um enorme abismo entre a postura moral de Dom Pedro e nossos políticos e empresários. E da vergonha em qualquer um.

  2. - IP 201.49.166.43 - Responder

    Pedro Casàldaliga é uma das pessoas mais lúcidas que conheço. Seus ideais e as causas que defende são compremitidas e coerentes. Uma pessoa que nos inspira a lutar por dias melhores para todos.

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