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Antes Arte do Nunca

SAÍTO mostra que também sabe fazer poesia e, na companhia de Fernando Pessoa e Baudelaire, viaja nos e com os versos. "Pelos versos se sabe do incomum. São como os seres extraordinários. Caminham e se fazem notar"

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Antes Arte do Nunca

Fernando Pessoa, Charles Baudelaire e Gonçalo Antunes de Barros Neto, o Saíto

Fernando Pessoa, Charles Baudelaire e Gonçalo Antunes de Barros Neto, o Saíto


Versos a vigiar
POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO
 
Escreve Fernando Pessoa: ‘Da mais alta janela da minha casa/Com um lenço branco digo adeus/Aos meus versos que partem para a humanidade’. Sim, escreve-se algo que sempre parte. Como vai (?), como chega (?), se bem… Ou com tristeza. Para encantar ou edificar, atingir ou tergiversar, não importa, é só desbravo.
E continua Pessoa: ‘E não estou alegre nem triste/Esse é o destino dos versos/Escrevi-os e devo mostrá-los a todos’. Cria-se para a vida, nasce para todos, e do tudo ei-lo para caminhar. Não voltará para Pasárgada, ainda que Bandeira.
O verso importa; Alberto Caeiro o afirma, criatura na arte… Quem pode desmentir? Partiu, sim; e ganhou sustância, na visão romântica, ao tempo suplanta. Escrever para si?
Com Baudelaire sabemos que a grande loucura da moral usurpa em todas as discussões literárias o lugar da pura literatura. ‘O Belo é mais nobre que o Verdadeiro’? Se o acaso for por afirmativa, então a arte é maior que a ciência. Se ao infinito não se chega por números, a poesia alcança o impossível.
Para onde anda o lugar comum? Pelos versos se sabe do incomum. São como os seres extraordinários, Vips sem ‘carteirada’. Caminham e se fazem notar, do ordinário se tira a ovação.
Um dia conhecemos o ‘maluco beleza’ e chegamos à ‘Caetanada’, de cueca nas formas sociais, na sala de artistas modernos. Quem se lembra da bailarina? São versos que se apagam; mas partiram e teve a quem chorá-los, com um lenço branco, dizendo adeus.
Para se entender o mundo, aliás, o novo mundo, somente munido de um lenço; lenço de cor, vermelho como as lágrimas dos versos da vida, da vida levada por Zumbi, Gandhi, Luther King, Mandela, Tiradentes, Alan Berg, Madre Tereza, Frei Betto, Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff, Hanna Arendt, Maria da Penha, e tantos outros que não se contentaram em somente ouvir o apito do guarda da esquina.
A cada verso que parte, ainda que nos ‘bailes da vida ou num bar em troca de pão’ (Milton Nascimento), choramos. E perguntamos: Onde estará ruminando? Qual semente lançada ao vento, o verso é de presa fácil para aqueles que sabem amar. A terra é arada.
As conquistas que temos nos arvoram em caminhada. De verso em riste, força maior que as armadilhas. A cada baforada de meu cachimbo, vejo em escrita o que sinto em pensamento, devemos dialogar. E dialogando em sentimento, livres somos para marchar. A liberdade não tem passagem e dela não se cura, inata o necessário. Se a preço alvissareiro, as veias na luta irão sangrar. De poesia se cuida, as armas a derrotar. Fujam os efêmeros, do tempo, mais que em seu tempo, a avançar.
É por aí…
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – O SAITO, magistrado e professor, escreve aos domingos em A Gazeta (email: [email protected]).

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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