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Antes Arte do Nunca

O banquete de palavras de João Antônio Neto. O acadêmico, professor e desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, aos 95 anos não para de produzir e prepara 4 novos livros

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Antes Arte do Nunca

João Antonio Neto

João Antonio Neto


LITERATURA
O banquete de palavras de João Antônio Neto
O acadêmico, professor e desembargador aposentado, aos 95 anos não para de produzir e prepara 4 novos livros
BEATRIZ SATURNINO
DC ILUSTRADO – DIÁRIO DE CUIABÁ
Ah, esse sorriso não nega sua personalidade! Um homem simples, que não gosta de orgulho, mas é antenado com a sociedade e gosta de cultuar amizades. O cargo de desembargador, agora aposentado, não lhe trouxe vaidades de que o mundo hoje está cheio. Ainda, para ele que ama a vida e não tem medo da idade, nada de complexidade: o negócio é descomplicar. Aos 95 anos, João Antônio Neto não para de escrever e não deixa de ler um dia sequer. Tanto que já está na produção de mais quatro livros, enquanto outro está pronto na gaveta.
“Continuo escrevendo como se tivesse 20 anos, todos os dias”, sorri o escritor, poeta, jurista, natural da cidade de Couto Magalhães, goiano antes da divisão de Goiás e tocantinense após a criação do novo Estado de Tocantins.
João Antônio Neto lançou recentemente a coleção “Banquete de Palavras”, com os livros “Revelação das Palavras”, “Palavras Grávidas” e “Banquete de Palavras”, pela Entrelinhas Editora e já possui o livro “Judicatura Amável” pronto para ir à gráfica. Está preparando “Palavras Mesmíssimas”, “Palavras Reversas”, “Palavras quase outros” e a continuação de “Palavras Grávidas.
Na verdade, se for falar em “vaidade boa”, a que ele carrega com entusiasmo é o fato de sempre ocupar o primeiro lugar enquanto estudante.
“Eu comecei a estudar em casa, com a minha mãe. Quando eu fui para a escola eu já era alfabetizado. Me lembro até da figura de abertura do primeiro livro. Era uma mulher de vestido comprido, com um fio de linha brincando com um gato, e lá foi que eu li a primeira referência a Cuiabá. Tinha uma lição no fim do livro que dizia: Um índio matou a pau uma pessoa”, recorda-se João, como um bom amante dos estudos. Naquela época tinham índios da etnia Carajás para todo o lado, próprio do Araguaia, além dos índios tidos como bravos, os Xavantes, que viviam isolados, no Rio das Mortes.
Pois bem, ele é um estudioso que gosta de filosofia, história, filologia, antropologia, literatura, ensaios, biografias e de latim, língua que já foi obrigatória no curso primário, junto com o francês, e até possui alguns destes livros conservados. Suas influências foram os escritores realistas, como Olavo Bilac e Coelho Neto, dentre outros.
Sua peregrinação no mundo das Letras lhe rendeu a ocupação da cadeira de número 25 na Academia Mato-grossense de Letras (AML), desde 1945. Ainda é professor titular, fundador do curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Como quase todo jovem, que começa com a poesia e depois vai para a prosa, o primeiro livro de João, “Vozes do Coração”, é de poemas juvenis que falam do amor doméstico, de pai, mãe e irmãos, publicado quando estudava no Colégio Salesiano São Gonçalo, em Cuiabá. O próximo é uma reedição de “Coletânea Poética – Remanso”, publicado originalmente em 1982, como uma celebração do rio Cuiabá.
João Antônio Neto diz não saber se é goiano ou tocantinense. Tocantins reivindica que ele se declare de lá, mas mato-grossense foi o que ele se tornou. Quando criança o pai comerciante se mudou de Porto Franco, apelido da cidade de Couto de Magalhães, com sua mãe, duas irmãs e cinco irmãos para a cidade progressiva de “Lajeado”, como era conhecida a cidade de Guiratinga, no Leste de Mato Grosso, movimento este provocado pela riqueza de diamante nos garimpos local. Era o ano de 1929, quando estourou a crise mundial, por conta da quebra da Bolsa de Valores de Nova York.
No interior do Estado ele estudou no colégio Salesiano até o quinto ano e veio com os irmãos, trazido pela mãe para estudarem em Cuiabá, enquanto o pai tocava o comércio em Guiratinga, como um forte comerciante da região.
Após o ginásio, em Cuiabá, João Antônio Neto partiu para o Rio de Janeiro e fez o curso preparatório para o vestibular e estudou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde graduou-se em 1948, com especialização em Direito Penal e Processo Civil. Desde o Rio já escrevia e publicava nos jornais da universidade e fundou a “Ala de Cultura Pereira da Silva”, em homenagem ao poeta simbolista, que admirava e chegou a conhecer.
Retorna para Mato Grosso e começa advogar em Guiratinga, depois em Cuiabá e logo foi desempenhar a magistratura vitalícia do Estado como Juiz de Direito, em 1958. Nove anos depois, por merecimento foi promovido a desembargador.
Aos 95 anos, pai de cinco filhos, avô de nove e bisavô de quatro crianças, o incansável João Antônio Neto se embriaga na leitura e escrita, em seu escritório repleto de livros, que tomam conta da mesa e prateleiras, em seu apartamento no bairro Goiabeiras, onde vive.

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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