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MOISÉS MARTINS NEGA QUE SEJA HOMOFÓBICO: O poeta, escritor, músico, compositor, pioneiro como cirurgião dentista, diz que jamais se opôs a gays na Academia Mato-grossense de Letras. “Jamais seria homofóbico, pois tenho muitos primos homossexuais na família”, explica. “Sou amante da justiça e não tenho nada com essa questão de querer proibir a entrada de gays na Academia”

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Antes Arte do Nunca

Moisés Martins, cantor, compositor, cirurgião dentista, ex vereador em Cuiabá e membro da Academia Mato-grossense de Letras

Moisés Martins, poeta, cantor, compositor, cirurgião dentista, ex vereador em Cuiabá e membro da Academia Mato-grossense de Letras

PERSONALIDADE

Moisés Martins nega que seja homofóbico
O poeta, escritor, músico, compositor, pioneiro como cirurgião dentista, diz que jamais se opôs a gays na Academia
JOÃO BOSQUO
DC ILUSTRADO – DIÁRIO DE CUIABÁ
No próximo seis de agosto, o poeta, cronista, letrista, tocador de gaita e contador de histórias Moisés Martins Jr. completa 74 anos e cheio de entusiasmo para com as coisas que faz. No dia primeiro, em sessão na Câmara Municipal de Cuiabá, Moisés Martins recebeu das mãos do vereador Adevair Cabral, a Comenda do Legislativo Cuiabano e passa a ser também comendador. O título, vamos esclarecer, concedido há uma década, num pleito do então vereador Benedito Cesarino, entretanto não fora entregue por conta dessa nossa política menor, para não dizer rasteira.
O cuiabano Moisés Martins, é bom deixar claro, nasceu em Campo Grande, hoje capital do Mato Grosso do Sul. O pai, Moisés Mendes Martins, motorista de caminhão, e a mãe, Noêmia Evangelista Martins, lá estavam antes de chegar em Cuiabá. Circunstancia do destino e que não altera o amor do poeta pela terra de Dom Aquino e que sempre procura registrar em contos, crônicas e poemas.
Abastece o seu Facebook com textos, frases ou pequenos poemas diretamente, enquanto o seu blogue na plataforma WordPress (https://moisesmartinsjr.wordpress.com/), é abastecido de tempos em tempos com casos, crônicas e poemas. O mais recente, faz questão de mostrar, conta a ‘história’ do “Garanhão da Lixeira”, cujo pano de fundo sempre é a Cuiabá, suas ruas com seus nomes originais e suas gentes.
Pergunto o que veio primeiro o poeta, letrista ou contador de história. Moisés Martins diz que o primeiro a se manifestar foi o poeta, ainda guri, com 12 anos, nos tempos de estudante do Ginásio Brasil, enquanto o letrista já adulto, dez anos depois. “Eu escrevo porque eu gosto”, afirma.
Ele faz a seguinte analise: “Eu sou cirurgião dentista, com formação acadêmica, diversas especializações. A escrita já é uma coisa subjetiva e é difícil tarjetar as pessoas quando se trata nessa área das artes”. E como saber quem é ou não poeta, é ou não artista? E lembra o caso de Flávio Cavalcanti, histriônico apresentador de TV, que julgava os iniciantes de forma humilhante. Quando a dupla Chitãozinho & Xororó se apresentou no programa, o apresentador ao fim deu seu veredito e quebrou o LP da dupla que ele considerou “inclassificável” e disse: “Vai vender bananinha”. Todos nós sabemos o que se tornaram Chitão e Xororó, hoje cantando Tom Jobim. Moisés lembra essa história para dizer que não escreve para agradar ou não, mas que simplesmente escreve aquilo que sente. “Simplesmente escrevo”, diz. Lógico, sempre com a expectativa que alguém vá gostar.
Como é que acontece a inspiração? O repórter quer saber e como o artista faz a distinção de letra e poesia? Ele responde que a composição é que o mais importante. “O que é o poema? O poema é um texto bordado de música” e ele conta que já disseram que os poemas que escreve tem o componente musical muito fácil. A prova concreta é o clássico “Pixé”, em parceria com Pescuma.
