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MARIO SERGIO CONTI: A luz da poesia de Bertolt Brecht em tempos obscurantistas

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Brecht e Conti

A luz da poesia de Bertolt Brecht em tempos obscurantistas

Em artigo no jornal Folha de S. Paulo, o jornalista Mario Sergio Conti analisa o livro Bertolt Brecht – Poesia, lançado recentemente. “Um livraço de poesia traduzida traz Brecht para a atualidade nacional”, afirma.

Segundo ele, Com 300 novas traduções, é a maior coletânea da poesia de Brecht publicada em português.

A obra foi traduzida e lançada pelo poeta e designer gráfico André Vallias, como selo da Editora Perspectiva. De acordo com o site Tapera taperá, é a “mais abrangente reunião da obra poética de Bertolt Brecht em português”. “O livro não é só uma coleção muito representativa de sua poesia, mas incorpora dados biográficos, fragmentos de diários e anotações, vários dos quais documentos inéditos entre nós, inter-relacionados com a poesia e mediados por fotos e imagens em articulada montagem conceitual”, afirma.

O texto também afirma que, “certamente, esta coletânea vem muito a propósito em um momento da história em que voltamos a presenciar, horrorizados, a ameaça de retrocessos culturais e de autoritarismos de viés conservador e obscurantista”. “A poesia-crítica de Brecht, sem propriamente situar-se no âmago das poéticas pautadas pelo experimentalismo, tem, no entanto, alto nível de escrita e singularidade”, destaca.

Leia a íntegra do artigo de Mario Sergio Conti:

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Um livraço de poesia traduzida traz Brecht para a atualidade nacional

Bertolt Brecht Poesia’ é um evento maior num ano horrendo para a arte e a cultura

POR MARIO SERGIO CONTI

Um. “Bertolt Brecht – Poesia” (Perspectiva, 583 págs.) é um evento maior num ano horrendo para a arte e a cultura, assediadas que estão no Brasil pela imbecilidade reacionária. Com 300 novas traduções, é a maior coletânea da poesia de Brecht publicada em português.

Contra o conformismo, o poeta faz uma conclamação que cai como luva nesse Brasil no qual o poder ataca aqueles que trabalham, bota fogo na Amazônia e não faz nada quando centenas de tartarugas morrem intoxicadas por petróleo no litoral:

Não se deixem seduzir

ao trabalho e à servidão!

Por que o medo? Vocês vão

Leia Também:  SAÍTO mostra que também sabe fazer poesia e, na companhia de Fernando Pessoa e Baudelaire, viaja nos e com os versos. "Pelos versos se sabe do incomum. São como os seres extraordinários. Caminham e se fazem notar"

se extinguir com a bicharada

e depois não tem mais nada.”

Para Brecht a poesia expressa tudo que está vivo, limpo ou sujo. Ele canta até a latrina, para ele um “lugar plácido em que a gente se recosta/ tendo em cima estrelas e debaixo, bosta”. O poeta não admite meio termo; o sujeito deve ser frio ou quente porque o isentão é um conivente:

Morno nem a pau!

Branco ou preto –

Cinza me faz mal!”

Ilustração de mulher de costas vestindo biquini preto. Ela está segurando um celular e é possível ver um pedaço do horizonte que está no fundo na tela. A paisagem do fundo é composta por um céu ensolarado, montanhas e o mar com manchas pretas que são cortadas da imagem que aparece no aparelho dela.

Aqui e ali, pode-se discordar de soluções encontradas por André Vallias. Mas suas traduções reproduzem a dicção desabusada de Brecht e estão repletas de lampejos. Além do quê, a edição é bilíngue, o que permite o cotejo imediato com o original,  impresso na página ao lado.

Há mais. A introdução alentada, os trechos de diários e as notas acompanham passo a passo a trágica trajetória de um poeta perseguido pelo fascismo —mas que, quando Walter Benjamin perguntou por que ele não se refugiava na União Soviética, respondeu: “Eu sou comunista, não idiota”.

A antologia, em suma, é superior a “The Collected Poems of Bertolt Brecht”, publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos por Tom Kuhn e David Constantine. Outra vez, André Vallias, ele mesmo poeta, tradutor da ótima coletânea “Heine, hein?”, enriquece nossa cultura literária.

Dois. Como se trata de um poeta marxista, é forçoso empregar a expressão certa: o desenvolvimento das forças produtivas —no caso, tecnológicas— fez com que parte das notas de Vallias exista só na internet, num site com a adenda digital (complemento digital ao livro físico).

De fato, talvez fosse inviável imprimir todo “Bertolt Brecht – Poesia” em papel. Mas é chato lê-lo com um laptop ou um celular ao lado, tendo de ir do papel ao apetrecho eletrônico, e vice-versa. Depois de ler outros livros assim, tomara que o hábito vença o desconforto.

Leia Também:  GRANDE, COMO ERA GRANDE: O escritor E.L. Doctorow morreu aos 84 anos. Doctorow foi autor de romances populares e aclamados pela crítica — incluindo “Ragtime,” “Billy Bathgate” e “A marcha” —, nos quais situava personagens fictícios em contextos históricos facilmente reconhecíveis, em meio a figuras conhecidas e se utilizando de formas narrativas não convencionais. No Twitter, o presidente Barack Obama lamentou a morte de Doctorow, descrito por ele como "um dos maiores escritores da América"

Três. Ficou para a adenda digital uma curiosidade sobre Brecht e o Brasil. O caso era conhecido, mas Vallias o expande. Semanas antes de morrer, em 1956, o poeta recebeu em Berlim a visita de um velho amigo, Willy Keller, ator e diretor que em 1935 se refugiara no Brasil.

Keller lhe levou uma antologia de poemas brasileiros que traduzira para o alemão. Tinha muito interesse em saber o que o velho amigo achava de Drummond, presente na antologia, para ele uma “voz irmã” da de Brecht. O poeta leu o livro e logo no dia seguinte o comentou com Keller.

Para frustração de Keller, Brecht não disse uma palavra sobre Drummond. Em compensação, retrabalhou o poema “Lirismo”, de Domingos Carvalho da Silva —autor menor da mofada geração de 45, nascido em Portugal e que com nove anos se radicou no Brasil.

A versão de Brecht é mais vivaz e sonora que o original de Carvalho da Silva e a tradução de Keller. Ela entrou nas obras completas do poeta alemão como se fosse de sua autoria. Na coletânea de Kuhn e Constantine, porém, a referência a Carvalho da Silva aparece numa nota.

Quatro. Na apresentação do livro, Augusto de Campos escreve que “a poesia-crítica de Brecht, sem propriamente situar-se no âmago das poéticas pautadas pelo experimentalismo, tem um alto nível de escrita e singularidade. Não só merece como precisa ser reconsiderada”.

O inventor e ponta de lança da poesia concreta chama a atenção para as urgências e para os perigos postos pelo presente brasileiro; para a necessidade de combinar engajamento com alta densidade formal.

Do alto de seus 88 anos, Augusto de Campos escreve: “Volta a ser necessário ouvir as vozes contestatárias que realimentem o anseio de liberdade e de lucidez do ser humano, e os poemas de Brecht não afagam nem perdoam a injustiça, a hipocrisia e a indiferença”.

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MARIO SERGIO CONTI é Jornalista, é autor de “Notícias do Planalto”.

 
FONTE VERMELHO E FOLHA DE S PAULO

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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  PROFESSORA DE LITERATURA OLGA CASTRILON: Ivens Cuiabano Scaff, (en)cantador de palavras

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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