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PABLO VILLAÇA: “Bacurau”, o filme, aponta que o Brasil segue vítima de um contínuo processo de colonização

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Antes Arte do Nunca

Cena de Bacurau

 

Dirigido e roteirizado por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com: Barbara Colen, Sônia Braga, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Karine Teles, Antonio Saboia, Alli Willow, Jonny Mars, Chris Doubek, Brian Townes, Lia de Itamaracá e Udo Kier.

A diferença de O Som ao Redor e Aquarius para Bacurau é a diferença entre um Brasil guiado pela inclusão social e o Brasil de Bolsonaro; entre um país parcialmente sabotado por uma classe média com orgulho ferido por ver diminuída sua autopercepção de “elite” e de um país presidido por alguém que enxerga minorias como inimigas que merecem a sarjeta e o cassetete. Enquanto nos dois primeiros filmes o diretor Kléber Mendonça Filho alfinetava a soberba de quem deveria se identificar com os mais humildes, mas insiste em se ver como igual dos poderosos, e apontava a teimosia como resistência, aqui a degradação da situação política e social da nação o leva a apostar na radicalização como única possibilidade viável. Antes, a raiva era subtexto; agora, discurso.

O mais fascinante nesta complexa experiência co-dirigida por Mendonça e Juliano Dornelles (designer de produção das obras citadas anteriormente) é sua paciência ao construir e revelar suas alegorias – e, não à toa, minhas anotações feitas durante a projeção trazem, por volta da marca dos 30 minutos, a indagação “o que é este filme exatamente?”. Aliás, o roteiro escrito pela dupla de diretores atira no lixo o conceito de “intriga de predestinação”, já que duvido que qualquer um seja capaz de antecipar na primeira metade do longa o que ocorrerá na segunda.

Abrindo a narrativa na órbita terrestre até chegar a um caminhão-pipa que leva água potável para a cidade-título, Bacurau já investe no simbolismo em seus primeiros instantes ao trazer o veículo atropelando vários caixões espalhados por uma estrada esburacada e passando diante de uma escola em ruínas antes de entrar no trecho final de terra que o conduzirá ao seu destino. Na boleia e ao lado do motorista encontra-se Teresa (Colen), que está retornando ao lugarejo para o enterro de sua avó Carmelita (Lia de Itamaracá) – e um dos poucos tropeços do roteiro é introduzir a personagem de modo tão destacado, já que cria no público a expectativa de estar conhecendo a protagonista quando, na verdade, ela assumirá um papel periférico logo depois. O problema nesta estratégia é adiar sem necessidade a compreensão do espectador de que o protagonismo aqui pertence à própria Bacurau e ao seu espírito de resistência histórico (“histórico” no contexto de sua existência ficcional, obviamente).

Leia Também:  LITERATURA NA TV: Na segunda-feira (28), o jornalista e escritor Ruy Castro abrirá a série Super Libris, do SescTV. A série traz entrevistas com 52 escritores e reúne mosaico de quadros curtos sobre o mundo literário. Super Libris é um programa que mergulha na literatura, unindo entrevistas com 52 escritores e curiosidades que fomentam o mundo da criação de livros (como “onde os escritores escrevem?”, a “fagulha que originou a vontade de escrever”, “booktubers” e “livros mais comentados”)

Este espírito alcança forma, em parte, através de figuras como o ex-guerrilheiro Pacote (Aquino) e seu antigo líder Lunga (Pereira), a médica Domingas (Sônia Braga, cuja composição contrastante com relação a Aquarius expõe mais uma vez sua imensa versatilidade), o velho professor Plínio (Rabelo) e o naturalista Damiano (Carlos Francisco), entre outros. Aliás, a decisão de preencher a cidade com os rostos marcantes de atores não-profissionais confere personalidade e autenticidade ainda maiores a Bacurau, que é imaginada pelo designer Thales Junqueira como um minidistrito composto essencialmente por uma única rua de terra que abriga a maior parte dos casebres, a escola, a igreja (sempre vazia) e o museu – uma simplicidade que, de um ponto de vista estrutural, reflete a abordagem da montagem, que investe com eficácia em fusões, cortinas e fades para pontuar a transição entre sequências. Ao mesmo tempo, a excelente fotografia de Pedro Sotero se equilibra bem entre a plasticidade de passagens como aquela em que várias crianças testam seus medos à noite e a secura quente do cotidiano do vilarejo.

