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CUIABÁ

Antes Arte do Nunca

SEBASTIÃO CARLOS e os cem anos de Manoel de Barros, um poeta singular – plural

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Antes Arte do Nunca


 
CEM ANOS DE UM POETA SINGULAR – PLURAL
Sebastião Carlos
A completude dúplice da poesia. A possibilidade de ser múltiplo e uno. A riqueza imanente do verbo. A transcendência da criação poética. A estranha possibilidade de transformar o aparentemente insignificante na grandeza polimorfa contida no universo. O vigor vulcânico da frase com a quietude búdica do criador. A palavra revolucionária através da maciez e doçura da voz que a exprime.
Assim comecei, alguns anos atrás, um ensaio inacabado sobre o poeta imenso, caudaloso e sintético, tão universal quanto local, capaz de nos encantar ao considerar que “a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” Saber que esse criador magnifico respirou este mesmo ar que respiramos, palmilhou o mesmo solo, bebeu da mesma água que percorre este cadinho. Como não amar esta terra que viu nascer um poeta tão simples, elementar, tão vasto e superior como esse, e por isso mesmo, amá-lo ainda mais. Essa incompreensível simultaneidade só possível com, e pelo, fabular da ficção, um terreno onde a poesia reina incontrastável, se realiza plena em Manoel de Barros.
Sob que ângulo verificar um grande poeta? Ora, a linhagem dos grandes vates quase nunca cabe nos estreitos muros de uma análise literária ou nos caminhos perfeitos do bom-mocismo. Examinemo-los sob as lentes mais aguçadas e os veremos como num inquietante calidoscópio.
Num tempo de tanto conformismo, os espíritos inquietos e criadores haverão de colocar na moldura um verso – lema como este: “Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito.” Imagino os existencialistas de Sartre e Simone de Beauvoir, de Camus e Gabriel Marcel a Boris Vian lendo um verso como esse. A eterna busca da liberdade, mais como um ato próprio de vontade do que resultante de uma situação externa. Vejo nesse “entre pedras – liberdade caça jeito” a expressão autêntica daquilo que, do ponto de partida de uma questão nuclear para essa corrente filosófica – “a atitude existencial” – passou a ser o posicionamento mais exigido para Homem moderno, colocado que foi diante de um mundo sem sentido e marcado pelo absurdo.
Mas o nosso poeta, por ser rebelde, [“Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.”] teve uma bandeira que, aparentemente individualista, lançou âncoras para o universo: “A maior riqueza do homem / é a sua incompletude.” E nesse ponto promove um encontro entre vertentes mais aparentemente contraditórias das filosofias contemporâneas. Na esquina da criação poética de Manoel de Barros batem ponto tanto o niilismo individualista [Fui criado no mato e aprendi a gostar das /coisinhas do chão – / Antes que das coisas celestiais.] quanto as vozes revoltas das massas. [“Meu quintal / É maior do que o mundo.”]. Mas a sua inquietude humanista se completa, por suas próprias palavras: “Mas eu preciso ser Outros”.
E, por precisar ser Outros, Manoel de Barros, tal como a esfinge, nos coloca de modo dramático diante do inevitável da arvore do conhecimento. Conhecer torna-nos comprometido com o Ser e o inescrutável Destino:
E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.
Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
Esse poeta imenso nasceu aqui mesmo no Porto, bairro dos mais antigos de Cuiabá, chamado no passado de 2º Distrito. O dia foi 19 de dezembro. Pouco tempo depois, a família muda-se para Corumbá. Em 1937, publica “Poemas Concebidos Sem Pecado”. Em 1941, no Rio de Janeiro, conclui o curso de Direito e na década de 1960, já com três livros publicados, vai para Campo Grande onde fica até falecer em 13 de novembro de 2014. Ao todo publicou cerca de vinte livros, que são hoje classificados como dos mais significativos da moderna poesia brasileira.
É sem dúvida, um dos grandes nomes da literatura nacional. Mas, atenção não pense que esse reconhecimento veio fácil, nem imagine que foi reconhecido em sua terra. Nada disso. Já passava dos sessenta quando Millôr Fernandes publicou algumas de suas poesias em jornais e revistas do Rio de Janeiro. Na sequencia, vieram os elogios partidos de nomes respeitáveis que o consagraram definitivamente. Publicou mais livros e ganhou prêmios. Ah! Aí sim, se tornou conhecido e reconhecido em sua própria terra.
E podemos, como meros e humildes mortais, responder à visceral indagação do vate:
Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer.
 
E então alguns poucos te respondemos, pois haveremos de prestar-lhe as vênias e os tributos possíveis.
À proposito, neste dia 5 a UFMT, numa denominada “exposição coletiva de arte híbrida” começa a celebrar o centenário do Poeta.
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Carlos Gomes de Carvalho é Presidente da Academia Mato-Grossense de Letras. De poesias, publicou: A Arquitetura do Homem, Hematopoemas, Pássaros Sonhadores.
 
 

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A verdade vos libertará

LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  GREGORIO DUVIVIER E OS PRIVILÉGIOS DA MAGISTRATURA BRASILEIRA: Um juiz, se for sem-vergonha, o pior que pode lhe acontecer é ser condenado a receber aposentadoria, no resto da vida, sem perder nenhum benefício. DEU NA HBO

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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