Toda letra, poema, tem uma história que fala de pessoas ou casos. Ele conta que estava na Kombi da Secretaria de Cultura, quando localizada no Centro Cultural Silva Freire, no Coxipó, quando seguia, viu do outro lado uma pessoa, que lembrou uma tia, Ruth, que foi casada com o irmão de Agrícola Paes de Barros e teve 12 filhos, e era magrinha de dar dó e morava no bairro do Porto, perto do Arsenal de Guerra, e que tinha um pilãozinho de fazer pixé. Ao ver essa senhora, lembrou da tia e escreveu de uma tacada, numa página da agenda, a letra e deu a introdução melódica enquanto Pescuma, com seu talento, musicou. “Milho torradinho socado/ Canela açucarada/ A branca pura daquela gurizada/ Do tempo do campo d’Ourique/ Quando a pandorga, o finca-finca, o buscapé e o trique trique/ Pintavam o céu com pingos de luz”.
Moisés Martins também já foi secretário de Cultura do Município de Cuiabá. No entender dele, Cuiabá e Mato Grosso não tem uma política cultural. Segundo ele, a cultura tem que andar de mãos dadas com a Educação e com os Esportes. Ele diz que uma das dificuldades, como exemplo, são os professores da rede de ensino que vieram de fora e tem dificuldade de transmitir a cultura local. Quando era secretario, mandou fazer uma cartilha cívica, com o hino de Cuiabá, o brasão e a bandeira, para ser distribuída em todas escolas. “Há uma carência de cultura cívica”, afirma. No plano político dele é a cultura cívica com primeiro foco.
Para Moisés há uma urgência de se manter um núcleo de contato com cada município. Em muitos, segundo ele, não se sabe nada da cultura de Mato Grosso, como nós aqui, na Capital, não sabemos nada de muitos e muitos municípios. Mas, sempre um mas, a política nacional de cultura também tem lá suas falhas, com seus guetos, com jogos de poder e acaba ficando com a fatia maior dos recursos disponíveis enquanto outros ficam chupando dedo.
Ele lembra que já tentou editar por meio da Lei de Incentivo à Cultura o livro “Um Passeio Saudoso, Poético e Turístico na História de Cuiabá”, com prefácio de Aecim Tocantins. Há cinco anos está tentando editar, mas não conseguiu. Enquanto outra pessoa – que ele não revela o nome – pegou um livro de sua autoria, apresentou o projeto, recebeu os recursos e fez outra edição sem seu conhecimento. Acontece que a edição foi de péssima qualidade, feita em gráfica de fundo de quintal e agora ele está na justiça numa disputa por danos morais e materiais. “Se ao menos a edição fosse decente”, reclama.
“O que temos em Mato Grosso – há muito tempo – são eventos. Iluminação, palco e acabou e os convidados só pessoas de fora. São grandes artistas, não estou dizendo que não seja, mas e a prata da casa?”, indaga.
Membro da Academia Mato-grossense de Letras (AML), ocupando a cadeira número 8, Moisés Martins diz que, recentemente, na recepção de um novo acadêmico lembrou o dístico escrito por Dom Aquino Corrêa: “Pulchritudinis studium habentes”. “O que quer dizer isso? Cultores da beleza. Para se entrar na academia precisa de produção literária de boa qualidade, evitar as pornografias, não ter cisão de sexo, de raça e religião. E graças a Deus, a Academia tem feito isso”. Ele diz que recentemente foi envolvido numa polêmica quando foi classificado como homofóbico e contra o ingresso de gays na Academia. “Jamais seria homofóbico, pois tenho muitos primos homossexuais na família”, explica.
Nessa questão ética, ele lembra que foi o único vereador no país, quando da prorrogação do mandato, que renunciou ao mandato biônico. Ele lembra que o salário por mês equivalia a um Fusca. “Fui eleito para quatro anos. Quatro anos e um segundo seria usurpação do direito”, afirma. E cita a placa em frente à sua casa, em que está lá o registro como cirurgião número 2 de Mato Grosso. Quando o primeiro registro veio, era número 1, mas ele não aceitou, pois essa primazia não competia a ele e, sim, ao dentista João Cuiabano, que era o secretário do Conselho Regional de Odontologia. “Sou amante da justiça e não tenho nada com essa questão de querer proibir a entrada de gays na Academia”, finaliza.
Essa integridade é uma herança paterna. O pai, motorista do serviço público, guiava uma caminhonete. Um dia o filho perguntou pro velho Moisés por que ele não dava carona, se outros davam. O pai perguntou ao filho: “Você sabe ler?” e o levou pelas mãos e pediu para que lesse a legenda na porta do carro: “Uso exclusivo em serviço”.
Moisés Matins na pagina do Enock - foto Lorival Fernandes

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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