Igualmente admirável, vale apontar, é a fluidez com que a narrativa salta de um gênero a outro, de um tema a outro e de uma alegoria a outra de uma maneira que deveria resultar em caos, mas acaba por criar uma estrutura coesa na qual elementos conflitantes se complementam perfeitamente, equilibrando-se entre John Carpenter e Glauber Rocha, entre o naturalismo e o fantástico e entre o horror e a (quase) ficção-científica. Ambientado em “alguns anos no futuro”, Bacurau imagina um Brasil (oficialmente) dividido entre Norte e Sul e no qual este último – São Paulo, em particular – promove execuções públicas num reflexo do milicianismo que certo segmento da população já celebra de forma chocante em nosso presente.

O Sudeste, por sinal, é também a origem de dois personagens significativos que, vividos por Karine Teles e Antônio Saboia, desejam desesperadamente se enxergar como “parceiros” de um grupo de estrangeiros (europeus e norte-americanos, claro): “Somos de uma região rica, mais parecida com vocês”. Claro que, no grande esquema, pouco mais são do que peões de uma estratégia de dominância, manifestando aparente orgulho de onde vieram, mas mostrando-se mais do que dispostos a entregar nosso patrimônio aos estrangeiros (lembram de alguém assim?) – e que um deles seja “assessor do poder judiciário” é a ironia final que situa Bacurau em nosso trágico contexto histórico (bem como o fato de duas vítimas fatais deste contexto serem identificadas pelos nomes “Marisa Letícia” e “Marielle”. E não se preocupem, nada disso é realmente spoiler; aliás, eu argumentaria que o filme é imune a estes.).

Leia Também:  URANIANO MOTA E OS 29 ANOS DA MORTE DE GILBERTO FREYRE: Em uma época de doutrinas racistas no Brasil e no mundo (lembremos o grande Euclides da Cunha a falar de raça frágil em Os Sertões), onde sempre se disse que nós éramos sub-raça (até hoje há quem insista nisso) por força da miscigenação, Gilberto Freyre destacou o avanço da mistura de raças, e não só a mistura, Freyre ressaltou o papel do negro como agente da nossa formação cultural e de raça. Ele chega a frases lapidares, como na resposta que dá à ideia reinante de que o negro era feio: "feia é a miséria" (em que o negro vivia)

O que Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles acabam por apontar com precisão é como, de modo mais ou menos descarado, o Brasil segue como vítima de um contínuo processo de colonização, seja esta territorial, cultural, institucional ou econômica. Uma colonização que não exige ação militar por parte dos invasores, já que contam, em sua tarefa, com o auxílio devotado de parte da classe política (o que também é refletido no roteiro).

Em certo momento desta excepcional obra, a personagem de Sônia Braga menciona como o Estado vem distribuindo para a população um “medicamento” tarja preta que, chamado de “Brasol IV”, tem o efeito suposto de atuar como anestésico, mas, na prática, acaba por mergulhar o povo numa postura de inércia.

Algo que a já mítica Bacurau contorna com sua valentia diante da opressão, sua persistência frente aos interesses externos e à determinação de um povo humilde que reconhece na união a única chance de combater os poderosos que o enxergam como um incômodo a ser eliminado.

Que a realidade siga a ficção.

Texto originalmente publicado durante a cobertura do Festival de Cannes de 2019.

15 de Maio de 2019

Pablo Villaça é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil.

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  Programa "Poesia e Prosa com Maria Bethânia" estreia neste domingo. Bethânia emociona ao debater e desvendar poesias. O projeto democratiza a escrita poética ao levar para lares de todo o país debates sobre as obras de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Castro Alves e João Cabral de Melo Neto

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

Leia Também:  MAESTRO FABRÍCIO CARVALHO: Cultura é comunicação, é educação. Não preciso grampear pra saber o que o outro pensa

Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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